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Diário de Sorocaba

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Contabilizando os mortos

Publicada em 15/04/2019 às 22:04
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Quando se atenta para a morte anunciada com muita antecedência nos dois prédios que desabaram no condomínio Buzema, no Rio de Janeiro, na semana passada, dificilmente alguém não fica perplexo com tudo aquilo de pior a que chegou a antiga Cidade Maravilhosa com suas matanças sem fim. Tendo à frente traficantes, milicianos, governantes e tantas outras quadrilhas organizadas, o Rio é hoje um território em franca decomposição e no qual as diversas facções do crime tomam conta de tudo. É inacreditável a maneira pela qual o estado paralelo se apropriou do Estado institucionalizado, ignorando de forma definitiva as leis existentes. Como é que foi possível a construção de tantos prédios irregulares por milícias criminosas e sem que houvesse qualquer tipo de fiscalização dos órgãos competentes? Não há como deixar de enfatizar que há muito o Rio está completamente entregue ao deus-dará.
Mais do que nunca, sempre houve um grande manancial de malfeitorias no uso do solo fluminense. Com exceção do atual governador, Wilson Witzel, tudo foi nascendo da demagogia, da ladroagem e da permissividade de administradores públicos lenientes com criminosas ocupações de encostas por favelas. A irresponsabilidade, a demagogia e os interesses econômicos de governantes e políticos inúteis nunca deixaram de incentivar as ocupações irregulares para conseguirem em troca benesses políticas, como os votos de cabresto cevados no loteamento eleitoral de regiões, notadamente onde são maiores as demandas decorrentes da ausência do Estado. Uma casinha, um puxadinho, um terracinho, um apartamento em edifício mal-arquitetado e assim vai se formando uma favela em encosta ou no asfalto, e ninguém vai conferir se pode ou não. O pior é que esse tipo de coisa também vai se espalhando por todo o Brasil. 
O grande problema de tudo isso é que, passado o susto, tudo volta a ser como era antes. É um absurdo que tantas desgraças aconteçam em um país de dimensões continentais, sem um programa decente de moradias populares, sem saneamento básico e sem empregos. Via de regra, os governantes não estão nem aí para nada. As desgraças que ocorrem no Rio são testemunhas disso. Depois das tragédias, aparecem especialistas e políticos com suas abobrinhas e promessas. E tudo continua na mesma, sem qualquer perspectiva de melhora. Se agissem preventivamente, impedindo a construção de casas e prédios em áreas de risco, não teriam de, um dia mais tarde, contabilizar seus mortos, feridos e desabrigados. 
Cabe à população o direito de questionar os órgãos públicos que nunca fazem a sua parte. Os mortos não podem reclamar. Falta respeito aos cidadãos, vivos e mortos. Falta vergonha na cara de muita gente.