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Diário de Sorocaba

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<< BRASIL Brasileiros no exterior opinam o que Bolsonaro pode fazer na liderança do País A vivência de jovens na Bolívia, Irlanda e Alemanha inspira-os a comentar o que esses países poderiam ensinar ao Brasil

Publicada em 29/10/2018 às 18:53
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Sorocabano Renato Coelho (Foto: Arquivo pessoal)
A nova fase política em que o Brasil entra após o pleito deste domingo (28) leva a ponderações sobre o que pode e deve ser mudado no País. Educação, saúde, segurança pública, transporte e tantos outros temas geram dúvidas e vontade de mudança no eleitor brasileiro. E, agora que o período eleitoral acabou, começa a outra etapa do exercício da cidadania, a de estudos, reflexões e cobranças.
 
Alvo de descrédito devido aos constantes escândalos de corrupção e, atualmente, à intolerância por conta das discussões polarizadas, a política brasileira tem a resistência de aproximação dos cidadãos. As conversas, porém, podem se estender e receber ideias de fora para dentro, de quem já viu o que o Brasil tem e, a partir de novas vivências, vislumbra o potencial a que ele pode chegar.
 
DISCRIMINAÇÃO É CRIME – O sorocabano Renato Coelho, 23 anos, saiu do Brasil cedo após receber uma oportunidade de trabalho em uma sede boliviana da Organização Não Governamental (ONG) em que já atuava. Com passagem também pelo Paraguai, ele diz querer ter mais experiências internacionais e, por enquanto, não deseja retornar ao Brasil. “Vejo que a situação não é nada agradável para fazer a gente querer voltar”, lamenta.
 
Renato vê a Bolívia como um país mais progressista que o Brasil, levando em consideração os investimentos na área social. “Aqui as mulheres têm representatividade na política, por exemplo. O Brasil poderia adotar mais políticas de reparação de desigualdades sociais”, sugere.
 
A igualdade, inclusive, é uma pauta importante em La Paz, a capital boliviana. “Tem uma lei contra toda forma de discriminação”, afirma. “Sei que o Brasil está tendo problemas sérios quanto à discriminação de algumas camadas da população”, pontua.
 
O sorocabano ainda comenta que, no quesito educação, os dois países poderiam avançar para se desvencilharem de métodos tradicionais, apostando na melhora; já em relação à economia, a Bolívia sai na frente. “O custo de vida aqui é barato. Sinto que uma pessoa que vive com um salário mínimo na Bolívia consegue viver melhor que com um salário mínimo no Brasil”, explica.
 
Corrupção, no entanto, existe por lá também. “É uma pauta que acho que transcende um pouco a questão de países, pois envolve poder, que é muito suscetível à corrupção”, justifica. Segundo Renato, a diferença é no ativismo. “Se acontece alguma coisa aqui que a população acha que tem de reivindicar, eles vão para as ruas.”
A mudança no Brasil é possível, aposta o sorocabano. “Embora tenha um cenário bastante difícil, os jovens são muito ativos e resistentes”, observa. “O Brasil tem potencial e espero contribuir com meus aprendizados quando eu voltar.”
 
ESTADO PARA TODOS – Após formar-se em Jornalismo, Fernanda Pizato, 22 anos, sentiu que precisava conhecer mais do mundo e apostou em um intercâmbio em Cork, na Irlanda. Enquanto busca experiências de viver em outro país, a jovem aproveita para aprender mais sobre política – agora local –, tema que já a interessava em terras brasileiras.
 
A primeira diferença que Fernanda notou entre a política dos dois países foi estrutural. “Aqui é uma república parlamentar, não presidencial. Então, eles têm o Chefe de Estado – presidente – e o Chefe de Governo – primeiro-ministro”, esclarece.
 
Outro ponto, diz a estudante, é a quantidade de projetos sociais aplicados pelo governo irlandês. “O Estado aqui é uma máquina; dá casa, dá dinheiro, dá auxílio. Tem muito dinheiro envolvido”, relata. “Mas acho certo as coisas estarem na mão do Estado e serem responsabilidade do Estado.”
 
Fernanda explica que os auxílios são cedidos mediante a comprovação de necessidade e que garantem o bem-estar dos irlandeses. “Principalmente a questão da moradia”, ela opina. “No Brasil tem muito morador em situação de rua e muita gente morando em lugares inapropriados.”
 
O ensino público na Irlanda tem alta qualidade e está disponível para todos. Já as universidades são pagas, mas o governo oferece programas de inclusão. Um ponto negativo no ensino privado do país, segundo Fernanda, é a separação escolar por sexos. “Na maioria, meninos e meninas ficam separados, mas isso reflete na vida adulta, pois se você não cresce com alguma coisa, você demora a saber lidar”, comenta.
 
A Irlanda tem um dos maiores salários mínimos da Europa, o trabalho manual é valorizado, o imposto trabalhista não é muito alto e tem retorno positivo e o país está de portas abertas para a imigração. O cenário parece perfeito, mas ainda assim há problemas. “Tem corrupção, sim”, afirma Fernanda. “O Estado é muito grande, tudo passa por ele, então gera lavagem de dinheiro, desvio. A polícia nacional, a Guarda, também é corrupta.”
 
Diante dos escândalos – na Irlanda e no Brasil – que a estudante tem acompanhado, ela compreende que nenhum país tem a política perfeita, mas aposta na informação para estar aberta ao diálogo e contribuir com as melhorias. Por enquanto, Fernanda ainda pretende ficar na Europa, mas espera que, quando voltar, o Brasil esteja avançando.
 
PROTEÇÃO DA DEMOCRACIA – Quando questionada sobre as diferenças entre a política no Brasil e na Alemanha, a resposta da analista de processos Anne Rodrigues, 28 anos, é rápida: “Todas”. Moradora da cidade de Colonia, ela conta ter deixado o Brasil inicialmente para um intercâmbio cultural, mas que, agora, não pensa em voltar.
 
“Aqui a política realmente visa o melhor para o cidadão”, frisa. “A educação é levada muito a sério”, pontua Anne, que diz que a quantidade de horas na escola dos alunos alemães é maior, embora tenha uma prática que ela discorda. “Quando eles têm uns 10 anos, separam as crianças que têm mais capacidade intelectual das que têm menos. Não gosto muito disso, mas acho que funciona”, conta.
 
Ainda, no fim do Ensino Médio, os jovens “de maior capacidade” vão para a universidade e, os “de menor capacidade” são direcionados para cursos técnicos que os capacitarão para, posteriormente, se desejarem, cursar o Ensino Superior. “Todo mundo é qualificado, não importa o que você faz”, garante.
 
O trabalho, então, é valorizado de acordo com a complexidade da profissão. “Existe um piso e um teto salarial para a maioria dos cargos, mas normalmente as diferenças salariais não são muito grandes”, conta Anne, que vê pontos positivos principalmente em relação às férias – são contados apenas os dias úteis e, com atestado médico, os dias ‘perdidos’ são devolvidos.
 
Na Alemanha, os impostos são pagos proporcionalmente, ou seja, quem ganha mais, paga mais, quem ganha menos, paga menos. “Mas todos têm os mesmos direitos de acesso à saúde, educação, moradia e emprego”, afirma Anne. “Isso seria fácil de o Brasil aplicar imediatamente”, opina.
 
Por fim, Anne acredita que o diferencial da política alemã é que as leis são muito importantes para os nativos. “Eles protegem muito a democracia”, explica, lamentando que, no Brasil, a ameaça à Constituição ainda ocorra. “Acredito que qualquer mudança leva tempo, mas é preciso o fortalecimento do pensamento coletivo, da política social; deixar de lado o ‘umbiguismo’ e levar a sério os problemas do país”, declara.
 
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