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<< Milagre: Para que serve? PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 15/07/2021 às 15:18
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Os milagres são objeto de muito abuso. Nesse sentido, os ateus, os deístas e os agnósticos, fazem menos estrago do que os ‘vendedores de milagres’ e os ‘charlatães de plantão’. Estes últimos fazem cair no ridículo o milagre. Antídoto para o ceticismo racionalista e a credulidade ingênua são os Evangelhos que descrevem os milagres de Jesus com realismo e grande austeridade. O que e como são os milagres de Jesus? Como eles podem nos ajudar a não acreditar em qualquer coisa e, por outro lado, a não duvidar de tudo?

Desde sempre, o ser humano está numa penosa procura de remédios para os seus males, especialmente para aqueles que nos fazem sentir impotentes. Quantas vezes acontece de nos ser recomendado um curandeiro ou até mesmo um exorcista depois que a Medicina se mostra impotente? No momento em que a Medicina se rende, se recorre a qualquer coisa que dê alguma esperança. Mas será que Jesus é somente um quebra-galho a quem recorremos depois que todas as tentativas falharam?

O que o Evangelho promete? Curas fáceis? Milagres sob encomenda?

Para não cairmos nessa instrumentalização, é preciso entender que as curas narradas pelos evangelhos não são milagres que têm fim em si mesmos. As curas não se limitam aos milagres. Eles apontam para o mistério de Deus. Nas curas, Jesus revela o Deus da vida: Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. Ele quer que tenhamos a vida em abundância. Deus é aquele que faz triunfar a vida, mesmo que não elimine, de imediato, a doença e a morte física. Chegará o dia em que não haverá mais o pranto e a dor. E o último inimigo a ser vencido será a morte. Haverá vida eterna! Esse é o mistério que se antecipa nas curas que Jesus realiza. Em cada cura se torna visível e atual a promessa da vida eterna! Percebemos nas curas que a promessa da vida eterna não é somente uma esperança futura, mas uma promessa que começa a se realizar no aqui e no agora de nossa vida. A doença e a morte não têm a última palavra sobre a nossa vida.

Os milagres de Jesus são um sinal material de que, além desse valor material, têm um significado espiritual. No sentido da sua concretude material, os milagres restauram um bem perdido (por exemplo, a saúde perdida, a vida finada, a consciência ausente) ou acrescem um bem perfectivo (por exemplo, a pesca milagrosa, a multiplicação dos pães). No sentido do seu valor espiritual, o milagre tem um significado para nós: a cura do cego pode significar a cura de nossa cegueira espiritual; a ressurreição do filho da viúva de Naim oferece para nós a volta à vida da graça; a cura do menino lunático é, para todos, o dom da consciência pessoal.

Assim, ao interpretar os milagres de Jesus é preciso evitar dois extremos: o erro dos que os esvaziam da sua materialidade, como se fossem meros sinais que apontam para fora de si mesmos e o dos que fixam a atenção somente para a consistência material dos milagres, ignorando-lhes o significado espiritual. Os primeiros só valorizam no milagre o seu significado espiritual, que é eterno, mas desprezam o bem concreto do milagre. Os últimos só valorizam a materialidade do milagre, que é transitório, particular e efêmero, mas ignoram o seu significado que vale para sempre e para todos.

O milagre é, portanto, um sinal visível e concreto (cura da paralisia, da lepra, da cegueira), que tem um significado de alcance universal e permanente (a cura da paralisia é também o dom da capacidade de agir e servir; a da lepra, a purificação do pecado; a da cegueira, o dom da fé). Assim, aquilo que foi concreto e limitado para a pessoa curada tem um significado e uma eficácia também para mim, que não sou paralítico, nem leproso, nem cego.

Podemos interpretar os milagres de Jesus em vários níveis de profundidade. Em primeiro lugar, vemos neles o extraordinário que rompe com a normalidade e chama a nossa atenção porque insólito e inesperado. Num segundo nível, vemos nos milagres de Jesus o sinal de um mundo novo. Num terceiro nível, descobrimos neles um sinal do amor de Deus. Num quarto nível, identificamos um sinal da nossa confiança em Deus, pois é isso que manifestamos no nosso pedido de socorro. Num quinto nível, vemos nos milagres que toda criatura, por menor que seja, é um sinal do amor infinito do Criador. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente no DIÁRIO, às sextas-feiras

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