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<< CULTURA Os erros da Bíblia PALAVRA DO ARCEBISPO - Dom Julio Endi Akamine, SA

Publicada em 24/09/2020 às 22:01
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Você já ouviu falar dos evangelhos apócrifos? Muitas vezes, eles são apresentados como descobertas sensacionais, porque reveladores de informações secretas, tradições destinadas somente a alguns privilegiados, doutrinas que foram escondidas ao grande público. Relatos sobre a infância de Jesus, seus vínculos com Maria Madalena e seus planos com Judas Iscariotes são temas recorrentes de notícias pretensamente inéditas. Na realidade, em qualquer boa livraria você pode encontrar edições dos evangelhos apócrifos. Portanto, é preciso acabar de vez com essa lenda de que a Igreja esconda ou negue o acesso a esses documentos.

A Igreja chama esses escritos de ‘apócrifos’ porque eles nunca foram considerados inspirados por Deus. Na composição da Bíblia, entraram somente os livros canônicos. Eles são assim chamados porque são reconhecidamente inspirados por Deus.

A Igreja recebe e venera, como inspirados, os 46 livros do Antigo e os 27 do Novo Testamento (Catecismo da Igreja Católica, 138). A Igreja definiu o Cânon da Escritura para fazer frente a duas tentações recorrente: tanto a tentação de excluir certas partes da Escritura, quanto a de acrescentar outros escritos que se apresentam com uma roupagem de revelação divina.

De fato, na História houve várias tentativas tanto de cancelar partes da Bíblia, como de tentar acrescentar outros livros que pretendiam completar a Revelação. Tanto a tentativa de querer acrescentar outros escritos, quanto a de excluir certas partes da Bíblia não fazem justiça à novidade de Cristo, porque ou a consideram incompleta (e, por isso, é preciso acrescentar outros livros) ou, então, ‘contaminada’ por doutrinas humanas (e, por isso, as Escrituras precisariam ser purificadas desses desvios).

Sabemos que, na Bíblia, há várias passagens que descrevem atos imorais e violentos. Mesmo assim, tais passagens são Escritura inspirada e não devem ser canceladas sob o pretexto de depurar a Palavra de Deus de ‘máculas’ para tornar a Escritura mais ‘edificante’.

Como podemos, então, explicar a presença de tais passagens na Bíblia? Primeiramente é preciso ler tais passagens levando em conta que a revelação bíblica está profundamente radicada na História da Salvação, na qual Deus revela progressivamente o Seu desígnio e a Sua vontade. Essa vontade de Deus vai se cumprindo lentamente ao longo de etapas sucessivas, apesar das resistências dos homens.

Deus escolhe um povo e, pacientemente, realiza a sua educação. Em sua misericórdia, Deus adapta a Revelação ao nível cultural e moral de épocas antigas para fazer com que

a própria cultura e a moral do seu povo se eleve até atingir a plenitude da vida nova do Evangelho. Por isso, a Bíblia relata fatos e costumes que, muitas vezes, chocam a sensibilidade atual. Ela descreve, por exemplo, manobras fraudulentas, ações violentas e extermínio de populações, sem denunciar explicitamente a sua imoralidade. Isso demonstra como Deus é paciente e educa com firmeza e ternura o seu povo, fazendo com que o mesmo povo progrida em sua cultura, em suas instituições, em sua organização social e em seus costumes em direção das bem-aventuranças do Reino. Se tais fatos e costumes hoje nos chocam, é exatamente porque Deus nos educou para não mais aceitar tais comportamentos desumanos e imorais.

A cultura ocidental cristã, tão injustamente criticada, é o resultado dinâmico da pedagogia divina, cujo testemunho histórico se encontra na Bíblia. Sem a pedagogia divina, viveríamos ainda segundo os costumes que rejeitamos.

Por fim, mesmo que haja várias passagens que descrevem comportamentos obscuros, é preciso reconhecer que já no Antigo Testamento a pregação dos profetas se ergue vigorosamente contra todo o tipo de injustiça e de violência, coletiva ou individual, tornando-se, assim, o instrumento da educação dada por Deus ao seu povo como preparação para o Evangelho. Seria, pois, errado não considerar aquelas passagens da Escritura que nos parecem problemáticas: é, em contraposição a esses comportamentos obscuros, que a pregação profética adquire a sua força de conversão e de anúncio de uma nova vida.- Dom Júlio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve às sextas-feiras no DIÁRIO

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