Terça-Feira, 20 de Agosto de 2019

Diário de Sorocaba





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O último e as últimas realidades

Publicada em 09/08/2019 às 19:08
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Alguns jovens me fizeram a pergunta: por que quando uma pessoa morre dizemos que ela adormeceu? O que acontece no momento da nossa morte? Quando estiver na presença de Deus, no julgamento final, qual será seu sentimento?

É preciso entender que a expressão ‘adormecer’ exprime e não exprime adequadamente nossa situação depois da morte. Depois de nossa morte somos submetidos ao juízo divino e, de acordo com a nossa vida, somos salvos ou nos perdemos. Por isso, ‘adormecer’ não significa um tipo de existência infra-humana ou vida diluída enquanto esperamos a ressurreição final. ‘Adormecer’ deve ser entendido no sentido do Gênesis: ‘No sétimo dia Deus descansou’. Com nossa morte, entramos, se aceitarmos a salvação, no descanso do Senhor. Estas realidades últimas, o julgamento, o céu, o purgatório e o inferno se dão no momento de nossa morte, por isso não é necessário ficar esperando em um estado de semi-consciência ou de semi-vida. Tudo isso, na Teologia, é chamado de juízo pessoal.

Ao juízo pessoal, porém, se entrelaça o juízo universal, que acontecerá no fim dos tempos. Esse entrelaçamento está em harmonia com a natureza do ser humano que é, por um lado, um ser pessoal originalíssimo, que não se repete, e, por outro lado, é um ser que se encontra inserido em uma história humana, na qual todas as liberdades se entrelaçam.

O juízo universal é uma dimensão intrínseca da Parusia de Cristo, que “virá para julgar os vivos e os mortos”. Está também relacionado intrinsecamente com a ressurreição; já no Novo Testamento, a ressurreição universal aparece como prévia ao juízo universal. Assim, a ressurreição no fim dos tempos será para alguns a vida e, para outros, a morte eterna.

Na aparição definitiva de Jesus, aparecerá o sentido de todas as coisas. Ficarão claros os caminhos, incompreensíveis para nós, através dos quais Deus terá conduzido providencialmente todas as coisas até o seu fim último. O juízo particular e o juízo universal não devem ser vistos somente na sua separação temporal (um ocorre no momento da morte, outro se dará no final da História), mas também na sua mútua e intrínseca relação (a originalidade pessoal e a Humanidade na qual todos nós estamos inseridos).

É preciso estar ciente de que a justiça divina é essencialmente a salvação. Por isso, o julgamento divino universal representará a vitória sobre todas as injustiças cometidas pelos pecadores. No julgamento, Deus aparecerá como o defensor dos pobres e dos fracos. A face escondida da História, que nós não podemos conhecer e que tantas vezes nós contribuímos para que ficasse ainda mais obscura com nosso pecado, se tornará manifesta. O julgamento universal de Deus não será a explosão da vingança e do ódio; pelo contrário, significará o triunfo do amor divino. Tudo isso não anula o santo temor de Deus, que dará a cada um segundo as suas obras e do qual esperamos misericórdia no momento do julgamento.

A mensagem do julgamento final significa um chamado à conversão, ao esforço sério pelo Reino de Deus e pela sua justiça. A sua mensagem inclui também um anúncio de esperança. É essa esperança que deve prevalecer no cristão que deseja a glorificação final de Deus, ou seja, a plena realização do fim-finalidade que Deus se propôs ao criar o mundo.

Concluo esta reflexão partilhando os sentimentos que espero ter ante o Divino Juiz. Estarei diante daquele deu a vida para que eu pudesse viver. Estarei diante daquele que tendo assumido a humanidade conheceu as dores, as penas, as alegrias e as esperanças neste mundo tão belo, quanto duro. Ele conheceu a alegria do encontro, a tristeza dos desencontros, experimentou medos e angústias, exultou com a bondade da Criação e mais ainda com a bondade infinita do Pai. Estarei diante daquele que me conhece por ter me criado e mais ainda por ter vivido como homem, por ter amado com coração humano, por ter trabalhado com mãos humanas, por ter desejado com vontade humana. Estarei diante de alguém cuja mão poderei agarrar para ser guiado na passagem derradeira da morte e do julgamento.

Espero poder me entregar totalmente ao seu juízo e à sua misericórdia. Não sei bem o que poderei dizer, mas tenho claro duas coisas: gratidão imensa e contrito pedido de perdão. As duas coisas estão relacionadas. Quanto maior for minha gratidão pelos imensos benefícios recebidos, maior será minha dor por não ter correspondido a tanto amor. Espero poder ter o coração cheio de gratidão pelos dons de Deus e de arrependimento pelos meus pecados. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve aos sábados no DIÁRIO