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<< CULTURA O Senhor deu, o Senhor tirou PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 26/11/2020 às 22:17
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O ser humano é um insatisfeito por natureza. Do Éden até o presente, a história dos homens é a confirmação de que nós aceitamos até os sofrimentos mais atrozes com alguma dignidade, mas que não sabemos aceitar as alegrias desta vida. Por que? Porque todo bem que recebemos traz consigo o fantasma da sua perda. Cada alegria vem acompanhada da tristeza da sua privação. Quanto mais bens conquistamos, mais medo temos de sua privação.

Se eu gozo de boa saúde, isso só torna ainda mais aguda a certeza de minha enfermidade e morte. A minha cultura e instrução me tornam mais consciente de minha futura demência e senilidade. No fim das contas, uma felicidade nos limites deste mundo, onde tudo é passageiro e condenado à caducidade, só nos torna mais radical e fundamentalmente infelizes.

Com feito, se a felicidade se limitar a este mundo, a única coisa que nos resta é nos entupir do ópio dos prazeres passageiros para não pensar na morte e na sua entourage: a doença, a demência e o sofrimento.

A afirmação de Jó - “O Senhor deu, o Senhor tirou” - é rejeitada por muitos como fatalista. Penso, ao contrário, que tal afirmação exprime muito bem a precariedade de uma felicidade passageira. Jó aprendeu às custas de seu sofrimento atroz que, se a felicidade não perdura para a eternidade, nem sequer merece receber esse nome. Todas as alegrias deste mundo são também a sua ausência: ‘o Senhor dá, o Senhor tira’. A felicidade que se limita a este mundo é também a mais triste infelicidade.

A insatisfação ontológica nos leva a concluir que o ser humano não aceita qualquer felicidade. Ele é capaz de Deus; foi criado à sua imagem e semelhança e obrigá-lo a se contentar com uma felicidade intramundana é, no fim das contas, rebaixar a sua existência a uma ‘vida de gado’. Fazer o ser humano feliz é impossível se a felicidade não for eterna.

A pandemia nos mostrou, aliás, como a felicidade terrena é frágil. Basta um microscópico vírus, que nem sabemos definir como ser vivo, para fazer adoecer e morrer milhares de pessoas, paralisar a economia, causar desemprego, intensificar a fome e a miséria, pôr de joelhos sistemas sanitários e os serviços funerários, fechar as igrejas.

Constatamos as enormes carências sociais de nosso tempo. E é bom que nos esforcemos sinceramente em prestar assistência social aos sofredores e necessitados. Não podemos, no entanto, nos esquecer que aos doentes não basta a terapia, aos famintos não é suficiente o pão, aos infelizes desta terra não é suficiente uma felicidade terrena. As pessoas necessitam de atenção, amor e principalmente sentido para a vida. Tudo o que podemos dar aos necessitados não tem proporção alguma com as reais necessidades deles. Com tudo aquilo que podemos dar, encontramo-nos, no fim das contas, muito aquém da real necessidade de felicidade verdadeira.

Essa é a advertência que o papa Francisco faz em sua Encíclica social: “Num mundo que globalizou muitos instrumentos técnicos úteis, mas ao mesmo tempo tanta indiferença e negligências, e que corre a uma velocidade frenética, dificilmente sustentável, sente-se a nostalgia das grandes questões de sentido que as religiões fazem aflorar e que suscitam a memória das próprias origens: a vocação do homem, que não foi feito para se exaurir na precariedade dos assuntos terrenos, mas para se encaminhar rumo ao Absoluto, para o qual tende. Por estas razões, a religião, especialmente hoje, não constitui um problema, mas é parte da solução: contra a tentação de se contentar com uma vida superficial, em que tudo começa e termina aqui, a religião lembra-nos que é necessário elevar o espírito para o Alto, a fim de aprender a construir a cidade dos homens”. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO

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