Domingo, 16 de Maio de 2021

Leia a edição impressa na íntegra


Clique aqui para acessar a edição do dia
Sorocaba 

buscar

<< Espírito Santo PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 22/04/2021 às 15:35
Compartilhe: IMPRIMIR INDICAR COMENTAR

O envio do Espírito Santo não se explica, nem é possível sem a glorificação do Filho. De fato, na economia da salvação há uma ordem entre as missões do Filho e do Espírito. Na ressurreição, Jesus recebe o Espírito em plenitude, a ponto de se tornar ‘espírito que dá vida’ (1Cor 15,45), no sentido de que também a sua humanidade assumida na encarnação se torna, para nós, fonte do Dom de Deus.

Os do Novo Testamento contemplam a efusão do Espírito em relação de dependência com a glorificação e exaltação de Jesus. Entre as duas missões há, portanto, uma relação intrínseca e não simples justaposição: Jesus, o Filho enviado ao mundo, é a fonte do Espírito para os homens.

Antes de Pentecostes, a presença do Espírito tem como características ser ocasional (de duração limitada) e se dar somente sobre determinadas pessoas. Trata-se, portanto, de uma ação pontual do Espírito, semelhante àquela que se deu nos profetas (cf. 1Pd 1,11).

Ao contrário, a citação do profeta Joel no discurso de Pedro no dia de Pentecostes (cf. At 2,17ss; Jl 3,1-5) mostra a convicção de que, com a ressurreição e ascensão do Senhor, chegou o momento previsto da efusão universal do Espírito como um dom escatológico e estável que impele a Igreja para a evangelização e lhe dá alegria do louvor a Deus (cf. At 2,4.11).

Jesus fala, na última ceia, da vinda do Espírito como algo que está ligado à sua morte e ressurreição. É conveniente aos discípulos que Jesus parta, porque, do contrário, não virá a eles o Paráclito (cf. Jo 16,7). O Pai dará o Espírito por causa da intercessão de Jesus (cf. 14,16) ou em seu nome (cf. 14,26). O Espírito procede do Pai, mas será enviado por Jesus de junto do Pai (cf. 16,14-15).

Deve-se reconhecer que a morte-exaltação de Jesus (cf. Jo 3,13-14; 8,28; 12,32) permite pensar que, no momento da morte, Jesus antecipa o dom do Espírito (Jo 19,30). Com efeito, a água e o sangue do lado aberto de Cristo são interpretados como alusão aos sacramentos do Batismo e da Eucaristia, mas indiretamente podem também ser uma alusão ao Espírito que sai do corpo de Jesus (cf. 7,38), que foi o seu receptáculo durante todo o tempo de sua vida.

Todos esses textos mostram que a Igreja teve consciência clara não somente da sucessão temporal, mas também da relação intrínseca que há entre a ressurreição de Jesus e o dom do Espírito Santo. As duas missões estão unidas intrinsecamente.

No dom do Espírito pelo Pai por meio de Jesus ressuscitado aparecem plenamente a ‘identidade’ do Espírito, a riqueza e a variedade de seus efeitos. Se na atuação do Espírito sobre Jesus, durante a sua vida mortal, se sublinha sua condição de Espírito de Deus (Pai) que, não obstante, é também próprio de Jesus (pois permanece nele como seu lugar próprio), com a glorificação se evidencia que ele é, ao mesmo tempo, Espírito do Filho.

Há, portanto, uma ‘ordem’ na revelação Trindade na história da salvação: o Espírito Santo é o último na revelação das Pessoas da Santíssima Trindade. De fato, o Espírito Santo, mesmo que esteja presente e em ação junto com o Pai e o Filho desde o início até a consumação do desígnio da salvação, só foi revelado, doado, reconhecido e acolhido como Pessoa, distinta e unida ao Pai e ao Filho, com a encarnação do Verbo e com o evento pascal de morte e ressurreição de Jesus Cristo. O Espírito Santo é o último na ordem do conhecimento, porque só se chega a conhecê-lo como Pessoa Divina pela fé somente depois de conhecer o Pai e o Filho.

Por outro lado, precisamos reconhecer que, na vida da graça, há uma outra ‘ordem’, pois é somente graças ao Espírito que nós reconhecemos e aderimos a Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, como o Cristo e o Senhor, entrando, assim, em comunhão com Ele e, n’Ele, com o Pai. Por isso, o Espírito Santo é o primeiro na ordem da graça e da experiência de fé. O Espírito Santo é o primeiro na ordem da graça, no despertar a fé e na vida nova. O Espírito Santo é o último na ordem do conhecimento das Pessoas da Santíssima Trindade.

Essa ordem em dupla perspectiva diz algo de muito significativo e verdadeiro sobre o mistério da própria Trindade, pois tal Mistério se revela para nós como realmente é em si mesmo. Deus Uno e Trino é em seu Mistério eterno como se revela no modo de realiza a nossa salvação.

Essa ordem diz também algo sobre a identidade misteriosa e pessoal do Espírito Santo: Cristo diz o que Ele mesmo recebeu do Pai e O revela e, por sua vez, o Espírito recorda o que Cristo falou, revelando o Filho. O Espírito Santo não fala de si mesmo, porque Ele é Amor em Pessoa. No mistério da Trindade, o Espírito é todo Amor. Ele é Pessoa Dom de Si mesmo ao Pai e ao Filho e, na ordem da revelação, é Ele mesmo fazendo ser o Outro de Si, comunicando-se sem reservas.

Na iconografia cristã, o Espírito Santo muitas vezes não é representado com uma face própria. Essa ausência corresponde ao ser pessoal do Espírito Santo, pois é Ele que ilumina a face do Verbo e, na história da salvação, ilumina, em unidade e distinção com Cristo, o rosto da Igreja, que por esse mesmo motivo se torna “o lugar de nosso conhecimento do Espírito Santo”. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente no DIÁRIO às sextas-feiras

Não há comentários nessa notícia.Seja o primeiro a comentar