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<< SAÚDE ‘Setembro Amarelo’ chama atenção para a necessidade de diálogo e acolhimento Só neste ano, Sorocaba teve mais de 20 ocorrências

Publicada em 08/09/2020 às 20:00
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(Foto: Agência Brasil)
Com ações preventivas, este mês destaca a campanha "Setembro Amarelo", uma força-tarefa criada para informar sobre depressão e outros transtornos mentais, uma vez que esses pensamentos, que podem levar ao suicídio, têm relação com diferentes quadros clínicos. A mobilização envolve toda a sociedade e chama a atenção para o diálogo entre pais e filhos. Neste ano, de janeiro a agosto, Sorocaba registrou 23 ocorrências por suicídio; já em 2019, foram 52 registros, conforme dados da Secretaria da Saúde da Prefeitura. 

A psicóloga Flávia Romano explica que as causas que podem levar uma pessoa ao suicídio são diversas, como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, alcoolismo e abuso de drogas. “Os fatores emocionais desempenham um fator significativo nos motivos para o suicídio”, destaca pontuando, ainda, que dificuldade financeira, términos de relacionamentos, luto e conflitos familiares também podem estar nessa relação. 
"Toda mudança de comportamento merece atenção"

Por sua vez, o psicanalista Roosevelt Cassorla, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), explana que os motivos que podem levar uma pessoa ao suicídio são diferentes em caso, relacionando fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais e todas as experiências de vida da pessoa. “Na verdade, o suicídio é o desencadeamento último de um longo processo multicausal.” Ele diz não acreditar que fatores como conflitos em relacionamento ou perda de emprego possam ser a “gota d’água” de um processo que já esteja vindo ou que se junta a um quadro emocional e traumático. “Então, podemos dizer que existem problemas emocionais e doenças mentais que predispõem ao suicídio. A depressão é uma delas. A maioria das pessoas que se mata tem quadros depressivos, principalmente o que se chama de transtorno afetivo bipolar, na sua fase depressiva”, explica.

"Pais têm de saber os sites que os filhos frequentam"

Na depressão, as emoções são intensas, a gravidade da situação é ampliada e, de acordo com Flávia, a desesperança toma conta, fazendo a pessoa acreditar que seu problema só tem uma solução, a morte. “É preciso deixar claro que nem toda pessoa que tem depressão vai tentar contra sua vida. Agora, nos casos mais graves, que não estejam tratando com terapia e medicamentos e sem acolhimento da família, o suicídio pode acontecer”, frisa a psicóloga.

SINAIS – O processo que pode culminar no suicídio apresenta sinais, tanto comportamentais quanto verbais, porém, muitas vezes, não são claros. Flávia explica que os sinais verbais podem ser “não quero mais viver”, “minha vida não vale a pena”, “quero morrer”, “nada mais nesta vida faz sentido para mim”, por exemplo. “Já no caso dos sinais comportamentais podemos identificar o isolamento, desinteresse e alteração no sono. Toda mudança de comportamento merece atenção”, considera. O psicanalista Roosevelt Cassorla reforça estas frases, “é melhor não viver, seria melhor morrer”, como comuns nesse comportamento. “É claro que muitas pessoas têm esses sinais e não estão pensando em se matar”, pondera. Ele chama a atenção, ainda, para os casos com idosos. “Quando começam a deixar suas finanças em ordem, enfim, podem estar dando sinais de que não vale mais a pena viver. Mas há algumas pessoas em que esses sinais não aparecem. Pessoas podem demonstrar sinais, mais como um pedido de ajuda do que propriamente porque desejam morrer.”

DIÁLOGO NA FAMÍLIA – Para Cassorla, os pais devem conversar com crianças e adolescentes sobre todos os assuntos. “Quando algum assunto é proibido, as crianças percebem que aí está uma área difícil para os pais, e eles acabam ficando mais confusos e passam a receber informações desencontradas de todas as fontes”, enfatiza, considerando a ajuda da escola e de profissionais que entendam do assunto. “Os pais não podem ficar sobrecarregados com o tema, que nem eles dão conta. Não é um assunto fácil.” O psicanalista chama a atenção também para o mundo digital. “As crianças têm um acesso muito grande à internet e, como sabemos, trata-se de uma ótima ajuda na educação, contudo existem, também, pessoas mal-intencionadas, que vão criando mentiras e aterrorizando crianças e adolescentes. Recentemente tivemos o caso da ‘Baleia Azul’. Adolescentes são facilmente manipulados por líderes carismáticos e poderosos. Na internet é muito fácil encontrar como se matar e, inclusive, os métodos para isso”, destaca, dizendo que os pais têm de saber os sites que os filhos frequentam. “Evidentemente, um adolescente que está procurando por isso, já merece cuidados.”

NA ESCOLA – Comumente, o ambiente escolar gera amizades, mas pode trazer casos de bullying – repetição de atos de violência física e psicológica. A psicóloga Flávia explica que o pensamento suicida aumenta conforme esses casos tornam-se mais frequentes. “Uma maior exposição a eventos traumáticos e situação de violência aumenta a vulnerabilidade e o adoecimento psíquico e emocional das vítimas. O bullying representa uma das modalidades de agressão mais comuns entre os estudantes e quanto mais esse comportamento persistir, mais pode causar sérios prejuízos nas vítimas.”

INFORMAÇÃO – Flávia comenta que, quanto mais a prevenção ao suicídio ser falada, mais informação chega às pessoas, aumentando, assim, a busca por ajuda de profissionais capacidades para entender e acolher a dor dessa pessoa. Para ela, a sociedade julga e não entende o suicídio, talvez pela falta de conhecimento, informação e empatia. “Deixando o suicídio como tabu, perdemos a oportunidade de fazer prevenção e acolhimento. O tabu impede que o suicídio seja tratado abertamente pela sociedade, ocasionando consequências negativas.” Da mesma ideia compartilha o psicanalista Cassorla. “Estamos no 'Setembro Amarelo' e as autoridades de Saúde e de Educação estão introduzindo esse assunto, e se percebe que conversar sobre esse tema é preventivo. “As pessoas que têm ideias de suicídio que nem sequer sabiam que podiam pedir auxílio, passam a pedir ajuda”, conclui.

NA CIDADE - A campanha "Setembro Amarelo" vai oferecer diversas ações por meio dos Centros de Atenção Psicossociais (CAPSs) de Sorocaba, ao longo deste mês. Com todo cuidado que a pandemia de Covid-19 exige, as unidades ofertarão atividades de conscientização sobre a questão, reforçando as visitas domiciliares para cuidados de pessoas com ideações suicidas, envio de vídeos produzidos pela equipe técnica e capacitações on-line. Também haverá atividades que estimulam o cuidado e a busca por tratamento. Paróquias e comunidades da cidade também contam com trabalhos voluntários de assistência psicológica.

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