Quarta-Feira, 23 de Outubro de 2019

Diário de Sorocaba





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O fim do mundo

Publicada em 04/10/2019 às 20:10
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A fé no ‘fim do mundo’ é, para o cristão, uma notícia consoladora de esperança, uma vez que a crença no retorno do Senhor para julgar consiste em acreditar que o mundo se move em direção a Jesus Cristo. No fim de tudo, acontecerá o triunfo da verdade, da liberdade e do amor. Não é, portanto, uma força anônima que destruirá tudo. Pelo contrário, será uma Pessoa que tudo levará à plenitude.

Crer no fim do mundo, para o cristão, significa crer que o mundo não findará por um processo físico automático e necessário. Ele chegará ao seu fim-finalidade a partir de decisões da liberdade. O sentido de tudo não será o resultado de um processo natural e sim da responsabilidade baseada na liberdade. Por isso, a volta do Senhor será a Sua vinda como juiz dos vivos e dos mortos.

Assim, crer no fim do mundo faz com que o cristão leve a sério o exercício de sua liberdade. Trata-se de liberdade dada por Cristo é verdade, mas verdadeira liberdade, a qual não é substituída pela graça. O destino definitivo do mundo e de cada ser humano não é imposto por Deus. Conforme diz Santo Agostinho, o Criador nos fez sem nós, mas Ele não nos salva sem nossa liberdade.

A crença no fim do mundo e da vinda do Senhor como juiz desperta a consciência da responsabilidade humana, opondo-a à falsa confiança de quem acredita ser suficiente dizer ‘Senhor, Senhor!’ para entrar no Reino. Nesse sentido, a fé cristã afirma tanto a radicalidade da graça, quanto a responsabilidade do cristão. A salvação é dom e responsabilidade. Assim, a vinda do Senhor como juiz incute tanto a alegria e a confiança do Evangelho da graça que nos arranca da própria impotência, quanto a seriedade da responsabilidade que nos é exigida em nosso cotidiano.

O cristão vive, por um lado, a serenidade de quem foi libertado do pecado e posto na justiça superabundante que é Jesus Cristo e, por outro, a responsabilidade de saber que com Deus não se brinca. O cristão tem, por um lado, a consciência jubilosa de que nada pode destruir o que Deus fez, de que o Seu amor é sem arrependimento. Sabe, por outro lado ainda, de que também deve levar Deus a sério e de que deverá prestar contas dos dons que lhe foram confiados. O julgamento final põe o cristão diante de Jesus que irá perguntar e cobrar sobre a responsabilidade e o modo como a liberdade foi usada.

Uma vez que recitamos sempre o ‘Creio’, continuamente somos chamados a levar nossa vida a sério e é exatamente essa seriedade que confere dignidade ao nosso viver. O julgamento dos vivos e dos mortos se dará de acordo com as obras de cada um, ou seja, sem minimizar a responsabilidade do cristão o julgamento “revelará a disposição secreta dos corações”. O julgamento divino não é uma ação extrínseca; ao contrário, revela e torna evidente, também para si mesmo, a verdade de cada um.

O dom oferecido por parte de Deus reclama a acolhida do dom por parte do ser humano. O dom de Deus é sem arrependimento, mas para alcançar a salvação é indispensável aceitá-lo com todo o coração e é o julgamento do último dia que revelará a aceitação ou a recusa da graça e do amor de Deus. Nesse sentido, a fé cristã é muito coerente em apresentar as obras de misericórdia não como moeda de troca, mas como sinais reveladores das disposições interiores de cada um. Com efeito, a atitude em relação ao próximo revelará o acolhimento ou a recusa da graça e do amor divino. Jesus dirá no último dia: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequeninos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes”.

Professar que o Senhor virá para ‘julgar os vivos e os mortos’ significa crer que o desfecho do mundo não depende de nós, mas está nas mãos de Deus, que a última palavra sobre este nosso mundo não será dada pela injustiça. Temos a certeza fundada de que a última instância de apelação que garante a justiça e o amor é a do Senhor Jesus.

Quem vem para julgar os vivos e os mortos não é um deus qualquer, indefinido, desconhecido. O julgamento foi confiado a Jesus que, como homem verdadeiro, é nosso irmão. Assim, não é um estranho que nos julgará, mas Aquele que nós conhecemos pela fé. Assim, não seremos postos diante do tribunal de um desconhecido, mas d’Aquele que é um de nós, que conheceu e sofreu nossa existência humana em todos os seus aspectos. Por isso, o julgamento dos vivos e dos mortos não é apenas o ‘dia da ira’; será o dia da volta do Senhor. O cristão, enquanto caminha nesta vida, recita o ‘dies irae’ mas também o Maranatá (‘Vem Senhor Jesus’)!

“Naquele dia do temor, o cristão perceberá, surpreso, que Aquele a quem ‘foi dado todo o poder no Céu e sobre a Terra’ (Mt 28,18) foi, na fé, o companheiro de seus dias na Terra e é como se lhe impusesse as mãos já agora, nas palavras do Símbolo, para dizer: ‘Não tenha medo, sou eu’. Talvez seja esse pensamento, que é o pano de fundo de nosso Credo, a melhor resposta para o problema intrincado do Juízo e da Graça” (Ratzinger, J. Introdução ao Cristianismo, 240). – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve aos sábados no DIÁRIO