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<< A melhor parte PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 07/10/2021 às 20:13
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O episódio de Marta e Maria (Lc 10,38-42) vem logo em seguida da parábola do Bom Samaritano. Essa sucessão não é casual. Precisamos prestar atenção nessa ordem, pois a parábola do Bom Samaritano poderia nos levar a pensar que, na vida cristã, só é necessário amar o próximo. Com efeito, alguns justificam que para se salvar não é preciso amar a Deus, nem vida de oração, tampouco frequentar os sacramentos, pois o importante é fazer o bem ao próximo.

Será que essa atitude é correta?

A resposta a essa pergunta nos é dada no episódio de Marta e Maria. Marta está ocupadíssima com os afazeres e reclama com Jesus para pedir que Maria a ajude.

As palavras de Jesus devem ser bem entendidas. “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Uma só coisa, porém, é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”.

Maria é aquela que presta atenção à Palavra. Ela escuta com atenção, mas não poderá permanecer somente na escuta. Essa escuta de Maria deverá se transformar em prática. A melhor parte de Maria, portanto, não consiste em simplesmente escutar e ficar só no deleite da escuta. Pelo contrário, a alegria de receber a Palavra deve se traduzir em atos concretos, em gestos de amor ao próximo. Nisso consiste a melhor parte.

Marta é advertida por Jesus não porque ela se ocupa dos afazeres, mas porque a sua inquietude e sua agitação a impedem de ouvir o Senhor. Marta representa a gente quando nos deixamos tomar pelo trabalho repetitivo e esgotante e, por isso, ficamos culpavelmente sem tempo e sem disposição de nos colocar à escuta o mistério de Deus. Marta somos nós quando caímos no erro de cumprir tarefas somente para termos uma desculpa para evitar a oração.

Não podemos confundir a melhor parte de Maria com uma falsa mística que procura se desligar do mundo para se preocupar somente com o divino. Encontrar Deus não nos afasta da responsabilidade por este mundo. Exatamente o contrário. Conhecer Deus significa escutar a Palavra e colocá-la em prática. A melhor parte de Maria consiste em se abrir ao mistério da Palavra para colocá-la em prática no amor ao próximo.

Maria presta atenção a Jesus. Sua atitude não é a do místico que se eleva a Deus para fugir dos irmãos. Ela é a pessoa de fé que está atenta à Palavra de Deus e a traduz na vida prática. Marta, agitada e inquieta pelas suas coisas, não consegue se abrir ao Outro. Ela é bem-intencionada, mas está fechada ao Outro. Ela só se preocupa com suas coisas, está concentrada unicamente em si mesma: suas tarefas, seus preparativos, sua vontade de receber bem Jesus, mas se esquece de receber o Outro.

Para que nosso compromisso social, para que nosso amor ao próximo, para que os nossos esforços sejam autênticos, precisamos ouvir a Palavra, precisamos nos abrir ao totalmente Outro. Na aceitação do Mistério, na aceitação o amor de Deus, totalmente Outro, posso me converter em fonte de amor aos outros. A melhor parte de Maria significa que devemos nos encontrar com Deus Amor, nos deixar amar e instruir por Ele. Somente depois disso, somente a partir desse fundamento, poderemos nos tornar em fonte de amor ao próximo.

As vocações de Maria e de Marta são duas vocações diferentes e complementares, movidas por uma mesma intenção: receber Jesus que bate à porta. Assim, o serviço e a escuta não são ações opostas na missão que Jesus confiou à Igreja. –Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente, às sextas-feiras, no DIÁRIO

 

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