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<< CULTURA Raquel chora! PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 29/12/2020 às 23:07
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Depois do Natal, a Igreja celebra os Santos Inocentes. Depois de tanta alegria e doçura, somos surpreendidos pela narração da matança das crianças: Herodes mandou matar todos os meninos menores de 2 anos em Belém e seus arredores (Mt 2,13-18). Essa é a expressão mais repulsiva da sua crueldade e da sua ambição pelo Poder. 

De fato, a vida de Herodes foi marcada por assassinatos motivados pelo medo de perder o Poder. Historiadores informam que Herodes mandou matar possíveis pretendentes do Poder: o sumo sacerdote Aristóbulo (irmão de sua segunda mulher), José (seu irmão), Hircano II (o avô de sua mulher), Mariana (sua segunda mulher), José e Costobar (seus cunhados), Alexandre e Aristóbulo (seus enteados), Antípater (filho do primeiro casamento). O massacre das crianças de Belém está em linha de continuidade com a violência de Herodes, especialmente em seus últimos anos, quando sua segurança no trono estava ameaçada.

Ouvimos o choro de Raquel junto com as canções natalinas. Seu lamento é inconsolável, porque os filhos não existem mais. De fato, a única consolação da mãe é a vida dos filhos.

Por que celebrar os Santos Inocentes na oitava do Natal? Natal é, certamente, uma bonita festa, que nos faz contemplar o Recém-Nascido do presépio, nos faz tomar consciência do dom que Deus nos faz de Si mesmo, de seu amor pela Humanidade. A festa dos Santos Inocentes, porém, não quebra o clima natalino. Pelo contrário, nos faz tomar consciência da seriedade do Natal de Jesus.

O Menino nascido em Belém é a luz do mundo, mas as trevas imediatamente se opõem e não querem ser iluminadas (cf. Jo 1,5.10-11). A matança dos inocentes de Belém é expressão histórica dessa luta entre a luz e as trevas. 

A festa dos Santos Inocentes nos adverte: hoje começa a se realizar a salvação e a nossa primeira atitude é a de reconhecer que precisamos do Salvador. Não devemos fingir ser grandes pecadores, se não o somos, mas precisamos confessar que em nós estão presentes as raízes do pecado que faz ver o outro como adversário a ser eliminado. Temos a necessidade da Luz do Salvador para ver que Herodes ainda está vivo e que precisamos do amor do Salvador para vencê-lo.

Herodes está vivo! Ele vive em nós, quando o egoísmo se desenvolve socialmente, quer nas muitas formas de corrupção que se difundem capilarmente, quer na formação de organizações criminosas, que ofendem gravemente a Deus, prejudicam os vulneráveis e lesam a Criação, revestindo-se de uma gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.

A ação deletéria de Herodes está presente no comércio imoral das drogas, com o qual se lucra desafiando leis morais e civis; está presente na indiferença e na insensibilidade pelas vítimas indefesas das guerras esquecidas. 

A triste colheita de crianças inocentes de Herodes continua na tragédia anual dos 50 milhões de abortos provocados – clandestinos e legalizados – na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; ele prossegue seu extermínio no abominável tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores. Herodes prossegue sua obra de morte nos tráficos ilícitos de dinheiro e na especulação financeira nociva para os sistemas econômicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres.

O massacre de Herodes perdura na escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos migrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade.

Herodes pode se converter? Nós podemos nos converter!

É esta a mensagem do Natal que ainda ressoa nesta oitava: o pecador não deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de vida. O Natal proclama uma mensagem de conversão e de confiança para todos, mesmo para aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18,23).

Que o martírio dos Santos inocentes nos faça acolher o Salvador. Dele temos necessidade absoluta para que Herodes não continue sua matança. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e articulista semanal do DIÁRIO
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