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<< COTIDIANO Abaixo a meritocracia! Dom Julio Endi Akamine, SAC

Publicada em 03/09/2020 às 20:55
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Um empresário contratou novos empregados. Esses contratados passaram por um processo seletivo longo e exigente e seus currículos foram analisados com lupa por uma equipe de recursos humanos também muito exigente. De fato, eram os melhores à disposição no mercado. No contrato de trabalho, foi estabelecido também o salário de mercado. Depois de algumas semanas, aquele empresário resolveu dar chance a outros desempregados, mas como os mais qualificados já estavam empregados resolveu diminuir um pouco as exigências para contratação. Após mais alguns dias, vendo que havia ainda pessoas se candidatando a uma vaga de emprego na empresa, resolveu contratar mais, mesmo sabendo que estes não tinham todos os requisitos necessários para passar no processo seletivo.

Aquele empresário era excêntrico. E, por ser muito excêntrico, resolveu, ao fim daquele mês de contratações, admitir todos os que batiam à porta da sua empresa em busca de emprego. Até mesmo os que não tinham experiência anterior, nem qualificação foram admitidos.

No final daquele mês, aquele patrão muito original mandou pagar a todos o mesmo salário. Nem é preciso dizer que isso provocou a ira dos que foram contratados no início do mês. Houve reclamação no sindicato e protestos, como “você nos igualou a esses últimos”. O empresário, porém, acabou com os protestos de modo autoritário: “Tenho o direito de fazer com o meu dinheiro o que eu quero. Não fui injusto com os que foram contratados primeiro: cumpri o contrato e paguei o salário acertado. Se decidi pagar o mesmo para os que só trabalharam um dia neste mês, foi por pura liberalidade. Para mim, esse negócio de meritocracia nem sempre funciona”.

Acho que o leitor atento já percebeu que essa estória é adaptação de uma parábola de Jesus (cf. Mt 20,1-16). Se essa estória chocou você, saiba que Jesus escandalizou também os seus ouvintes. Com efeito, a parábola tem esse objetivo de nos surpreender com uma mentalidade nova, com uma lógica que contradiz a nossa forma de julgar, com um mundo novo que arrebenta com o nosso velho mundo.

“Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”. Com essa afirmação paradoxal, Jesus quer se opor à nossa mentalidade errada de meritocracia!

Meritocracia funciona e deve funcionar no campo do trabalho e em muitos outros âmbitos da vida terrena. Meritocracia, porém, não funciona na nossa relação com Deus. Diante de Deus, ninguém pode invocar os seus próprios méritos. Deus não é nosso devedor! Deus não está à nossa disposição! Deus não pode ser domesticado!

A parábola dos trabalhadores da vinha destrói, na figura autoritária do patrão, que não respeita a meritocracia, a nossa pretensão de fazer de Deus nosso devedor. Nossa relação com Deus não é como a de um plano de fidelidade: vamos acumulando pontos com Deus até termos o suficiente para poder trocá-los por uma recompensa desejada.

Com um deus domesticado, podemos fazer nossas contas e prever os resultados. Com o Deus de Jesus Cristo, não podemos fazer cálculos: Deus é imprevisível e indisponível Diante de Deus não devemos ter o comportamento dos trabalhadores da primeira hora: eles se consideram superiores porque acham que merecem mais do que outros. Se isso funciona na vida de trabalho, não funciona na vida de fé. Os trabalhadores da primeira hora são como Jonas, que fica irritado com Deus porque Ele é lento para a ira e misericordioso com os inimigos (Jn 4,1-11); são como Paulo, antes da conversão, que se julgava justo e cumpridor da lei (Gl 1,13-24); são como o filho mais velho que tem raiva do pai e não se alegra com a conversão do irmão mais novo (cf. Lc 15,25-32).

Devemos ser humildes como os trabalhadores da última hora, que sabem que não merecem o salário integral, mas que se surpreendem com a generosidade do dono da vinha. O que recebemos de Deus não é proporcional ao que merecemos. Deus não segue a regra da meritocracia para conosco! Ainda bem!

Então, não vale a pena ser trabalhador da primeira hora? Claro que vale! O que não devemos ter é a mentalidade de trabalhador da primeira hora.

Sejamos nós dedicados e generosos trabalhadores da primeira hora com a humildade agradecida dos trabalhadores da última hora. – Dom Julio Endi Akamine, SAC, é arcebispo metropolitano de Sorocaba e escreve no DIÁRIO às sextas-feiras

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