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<< O que acontece com a pessoa logo que morre? PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 17/06/2021 às 18:15
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Com a morte, termina o tempo que Deus dá ao homem para a livre acolhida do Seu amor e da Sua graça. Dado que, na sua liberdade, o homem, no tempo de sua vida, pode ter escolhido a favor ou contra Deus, a existência definitiva que o espera pode ser a de salvação ou a de perdição. Evidentemente que a salvação ou a perdição dependerá do que tiver escolhido o homem. Dessa relação surge a necessidade do juízo. Ora, o juízo no Novo Testamento (por exemplo, Mt 25,31ss) está unido, sobretudo, à Parusia do Senhor no fim dos tempos. Não faltam também passagens que falam do estar com Cristo imediatamente depois da morte ou de uma situação diferenciada entre bons e maus a partir desse momento (Lc 16,22).

Não é fácil encontrar no próprio Novo Testamento uma harmonização explícita entre essas passagens que falam da situação imediata de quem morre com as que se referem ao momento final. Partindo, porém, da convicção de que o homem, depois da morte, alcança um estado de salvação ou de condenação definitivos, podemos compreender o que seja o juízo particular que ocorre na morte e que consiste na retribuição imediata em coerência com a fé e as obras dessa mesma pessoa.

Várias intervenções do Magistério eclesial tratam do juízo particular. Merece menção especial a constituição ‘Benedictus Deus’, de Bento XII, do ano 1336 (DS 1000-1002), que resolveu definitivamente a questão da retribuição imediata. Salvação (céu) ou condenação (inferno) é a alternativa diante da qual todos deverão se encontrar. São os dois possíveis ‘resultados’ do juízo particular. Mas há uma terceira possibilidade, a da purificação. Uma interpretação rápida e superficial pode dar a impressão de que as três possibilidades estejam no mesmo nível. Na realidade, não é assim: o purgatório se situa inteiramente no caminho da salvação.

O purgatório não é definitivo, tampouco é um estado intermediário entre o céu e o inferno. A purificação dos que foram salvos (sim, os que estão no purgatório estão realmente salvos!) para entrar na plena comunhão com Deus é necessária porque as imperfeições humanas impedem a plena comunhão com Deus. Não tem sentido falar de purgatório a não ser em relação à salvação.

Quem morre na graça e na amizade com Deus não está, necessariamente, purificado de todo o pecado, pode não ter acolhido plenamente em sua vida o amor de Deus, pode não estar livre de todo afeto desordenado. Por isso, a purificação depois da morte é um evento de graça. Não é uma forma disfarçada de punição. Deus deseja realmente nos purificar de toda mancha de pecado e nos renovar completamente.

A justificação do pecador não é apenas um verniz superficial, mas significa uma transformação interior do homem, a sua santificação. De maneira análoga, a salvação definitiva deve implicar a nossa plena transformação, a nossa total purificação e a nossa plena orientação para Deus.

O purgatório é uma verdade de fé que deve causar em nós alegria e esperança. Mesmo que a nossa purificação comporte sofrimento, é essencialmente um dom de Deus que deveria provocar em nós humilde gratidão. Gratidão ainda maior decorre do fato de a nossa purificação eliminar tudo o que se opõe à plena comunhão com Deus, tudo o que impede a perfeita alegria do encontro com o Senhor na visão beatífica. Por isso, a purificação definitiva nada tem do sofrimento dos condenados; não é absolutamente um tipo de ‘inferno com prazo de validade’. O inferno é a separação definitiva de Deus; o purgatório é o caminho para a Sua plena posse.

O mal-entendido de aproximar o purgatório do inferno pode surgir por causa da imagem do ‘fogo’ que é usada em ambos os casos, mas o fogo do inferno nada tem a ver com o do purgatório. No caso do inferno, o fogo consiste no castigo, enquanto que o fogo do purgatório é purificador.

A doutrina do purgatório está intimamente ligada com a da oração pelos falecidos (sufrágio). Quem deve prestar contas a Deus e sofrer uma eventual e necessária purificação nunca está sozinho. A Igreja acompanha solidariamente os que são purificados com a oração, a esmola e as obras de penitência. A Igreja intercede e oferece por eles o sacrifício eucarístico, no qual Cristo nos associa à sua oblação perfeita ao Pai. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente, às sextas-feiras, no DIÁRIO

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