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Vocação à Vida Consagrada

Publicada em 13/08/2020 às 20:09
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Estamos no ‘mês vocacional’ e este próximo domingo, dia 16, é dedicado à vida consagrada. O essencial da vida consagrada é, como o próprio nome indica, a consagração ao Pai, em Jesus Cristo por um dom do Espírito Santo através da ‘profissão’ dos conselhos evangélicos. O termo ‘profissão’ significa a vivência prática dos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência. Indica também o ato litúrgico com o qual, durante a Celebração Eucarística, o fiel assume a obrigação de praticar os conselhos evangélicos na vida eremítica ou em um instituto ao qual é incorporado. O termo, nesse sentido, é usado para distinguir os eremitas e os religiosos dos membros dos institutos seculares e das sociedades de vida apostólica: a ‘profissão’ só se refere aos primeiros, enquanto os segundos ‘assumem’ os conselhos evangélicos. A ‘profissão’, por fim, assinala o testemunho público e implica o fato de que a observância dos conselhos evangélicos deve ser também percebida publicamente, ou seja, deve se realizar de modo manifesto para a Igreja e a sociedade e com uma ‘separação do mundo’. Ela é um modo de discipulado mais intenso na sua radicalidade e totalidade. Trata-se, antes de tudo, de um dom que Cristo faz a quem Ele chama, que cria a possibilidade de realizar uma forma de vida que manifeste a vinda do Reino de Deus.

A vida consagrada tem como fundamento a comunhão filial com Deus e a relação fraterna com Cristo. Nesse sentido, tal vida exprime a globalidade do Evangelho e da vida de Jesus. É isso que faz com que a pessoa consagrada a Deus assuma exigências que estão para além do preceito: ela assume como norma de vida a radicalidade do Evangelho. Mais do que imitar Cristo, a pessoa consagrada deseja se apropriar de um ‘ser’ e de um ‘fazer’ que se aproxime sempre mais do ser e do fazer de Cristo, participando, assim, da totalidade de seu mistério.

Com efeito, Jesus na sua vida terrena, amando os seus até o fim, radicalizou na sua morte de cruz todos os preceitos da nova Lei que Ele mesmo instaurou. Ele chegou à radicalização da sua virgindade pela totalidade e exclusividade de seu amor ao Pai e aos homens. Alcançou o extremo da pobreza quando renunciou a toda segurança humana e passou pela experiência radical do abandono de Deus na obediência total, vencendo na sua raiz a tentação de toda rebeldia contra Deus.

Para todos os fiéis, que foram incorporados a Cristo pelo Batismo, há uma exigência real de pobreza, mas não ao ponto da renúncia total aos bens terrenos. De todos os fiéis se exige, em virtude da vocação comum à castidade, mas não ao ponto da renúncia ao casamento. Todos devem obedecer, mas não ao ponto de ter que renunciar à própria vontade diante dos que fazem as vezes de Deus. Todos os discípulos de Cristo são obrigados à fraternidade, mas não ao ponto da partilha de um projeto comum de vida. Todos os fiéis têm a obrigação do apostolado, mas não ao ponto de ter que fazer dele o centro organizador de toda a vida.

A observância generosa de um preceito de Deus não configura tal escolha radical. Isso só ocorre quando, em uma inserção mais profunda no mistério da cruz e da ressurreição do Senhor, tal observância, assumida como regra de vida, alcança a radicalização que determina a toda a vida. A consagração, na sua dimensão de oferecimento ao Pai em comunhão com o mistério da morte de Cristo e de participação da vida nova do Ressuscitado, antecipa no já da vida terrena a perfeição escatológica.

Por tradição, os conselhos evangélicos são fundamentalmente três: castidade, pobreza e obediência. A Igreja reconhece nestes três conselhos a expressão unitária de como o Verbo encarnado viveu humana e historicamente sua relação filial com o Pai e sua relação fraterna com os homens. Assim, pela profissão dos conselhos evangélicos, a pessoa é inserida mais profundamente no mistério da vida de Cristo.

Os três conselhos evangélicos são aspectos de uma única realidade: por isso, não se pode ser casto sem ser pobre e obediente; não é possível ser pobre sem viver a castidade e a obediência; não há verdadeira obediência sem a castidade e a pobreza.

A consagração é dom e responsabilidade. É Deus quem consagra a Si a pessoa para que esta, com o dom total de si, se consagre a Ele, assumindo como norma de vida estável a profissão dos conselhos evangélicos e tenda, assim, para a perfeição da caridade. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO