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<< CULTURA Como se faz um santo, uma santa? PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 29/10/2020 às 22:50
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A Igreja católica celebra no dia 1º de novembro a Solenidade de Todos os Santos e Santas. É um momento oportuno para saber como a Igreja reconhece que um fiel seja santo(a) e possa ser invocado(a) publica e oficialmente como tal.

Para ser venerado(a) como santo(a) e para poder alcançar a honra dos altares, um fiel católico passa por um processo bastante rigoroso e longo. Trata-se do processo de beatificação e de canonização. Esse processo envolve várias pessoas, muitas investigações, a averiguação de condições objetivas e etapas sucessivas. Trata-se, portanto, de um processo organizado que possui procedimentos claros e regularizados, divisão de responsabilidades e especialização do trabalho de muitas pessoas.

Para declarar uma pessoa santa, o processo a ser seguido é feito em quatro etapas. A primeira etapa é a diocesana. Na diocese em que o candidato(a) a santo(a) viveu ou realizou a sua principal obra, um postulador (um tipo de advogado) reúne os escritos do referido candidato(a), recolhe documentos e testemunhos sobre a sua vida. Observe que a Diocese nunca inicia processo de beatificação de pessoas vivas. A razão disso é evidente: a santidade é dom e responsabilidade. Enquanto estamos vivos, somos responsáveis em custodiar o dom da santidade recebido no Batismo. Contudo, por mais santos que sejamos, enquanto estamos nesta vida terrena podemos perder o dom da santidade. Isso tem também o seu inverso. Por mais pecador que seja, ninguém deve se desesperar da sua própria salvação, pois enquanto peregrinamos nesta vida ainda temos a possibilidade de nos converter e nos tornar, pela graça divina, grandes santos. A morte assinala, assim, a resposta definitiva e irreformável do fiel à oferta divina de santidade.

Na fase diocesana, é preciso documentar o reconhecimento espontâneo da santidade por parte dos fiéis que conviveram com o(a) candidato(a). Ao concluir essa fase, o postulador envia para a Santa Sé, mais exatamente para a Congregação Pontifícia para as Causas dos Santos, todo o processo. Uma vez acolhida a causa, o candidato(a) começa a ser chamado(a) com o título de ‘Servo(a) de Deus’.

Na segunda fase, o processo passa pelo exame acurado de três comissões: a histórica, a teológica e a de Cardeais e Bispos. Se o processo for aprovado pelas três comissões, o Papa publica um decreto no qual a Igreja reconhece que o Servo(a) de Deus exerceu as

virtudes cristãs e humanas em um grau de excelência ou, para usar a linguagem tradicional, em grau heroico. Dessa forma, o candidato(a) passa a ser invocado(a) como ‘Venerável’.

Na terceira fase, o postulador precisa demonstrar a ocorrência de um milagre realizado pela intercessão do(a) Venerável. Não são aceitos milagres sem a comprovação de peritos e cientistas, alguns deles não católicos e sem religião. O milagre é o sinal de que Deus confirma a santidade e de que o(a) Venerável pode ser invocado(a) em favor dos vivos e dos falecidos.

Com muita frequência, o milagre consiste em uma cura. Nesse caso, exige-se que a cura seja instantânea, perfeita, duradoura e não explicável pela Medicina e pela Ciência. Para essa comprovação, médicos do país do(a) Venerável emitem pareceres sobre as condições já mencionadas em que a cura aconteceu e, depois, uma junta de cinco médicos nomeados pelo Vaticano constata se realmente aconteceu o milagre. Se o milagre for constatado, o(a) Venerável é declarado(a) Beato(a). É o que se chama de beatificação: a aprovação solene para pública veneração depois da morte de um cristão que tenha exercido em vida as virtudes em grau heroico. Em 1747, Bento XIV reservou ao Papa o direito de beatificar.

A quarta fase exige a comprovação de mais um milagre, realizado após a beatificação, passando pelas mesmas avaliações da etapa anterior. Se também esse milagre for reconhecido como milagre real, o Papa publica o decreto de canonização. Trata-se da declaração solene e definitiva da Igreja segundo a qual um dos seus membros, defunto e já beatificado, faz parte dos santos do Céu e, por isso, é invocado e venerado como tal. Essa proclamação é reservada à Santa Sé também.

Todo esse processo bastante cuidadoso e, às vezes, longo tem como finalidade apresentar ao culto público somente os que Deus deseja para tanto, por isso a necessidade da comprovação de milagres. Além disso, tem a finalidade de apresentar aos fiéis um exemplo a ser seguido no modo de viver concretamente o Evangelho, por isso o reconhecimento da vivência das virtudes de maneira exemplar.

Os santos e as santas não são personagens míticos: são pessoas reais, que têm uma história e que viveram em lugar e tempo reais, por isso possuem uma biografia, deixaram escritos, legaram obras concretas e herança espiritual. Por isso, seus escritos podem ser lidos como doutrinalmente seguros, suas obras, em muitos casos, continuam até os dias de hoje e sua herança espiritual continua a ter seguidores. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO

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