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<< Óbvio ululante PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 18/11/2021 às 17:35
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No dia 8 de novembro, a ‘Folha de São Paulo’ publicou um artigo intitulado ‘Por que os evangélicos importam’, em que o autor, Juliano Spyer, argumenta sobre a importância do voto evangélico nas eleições do ano que vem. Não vou entrar no tema das eleições, pois julgo que especialistas como ele podem apresentar argumentos melhores e mais convincentes do que eu. Também não é minha intenção criticar o artigo e a sua tese de que o voto dos evangélicos terão cada vez mais um peso significativo.

Gostaria de chamar atenção, porém, para o subtítulo do artigo: ‘Conversão indica melhora real na condição de vida dos brasileiros pobres’. Ao longo do artigo, são dados exemplos de como a conversão ao cristianismo evangélico melhora a condição de vida.

Tanto o subtítulo, quanto os exemplos, enumerados para confirmar essa constatação, chamam a atenção pela sua obviedade. Será que é preciso estudar Antropologia e Sociologia para constatar que uma pessoa convertida abandona o álcool e as drogas e que isso tem como consequência a diminuição da violência doméstica e a melhora significativa da vida em família? Será que é preciso fazer tese de doutorado em alguma Universidade renomada para constatar que as igrejas funcionam como uma espécie de estado de bem-estar social informal onde a presença do Estado é fraca ou inexiste? Não é isso evidente?

Infelizmente, há muitas coisas óbvias que deixaram de ser incontestáveis por um comportamento de orgulho e de cegueira espiritual. A realidade é negada e distorcida conforme a conveniência ou os interesses de pessoas e de grupos de pressão. Surge um novo autoritarismo que não respeita as pessoas, a Ciência e a realidade. O mais preocupante é que tal autoritarismo não é destituído de razão. Ao contrário, se reveste de muita razão e de uma lógica de ferro que se alimentam de si mesmos para negar e distorcer o que deveria ser evidente. Não se trata, portanto, de irracionalismo puro e simples, mas de um autoritarismo muito bem articulado, muito lógico e poderosamente persuasivo.

Não é evidente, por exemplo, que dois homens ou duas mulheres não concebem filho? Os procedimentos de fecundação ‘in vitro’ e de ‘barriga de aluguel’ são uma alternativa ética para conceber humanamente uma prole? ‘Conceber humanamente uma prole’ deveria ser também algo óbvio, mas a opinião que se dissemina na sociedade parece mostrar que perdemos também essa evidência.

A ciência genética demonstrou já há tempos que a distinção entre os sexos não se limita à genitalidade, mas está presente em cada uma de nossas células. A evidência do corpo hoje é contestada por uma teoria que afirma que a pessoa pode decidir contra o sexo biológico sem que isso tenha consequências negativas para si e para o outros.

Outra obviedade é que a fecundidade não é uma ameaça e sim sinal de saúde física. Essa evidência foi perdida para os métodos artificiais de contracepção, para a esterilização e, sobretudo, para a sexualidade depravada e para a promiscuidade.

Hoje é preciso lutar por leis que defendam o nascituro, pois se tornou duvidoso que o feto tenha a dignidade de pessoa. Não é mais óbvio que o zigoto é uma célula distinta da mãe e do pai e que, por isso, não pode ser morta por aborto provocado e que dessa célula não nascerá um animal qualquer, mas um ser humano.

Esses poucos exemplos nos alertam para a necessidade de não mais pressupor o que deveria ser óbvio. Cada um pode, com um pouco de reflexão, fazer sua lista de obviedades perdidas para as ideologias de nosso tempo e, a partir disso, entender a sua força de convencimento.

A história da Humanidade está repleta de manifestações variadas de autoritarismo em muitas de suas fases. Há não muito tempo, o nazismo convenceu uma maioria de que os judeus não eram seres humanos. O mesmo justificou o massacre das populações indígenas das Américas. Confirma-se, assim, que devemos estar alertas contra a manipulação da realidade que sempre ressurgem.

Sem perder a alegria, é preciso lutar contra os autoritarismos do passado e do presente e, com paciência e esperança, explicar o que é óbvio para cada geração. Mudando o que deve ser mudado, o mesmo se aplica ao Cristianismo. Com efeito, “sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora, um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas” (Bento XVI, Porta Fidei, 2).

Por fim, uma última pergunta: será que somente a conversão ao cristianismo evangélico melhora a condição de vida dos brasileiros pobres? Será que a conversão ao cristianismo melhora a condição de vida somente dos pobres? – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente no DIÁRIO, às sextas-feiras

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