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<< CULTURA O Imperador e o Natal PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 28/12/2020 às 21:25
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“Naqueles dias, foi publicado um decreto do imperador Augusto, ordenando o recenseamento do mundo inteiro. Esse primeiro recenseamento aconteceu quando Quirino era governador da Síria” (Lc 2,1).

Com estas palavras, Lucas introduz a sua narrativa sobre o nascimento de Jesus e apresenta o motivo de ter ocorrido em Belém: José e Maria não foram a Belém para turismo; foram obrigados a se deslocar por um decreto imperial, que ordenou o recenseamento do mundo inteiro.

A menção do imperador Augusto não é por acaso: serve para colocar em relação Jesus e César Augusto. O que eles têm em comum? Quais as diferenças entre eles?

Há uma inscrição histórica na qual vemos como o imperador Augusto queria ser visto e considerado. “O nascimento do Imperador conferiu uma fisionomia diferente ao mundo inteiro. O mundo teria se arruinado, se não tivesse nele nascido e brilhado uma felicidade universal. A Providência, que dirige a nossa vida, cumulou este homem de tais dons para a nossa salvação e para a salvação das gerações futuras. O dia do nascimento do Imperador foi para o mundo o início de um novo tempo. A partir do nascimento do salvador, deve começar uma nova contagem do tempo” (tradução livre da ‘Inscrição de Priene’, 9 a.C.).

Notem que César Augusto deseja ser considerado ‘o salvador’ (soter). O próprio título de ‘Augusto’ possui uma conotação divina (sebastos = adorável). Como ‘o salvador’, ele começou uma nova era para a Humanidade, por isso o tempo devia começar a ser contado a partir do seu nascimento.

Como Augusto, Jesus não é um mito; é um personagem histórico que pertence a um tempo e a um lugar: nasceu em Belém, no tempo do imperador Augusto, quando Quirino era governador da Síria, no contexto do primeiro recenseamento do mundo todo.

César Augusto se fazia chamar de ‘salvador’ e de ‘príncipe da paz’, porque naquele tempo todos ansiavam pela paz e justiça. A exemplo dele, os seus sucessores exigiram ser saudados como ‘restaurador do mundo’, ‘esperado do povo’, ‘restituidor da luz’. Os grandes da História, nesse sentido, nunca foram muito originais!

Para o senso comum, a mentalidade era a de que somente o forte e quem tem o poder dos exércitos pode impor a paz ao mundo (a ‘pax romana’) e trazer a salvação para a Humanidade. O que os anjos anunciam aos pastores arrebenta essa mentalidade! “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”.

O sinal do Salvador é um não-sinal: um recém-nascido, envolvido em faixas, deitado numa manjedoura! Somente Deus podia realizar uma mudança tão radical da lógica humana. Trata-se de um ‘não’ radical àquilo que as pessoas sempre pensaram. Nós sozinhos nunca teríamos ousado afirmar tamanha reviravolta na escala de valores: o Salvador, o Príncipe da Paz, o Cristo Senhor é este recém-nascido envolto em faixas, deitado na manjedoura.

Jesus é, desde o seu nascimento, o imolado e a manjedoura serve, ao mesmo tempo, de berço e de altar do sacrifício. Além disso, a manjedoura é o coxo, onde os animais se alimentam. No Natal, está deitado na manjedoura Aquele que é o ‘Pão descido do céu’, para ser nosso ‘Pão da vida’. A manjedoura se torna a mesa de Deus, para a qual somos convidados para comer o Pão de Deus.

Na pobreza do nascimento de Belém se revela que o verdadeiro Salvador e o Príncipe da paz não é César Augusto, mas o recém-nascido envolto em faixas e deitado na manjedoura.

Neste Natal, deixemo-nos olhar pelo Senhor; permitamos que Ele venha a nós e nos encontre, nos ame e nos olhe! Abraçados por esse Amor terno e pessoal do Verbo Encarnado, desejo a você e a` sua família um Santo Natal! – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve semanalmente no DIÁRIO às sextas-feiras; por questões técnicas, não conseguimos publicá-lo na Edição de Natal, o que o fazemos hoje, dentro ainda da oitava do Natal
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