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<< CULTURA A Religião e a Política PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 22/10/2020 às 21:18
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Jesus foi questionado sobre a licitude de pagar imposto a César (Mt 22,15-21). É lícito ou não pagar o imposto? Como hoje, a polarização das posições tornava impossível um consenso: os fariseus se opunham, os herodianos eram favoráveis. Tendo encontrado, porém, um adversário comum, os dois grupos rivais se unem para forçar Jesus a fazer um pronunciamento que fosse desaprovado por um ou outro partido. Como sempre, Jesus não se esquivou, nem deu uma resposta de sentido dúbio.

Aqueles homens usaram a lisonja como isca. Os lisonjeiros, embora digam a verdade, são possuidores de uma alma vil. Fingindo drama de consciência e admiração pessoal, elogiam com má intenção. Eles reconheciam a fidelidade de Jesus como mestre, sua sinceridade, seu destemor. A lisonja, porém, era também um insulto, porque pensavam que Jesus ficaria com medo ou que caísse como um ingênuo na armadilha preparada.

Pagar imposto era um ato de reconhecimento de uma autoridade política constituída. A questão se revestia de um cunho também religioso, que envolvia a consciência. Além da mordida econômica, o imposto a César incluía o pagamento a uma potência estrangeira, cujos governantes não podiam ser considerados legítimos representantes de Deus, pois eram pagãos.

Jesus percebeu a maldade deles. Eles não vinham como polemistas. Se assim fosse, mereceriam ao menos o respeito de Jesus.

“Mostrai-me a moeda do imposto. De quem é a figura e a inscrição?”. A inscrição do denário era: ‘Tibério César, filho do divino Augusto’. A pergunta de Jesus rompe os fios da cilada: os adversários mesmo devem reconhecer, envergonhados, que a moeda que trazem nos bolsos os insere no sistema econômico do Império. Com aquelas moedas, eles compravam e faziam os seus negócios; certamente, tinham avidez de amealhar a maior quantidade possível de tais moedas pagãs. Eles só se perguntam sobre a licitude de um ato quando têm que pagar, mas não estão nem um pouco preocupados com a moralidade, quando se trata de interesses pessoais. Não têm dramas de consciência, quando a moeda de César lhes proporciona vantagens; só há problemas quando devem restituir a César.

Além de desmascarar a hipocrisia, Jesus acrescenta: “Dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”. A primeira parte da resposta indica que Jesus aceita César como autoridade de fato. César é o poder vigente e o Estado. O que é que lhe pertence? São Paulo responde (Rm 13,7): os impostos, as taxas e o respeito. Mas isso é pouco. O Estado não é uma pessoa, nem um partido; é uma questão que envolve a todos.

Portanto, ‘dar a César o que é de César’ significa participar na organização da vida da Sociedade e do Estado, ou seja, não esquecer a política, não perder de vista nossa responsabilidade pelo bem comum, contribuir para com uma ordem social justa e fraterna, votar com consciência e responsabilidade. Quem não colabora com o bem comum não dá a César o que é de César.

‘Dai a Deus o que é de Deus’: Jesus reconhece César, mas declara também que César não é Deus. A César se deve o respeito civil e político, mas ele não pode reclamar a adoração que é própria de Deus. Por isso também, César deve dar a Deus o que é de Deus. Acima dos governantes e dos poderes constituídos, os cristãos obedecem a Deus. Essa afirmação de Jesus é extraordinariamente corajosa e revolucionária.

César também deve dar a Deus o que é de Deus. Deus não está ao lado de César; está acima dele e, por isso, está presente em tudo, também na política. Deus não é somente Senhor da Igreja, não é encontrado somente na missa e no culto, mas deve ser obedecido também fora da Igreja: na vida política, nos nossos negócios, no nosso trabalho profissional. O cristão dá ‘a Deus o que é de Deus’ quando se compromete politicamente em vista da fraternidade, quando age honestamente nos negócios, quando faz de sua profissão um serviço para o bem comum, quando faz uso da sua propriedade individual tendo em vista o bem comum.

Evidentemente, o culto e as realidades seculares são coisas distintas, mas não devem estar separadas. Com a sua ação no mundo, os cristãos consagram as realidades seculares e exercem um verdadeiro sacerdócio em seu cotidiano quando são guiados pelo Evangelho do Reino.

‘Dar a Deus o que é de Deus’ é o critério para dar a César o que é de César. O cristão respeita a autoridade constituída, mas não é um aliado cego dela. Se o poder pretende ser absoluto e se colocar no lugar de Deus, o cristão tem o dever de se opor a ele. Por exemplo, tem se reforçado a pretensão do Estado de cada vez mais inventar o Matrimônio e a Família e redefini-las segundo seu querer. Fazendo isso, a Família já não constrói a Sociedade e o Estado; ao contrário, o Estado, agora, presume supervisionar e autorizar a família.

A César damos o imposto com a consciência de que o dinheiro não pertence àquele que o detém. A riqueza é, por sua natureza, fruto da terra e do trabalho humano. Portanto, deve servir ao bem de todos. Nas últimas décadas, por exemplo, foram desviados vergonhosamente fortunas de dinheiro público e foram gastos recursos imensos no desenvolvimento e aquisição de armamentos. Se esses recursos tivessem sido aplicados com inteligência e honestidade na saúde pública, na educação, no saneamento e nas políticas públicas, não só teríamos dado a César o que de César, mas César teria dado ao povo o que é do povo. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO

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