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<< CULTURA A inutilidade do pai PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 17/12/2020 às 20:42
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Recentemente, li um artigo de Vera Iaconelli, que começava assim: “Nossos pais nos deram pouco, foram relapsos e egoístas ou deram demais, sendo intrometidos e demandantes. Por falta ou excesso, nunca estiveram ali na medida exata dos nossos desejos e expectativas” (‘Dizer adeus aos pais’, Folha de S. Paulo, 15/12/2020, B3).

Precisamos urgentemente de pais! Estamos fartos de quem quer usar a posse do outro para preencher seu próprio vazio e também de quem não está presente na criação dos filhos. Temos sede de paternidade casta!

Neste sentido, São José é exemplo para todos os pais e educadores, pois o seu amor por Jesus é autenticamente paterno, mesmo que não seja o seu pai biológico.

O amor de José não busca as próprias satisfações, mas se põe inteiramente a serviço da pessoa amada. O seu amor por Maria, por exemplo, o leva a se colocar a serviço da vocação dela e, assim, alcança com ela uma união espiritual admirável, que é fonte de grande alegria. É também o amor paterno que faz com que José se coloque integralmente a serviço da vocação messiânica de Jesus. José não é como aqueles pais que consideram os filhos como sua propriedade, que nutrem por eles um afeto tirânico e possessivo. José sabe muito bem que Jesus não lhe pertence e deseja unicamente prepará-lo para sua missão de salvador.

Por isso, o amor de José é casto, no sentido de que é presente sem ser possessivo. ‘O amor que quer possuir, acaba sempre por se tornar perigoso: prende, sufoca, torna infeliz’ (Patris Corde, 7). Assim, o título de ‘castíssimo’ dado a São José não exprime somente uma virtude ligada à sexualidade, mas uma qualidade inerente ao amor. ‘O próprio Deus amou o homem com amor casto, deixando-o livre inclusive de errar e se opor a Ele. A lógica do amor é sempre uma lógica de liberdade e José soube amar de maneira livre. Ele nunca se colocou no centro; soube se descentralizar e colocar Maria e Jesus no centro da sua vida’ (Patris Corde, 7). Esse é o amor que José nutre pela ‘Mãe e o Menino’.

O amor paterno renuncia à tentação de decidir a vida dos filhos. Por outro lado, cada filho traz sempre consigo um mistério que só pode ser revelado com a ajuda de um pai que respeite a liberdade do filho. Por isso, um pai de verdade sente que completou a sua ação educativa quando se torna ‘inútil’, porque vê que o filho se tornou livre e caminha com suas próprias pernas.

Neste sentido, é muito significativo que Jesus, ao ensinar os discípulos a rezar, use um vocativo que Ele empregou tantas vezes na casa de Nazaré: abbá - papai! A tal ponto Jesus experimentou o amor casto de seu pai adotivo que, sem rejeitar a paternidade, pôde ensinar: “Não chameis ninguém na terra de ‘pai’, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23,9). Através de seu amor, José revelou a Jesus o amor do Pai Celeste; seu amor paterno se tornou o sinal de uma paternidade superior.

Mesmo na situação em que a sua felicidade parecia destinada ao fracasso, José buscou fazer a vontade de Deus. Podemos imaginar que a sua felicidade era a de ter Maria por esposa. Constatando, porém, que o que fora gerado nela provinha do Espírito Santo, decidiu renunciar à sua felicidade para fazer a vontade de Deus. Foi nesse momento que Deus lhe revelou a sua missão de esposo de Maria e de pai adotivo de Jesus.

Em um tempo em que é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José se apresenta como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria. Na nossa vida, sucedem coisas cujo significado não entendemos. E a nossa primeira reação é a desilusão e a revolta. Ao contrário, José deixa de lado os seus raciocínios para dar lugar ao que acontece e, por mais misterioso que possa parecer a seus olhos, acolhe-o e assume a sua responsabilidade (Patris Corde, 4).

São José, rogai por nós! – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO

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