Sábado, 19 de Junho de 2021

Leia a edição impressa na íntegra


Clique aqui para acessar a edição do dia
Sorocaba 

buscar

<< A origem do Universo PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 13/05/2021 às 18:25
Compartilhe: IMPRIMIR INDICAR COMENTAR

As questões das origens do mundo e do homem são objeto de numerosas pesquisas científicas que enriquecem nossos conhecimentos sobre a idade e as dimensões do cosmo, o aparecimento e a evolução vida e o do ser humano. A ciência natural procura responder a questões que se referem aos tempos, ao tamanho e ao modo do surgimento e evolução do Universo. O grande interesse reservado a essas pesquisas só reforça a importância que o ser humano sempre deu a questões que acabam por ultrapassar o âmbito próprio das ciências naturais. Essas questões são também objeto da busca dos mitos, da filosofia e das religiões que atualmente recebem o impacto das pesquisas das Ciências da Natureza.

A Bíblia não é um livro de Ciência Natural. A sua ciência é de outra ordem: ela responde à questão do sentido da existência e da finalidade do Universo, nele incluído o ser humano. Qual é o sentido da origem do homem e da mulher? Qual é o sentido e a direção da nossa vida e da nossa ação? Essas são as questões fundamentais da Bíblia e, especificamente, do livro do Gênesis.

A natureza do relato do Gênesis não é o de uma aula de Ciência Natural. Ele é mais parecido a um hino de abertura para toda a Bíblia: Deus é o Criador de tudo; as criaturas foram feitas para o bem. Por isso, ao final de cada dia da Criação, “Deus viu que era bom”; e no sexto dia, viu que era ‘muito bom’.

Em Gn 1-2, encontramos dois relatos da Criação: Gn 1,1-2,4a e Gn 2,4b-25. Os exegetas estabeleceram duas tradições: o primeiro relato é chamado de ‘sacerdotal’ e o segundo de ‘javista’. O segundo relato (o javista) é mais antigo do que o primeiro (o sacerdotal). De qualquer forma, eles formam uma unidade na qual podemos distinguir os relatos, mas não os separar.

Gênesis 1-2 tem uma linguagem claramente mítica. O termo ‘mito’ não designa conteúdo fabuloso, mas simplesmente um modo arcaico de exprimir um conhecimento profundo da realidade. Debaixo da camada da antiga narração mítica, descobrimos o conteúdo admirável da revelação divina. Com efeito, o mito exercia a função da Ciência e da Filosofia para as civilizações primitivas. O modo como é descrita a Criação reflete o modo como os antigos entendiam o mundo e a Humanidade. Essa concepção primitiva influenciou o texto sagrado, mas o que a Bíblia revela sobre o mundo e a Humanidade não decorre da concepção mítica. Se você tiver paciência e fé, por baixo e através do texto mítico, você encontrará a Palavra inspirada.

É isso o que buscamos nessa leitura de fé do relato de Gênesis 1-2. O ser humano, homem e mulher, são a obra prima de Deus. A criação deles acontece (no relato sacerdotal) no sexto dia da semana criadora. É como se o Criador estivesse construindo um templo: primeiro, Ele pendura na abóbada celeste os luzeiros e divide as águas superiores e inferiores, depois organiza a terra firme e o oceano; faz pulular de vida o ar, a terra e as águas; e no final, põe no seu templo a sua imagem.

Deus soberanamente dá ordens e as criaturas surgem obedecendo. O existir delas é já obediência e cumprimento. Deus é o artesão que executa as obras e contempla, comprazido e alegre, as obras bem-feitas. Ele é o poeta que pronuncia os nomes primordiais: luz, dia, céus, terra, oceano, planta, fruto, semente, sol, lua, estrelas, peixes, aves, animais. Por causa da ação criadora de Deus, todo o Cosmo é belo no todo e em suas partes. Deus cria alguns seres individuais e únicos, outros segundo a sua espécie, de modo que se prolonguem e cresçam pela fecundidade, numa forma de ação criadora participada pela criatura.

Na concepção bíblica, a palavra (dabar) não é somente manifestação do pensamento, mas é algo concreto: palavra é uma coisa que existe concretamente, que age e como que carrega a força de quem a pronunciou. A palavra pronunciada não é somente um som; é também um ser, ainda que invisível. Com o sopro (a ruah) que sai da boca juntamente com a palavra, as criaturas são feitas. Na visão do Gênesis, esses dois princípios dinâmicos agem na Criação: a) ruah = sopro, alento, espírito; e b) dabar = palavra. O sopro de Deus fecunda e incuba o caos e o transforma em Cosmo (o espírito de Deus paira sobre as águas - Gn 1,4) e a palavra soberana dá ordem para o existir, estabelece o lugar, dá o nome e abençoa. Veja como exemplo a criação da luz: Deus disse: Haja luz e houve luz. Deus separou a luz das trevas. À luz, Deus chamou ‘dia. E Deus viu que a luz era boa.

Para criar o ser humano, há como que um maior ‘esforço’ de Deus, uma espécie de decisão que exige mais ponderação e consciência: Deus não ordena simplesmente ‘faça-se’. Ele primeiro parece fazer uma pausa: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança!”.

O livro do Gênesis sublinha que tanto o homem, quanto a mulher foram criados à imagem de Deus. Com essa afirmação fundamental, se evidencia que os dois foram igualmente desejados por Deus e que a dignidade deles de imagem e de pessoa humana é, nos indivíduos de ambos os sexos, a mesma. Dado que Deus a quis, essa distinção é boa. O ser é humano, sendo homem ou sendo mulher. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente no DIÁRIO às sextas-feiras

 

Não há comentários nessa notícia.Seja o primeiro a comentar