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<< Jesus desceu aos infernos PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 10/06/2021 às 16:11
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Confessamos que Jesus Cristo ‘desceu aos infernos’! O que significa isso? Que Jesus foi condenado ao inferno? Talvez seja este o artigo da fé que mais se distanciou de nossa consciência atual. Por isso, para alguns parece ser mais vantajoso eliminar de vez o seu enunciado, para ficar livre de um tema estranho e de assimilação difícil para o nosso pensamento. Mas o que se ganha com essa atitude? O que adianta evitar as dificuldades e os aspectos obscuros da realidade? Em vez de escamotear a questão, não seria melhor aprender a ver que esse artigo da fé nos toca hoje bem de perto?

É preciso esclarecer, logo de início, que a expressão ‘infernos’ não significa o estado de condenação, mas o que se exprime com a palavra hebraica ‘sheol’ e grega, ‘hades’ (cf. At 2,31). Por isso, em vez de falar de ‘infernos’, a tradução vernácula preferiu a expressão ‘mansão dos mortos’.

Não se pode ignorar que a confissão da descida de Cristo à mansão dos mortos é antecedida pelo artigo ’foi sepultado’. O que parece um simples pormenor é, porém, um dado cujo significado e eficácia diz respeito à nossa salvação. Jesus Cristo é o Verbo que se fez carne para assumir a condição humana e se fazer semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4,15). Ele se fez realmente ‘um de nós’ (cf. GS 22) e realiza a nossa salvação graças a uma admirável e profunda solidariedade conosco que o leva a experimentar o desenlace da vida humana, que é a morte e a sepultura.

O artigo ‘desceu à mansão dos mortos’ encontra o seu fundamento nas afirmações do Novo Testamento (At 2,31; Rm 10,6-7; Ef 4,8-10). É uma confirmação de que a morte de Cristo foi uma morte real, não somente uma aparência. Durante três dias passados entre o momento em que ‘espirou’ (cf. Mc 15,37) e a ressurreição, Jesus experimentou o ‘estado de morte’, ou seja, a separação da alma e do corpo, no estado e na condição de todos os homens. A alma de Cristo, separada do Seu corpo, foi glorificada em Deus, mas o corpo jazia no sepulcro no estado de cadáver. Este é o primeiro significado das palavras ‘desceu à mansão dos mortos’.

Uma vez que Jesus sofreu o estado de cadáver do corpo e logrou a plena glorificação celeste de Sua alma desde o momento da morte, a Carta aos Hebreus pode descrever a obra de libertação dos justos por este evento da descida à mansão dos mortos: “Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também Ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão” (2,14-15). Mais explicita ainda é a 1ª Carta de São Pedro: “O Evangelho foi pregado também aos mortos; para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito” (4,6).

A ‘descida aos infernos’ constitui a última fase da missão do Messias, pois, com ela, a Palavra do Evangelho e da Cruz alcança a todos, inclusive as gerações que viveram antes do evento da páscoa. Todos os que se salvam são tornados participantes da Redenção, mesmo os que morreram antes que acontecesse o evento histórico do sacrifício de Cristo no Gólgota. Pela ‘descida à mansão dos mortos’ também os que morreram antes da Sua vinda foram alcançados pela Sua graça justificadora.

O artigo de fé que fala da descida do Senhor aos infernos serve também para nos lembrar que a revelação de Deus não se compõe apenas de palavras de Deus, mas também de Seu silêncio. Deus não é somente a Palavra inteligível que vai ao nosso encontro, Ele é também aquele fundo sigiloso e inacessível, incompreendido e incompreensível que foge à nossa percepção. Certamente, no Cristianismo prevalece um primado do Logos, da palavra sobre o silêncio: Deus falou. Deus é Palavra. Mas nem por isso devemos esquecer a verdade do ocultamento permanente de Deus. Só quando o descobrimos no silêncio, podemos nutrir a esperança de ouvir também as suas palavras que clamam no silêncio. A Cristologia se estende para além da Cruz, em que o amor de Deus se torna palpável, para dentro da morte, do silêncio e do obscurecimento de Deus.

O que vem a ser morte? O que acontece quando alguém morre, tombando sob o destino da morte? Todos temos que reconhecer o nosso embaraço diante deste problema. Ninguém sabe a resposta com exatidão, porque todos vivemos aquém da morte, não lhe tendo ainda provado o amargor. Talvez, porém, se possa tentar uma aproximação a partir do grito de Jesus na Cruz, grito no qual identificamos a essência do que vem a ser descida de Jesus, participação no destino da morte dos homens. Nessa derradeira prece, do mesmo modo como na cena da agonia no Horto das Oliveiras, revela-se como elemento mais profundo de sua paixão, não uma dor física, mas a solidão radical, o completo abandono. Ora, nisto se manifesta, afinal, o abismo da solidão do homem que, em seu âmago, está sozinho na morte. Essa solidão, muitas vezes camuflada, sem deixar de constituir a verdadeira situação do homem, denota simultaneamente o paradoxo mais profundo em relação à natureza do homem, que não pode estar sozinho, mas carece de companhia.

Confessar que Cristo ‘desceu aos infernos’ significa receber a graça da sua companhia no momento da mais radical solidão da morte. Cristo é tão solidário a nós que nos acompanha na nossa solitária passagem pela morte. No fim das contas, todos nós deveremos descer à mansão dos mortos, mas, ao sofrermos a mais radical solidão, poderemos encontrar a mão firme e afetuosa daquele que nos acompanhou pelos vales de lágrimas e nos acompanhará também na passagem pelo abismo da morte. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente, às sextas-feiras, no DIÁRIO

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