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<< Ressurreição PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 15/04/2021 às 16:12
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Cristo morreu e ressuscitou! Mesmo que nem sempre seja bem acolhida, a morte é uma experiência que se impõe a todos nós. Por isso, confessar que Jesus morreu aproxima-o de nossa finitude e mortalidade. Por outro lado, é mais desafiador crer na ressurreição de Jesus. Uma vez que na nossa condição humana não encontramos uma experiência direta de ressurreição, precisamos recorrer à revelação divina, a fim que ela possa orientar a nossa experiência e a nossa inteligência. Para que possamos alcançar alguma inteligência e experiência para falar e viver o mistério da ressurreição, precisamos prestar atenção ao testemunho de fé da Igreja.

Permita-me, cara(o) leitor(a), acompanhá-lo nesse percurso.

É preciso distinguir que a ressurreição de Jesus não é como a ressurreição de Lázaro, a da filha de Jairo ou a do filho da viúva de Naim. Cristo não volta à vida terrena mortal para um dia morrer novamente. Além disso, a ressurreição de Jesus não consiste somente na sobrevivência da alma. Quando o Ressuscitado aparece aos discípulos, Jesus não se apresenta como fantasma ou como alma desencarnada. Ele aparece com corpo glorificado e real, que pode ser identificado pelas marcas da Paixão. Se Jesus aparecesse apenas como alma, isso levaria a pensar que Ele não pertence ao mundo da vida, mas da morte.

É a ressurreição de Jesus que possibilita os encontros pessoais que nos evangelhos são descritos como aparições. Essas aparições, distintas das experiências místicas, são experiências em que a pessoa de Jesus Ressuscitado se aproxima dos discípulos. São Paulo, por exemplo, distinguiu com clareza esses dois tipos de experiências: uma é a sua elevação até o terceiro céu (cf. 2Cor 12,1-4) e outra é a aparição de Jesus no caminho de Damasco (At 9,1-6).

Segundo o Novo Testamento, as aparições do Ressuscitado não se multiplicam indefinidamente. Elas acontecem no período de quarenta dias. A última aparição coincide com a entrada da humanidade de Jesus na glória divina: ‘Subiu aos céus e está sentado à direita do Pai’. Nesse sentido, a ressurreição de Jesus tem uma repercussão para o próprio Deus. Dado que a vida humana de Jesus ‘afeta’ a vida intradivina, a plena incorporação de Cristo, também em sua humanidade, na vida divina se faz necessária. O Filho, tendo-se encarnado, somente será Filho de Deus realmente se também sua humanidade for elevada à gloria divina. Mesmo sem negar a liberdade e a gratuidade da ação salvadora de Deus, é preciso reconhecer que, uma vez que se dá a encarnação, a ressurreição se torna uma exigência da própria geração eterna, inclusive uma manifestação ou uma expressão da mesma.

A ressurreição de Jesus tem significado para a nossa salvação, pois o Ressuscitado é o princípio da nossa ressurreição desde já pela justificação de nossa alma e, mais tarde, pela vivificação de nosso corpo. Se estudarmos os textos do Novo Testamento que falam da ressurreição de Jesus, veremos que, na maioria deles, a iniciativa da ressurreição corresponde à iniciativa de Deus Pai (Rm 6,4; 8,11; 10,9; 2Cor 4,14; Ef 1,20). Com efeito, com a ressurreição, Deus Pai se manifesta em seu poder divino, que consiste exatamente na ação de ressuscitar o Filho.

É preciso que fique claro: a fé na ressurreição de Jesus não é um acréscimo à fé em Deus. Pelo contrário, é a expressão mais original da fé no Deus cristão: Deus é o Pai de Jesus que mostra essa paternidade exatamente ao ressuscitá-Lo dos mortos (cf. Gl 1,1). O poder onipotente de Deus Pai não é um poder qualquer, indefinido ou genérico. Trata-se de um poder que se manifesta na ressurreição do Filho. Mais ainda: o poder de Deus Pai se identifica com a própria ressurreição do Filho. Muitas passagens do Novo Testamento atestam essa relação estreita entre a paternidade divina e a ressurreição do Filho (2Cor 1,3; 11,31; Ef 1,17; Fl 2,11).

A relação de unidade do Pai e do Filho se manifesta na ressurreição e exaltação de Jesus. Inseparável delas, a efusão do Espírito Santo, dom do Pai e do Filho, expressa a união dos dois e a pertença do Pneuma ao âmbito divino juntamente com as duas primeiras pessoas. O Espírito Santo intervém na ressurreição de Jesus, cuja iniciativa pertence ao Pai.

A intervenção do Espírito na ressurreição de Cristo aparece em Rm 8,11: “E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o Espírito que habita em vós”.

Jesus ressuscitado e exaltado à direita do Pai recebeu d’Ele o Espírito que, em Pentecostes, foi derramado nos Apóstolos. A plena posse do Espírito da parte de Jesus torna possível a sua efusão nos homens. Essa efusão de Pentecostes é ‘a primeira’ manifestação da plena comunhão de Jesus com o Pai, de sua filiação e, por conseguinte, da paternidade divina. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente no DIÁRIO, às sextas-feiras

 

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