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Sorocaba 

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Vocação

Publicada em 30/07/2020 às 19:11
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Recebi uma mensagem de um jovem que me falava da sua busca da vocação como um “fazer algo em relação com a angústia de alma”. Essa afirmação me chamou a atenção: a vocação é uma questão de sentido da vida e não somente de uma ocupação. Sem encontrar a vocação, a pessoa permanece com a ‘angústia de alma’.

Para encontrar a vocação pessoal, é preciso entrar em um processo de discernimento vocacional que, primeiramente, envolve alguém que chama. A vocação tem como constitutivo o fato misterioso e certo de que Deus inspira e atrai a pessoa.

Decidir abraçar uma vocação é arriscar, por isso nos sentimos inseguros. Temos consciência de que se trata de jogar com nossa vida e com nosso destino eterno. Conta a história que o conquistador espanhol, quando chegou à América, queimou os navios para que ninguém tivesse a tentação de voltar para sua terra natal e para obrigar os seus comandados a se concentrarem unicamente na conquista. Queimar os navios: é um pouco isso que fazemos quando tomamos decisões vocacionais definitivas. Trata-se de iniciar uma viagem sem volta! Sem volta, porque se trata de concentrar todas as energias e de consumir toda a vida num projeto pessoal. Uma vocação exige dedicação total, ainda que isso não seja fácil e nem sempre se realize, mas a natureza de uma decisão vocacional permanece sempre a mesma: arriscar, investir e gastar tudo sem reserva. Por isso, nos sentimos inseguros. É normal e é bom que a gente experimente temor: significa que estamos conscientes da seriedade da decisão!

O que pode nos ajudar a superar essa insegurança? Antes de tudo, é preciso confiar em Deus. Ele é fiel! Ele - que começou a boa obra - vai dar-lhe pleno cumprimento. Apesar de nossas resistências e pecado, Deus não deixa sua obra inacabada em nós.

Deus, no entanto, não nos dá a graça para se substituir a nós: graça significa também responsabilidade. Por isso, a graça não vai se substituir ao nosso esforço; antes, ela suscita a nossa liberdade.

Outra coisa importante é continuar o discernimento até descobrir a vontade de Deus. Aqui é preciso tomar alguns cuidados: antes de tudo, deve ficar claro que se trata da vontade de um Outro e não da minha. Muitos projetos vocacionais não se realizam porque são apenas projeções de nossos interesses e sonhos egoístas. E como é difícil desmascarar nosso próprio egoísmo!

É, porém, preciso entender que a vontade do Outro é também a realização de minhas aspirações mais autênticas e verdadeiras. Por isso, o confronto e a obediência à vontade de Deus não são a nossa frustração, mas nossa realização mais verdadeira. A vontade do Outro não será a negação de nossa indentidade e liberdade, antes sua mais plena realização.

De um bom discernimento depende nossa vida cristã. Pode nos custar (e como custa caro!), mas vale a pena.

Vocação é um mistério de Deus. Por que fui chamado? Tantas outras pessoas, com mais qualidades, mais virtuosas e mais santas poderiam estar no meu lugar! Os caminhos de Deus não são os nossos! A Ele, gratidão infinita pelo chamado, pela graça, pela missão! – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO