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<< CULTURA Fazer aniversário Palavra do Arcebispo - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 03/12/2020 às 19:59
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Recentemente, fiz aniversário natalício e recebi muitos parabéns. Ao mesmo tempo que fico feliz por mais um ano de vida, sou obrigado a reconhecer que envelheço ou, para ser mais complacente comigo mesmo, preciso me preparar para envelhecer.

De maneira muito genérica, a idade avançada vai dos 60 ou 65 anos para cima. Como todas as fases da vida, a idade avançada suscita problemas próprios, que comumente podem ser as doenças e o progressivo deperecimento orgânico, a fadiga moral, o afastamento dos encargos e da atividade laborativa, o refugiar-se nas nostalgias, a melancolia saudosista, a solidão e o senso de aparente inutilidade.

Tais problemas devem ser enfrentados preventivamente com um programa pessoal de sustentação espiritual, no sentido de que a diminuição progressiva dos encargos, a doença e a forçada inatividade constituam uma experiência que se torne genuinamente santificadora. Foi o que Jesus disse ao Apóstolo Pedro, depois de tê-lo encarregado da tarefa imensa de apascentar o Seu rebanho: “Quando eras jovem, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás os braços e outro te cingirá e te levará para onde não queres” (Jo 21,18). A idade avançada oferece ao cristão a oportunidade de continuar a se deixar plasmar pela experiência pascal, configurando-se a Cristo crucificado, que cumpriu em tudo a vontade do Pai e se abandonou em Suas mãos, até entregar-lhe o espírito.

Na última fase da vida, podemos fazer a experiência que o apóstolo Paulo descreve: “Por isso, não desanimamos. Mesmo que nosso exterior vá se arruinando, o nosso interior, pelo contrário, se renova a cada dia” (2Cor 4,16).

Como se pode ver, o período da velhice não é dominado pela morte e pela sua aproximação. A vida cristã verdadeira é sempre vital comunicação com Deus e com os irmãos, porque orientada no sentido da total configuração com Jesus Cristo na vida eterna. Dessa forma, o cristão pode viver a ancianidade como o tempo do amor puro e perenemente jovem. É também o tempo da espera do Senhor.

Compreender e viver em plenitude a ancianidade na comunidade cristã e na família consiste em fazer essa passagem como um evento de graça e como uma experiência livremente acolhida no plano psicológico. Para isso, é preciso manter viva a convicção de continuar sendo membro ativo na edificação da Igreja, principalmente com a oração e a união com Cristo: “Alegro-me nos sofrimentos que tenho suportado por vós e completo o que na minha carne falta às tribulações de Cristo, em favor do seu Corpo que é a Igreja ” (Cl 1,24).

A idade avançada tem, como específico, o senso global da vida na forma histórica assumida por Cristo: a vida é dom recebido gratuitamente e gratuitamente doado: “De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8). Jesus foi o primeiro a pôr isso em prática, vivendo sua vida como dom recebido e transformando-o em bem doado. Com efeito, a sua vida terrena foi um progressivo entregar-se ao Pai e aos outros, até a morte de cruz.

Nesse sentido, a morte é a conclusão de todo o processo da passagem pascal cristã, porque nela se dá a máxima conformação à vida e à morte de Jesus Cristo, na esperança da vida nova da sua ressurreição. Representa o momento vocacional por excelência, condensa todos os precedentes chamados e encerra a verdade da pessoa. Nesse momento, a família e a comunidade cristã podem prestar um precioso acompanhamento de fé e de caridade, de oração e de presença, para que a morte não colha ninguém despreparado, mas antes assinale o ponto mais alto da vida no qual se possa finalmente exclamar: “Eu vivo, mas não sou eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO

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