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<< BRASIL Eleições deste ano exigiram atenção quanto a fake news Para cientista política, notícias falsas não vieram para ficar

Publicada em 29/10/2018 às 18:44
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(Foto: Agência Brasil)
ANÁLISES 
 
A corrida eleitoral deste ano, que culminou neste segundo turno com a vitória do candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, foi permeada por informações e, muitas delas, tidas como "fake news". Essa nova realidade, ainda mais com a colaboração das redes sociais, tende a levantar mais debates em pleitos futuros. 
 
Em entrevista ao DIÁRIO, a cientista política da Ufscar, Maria do Socorro Sousa Braga, considera que o impacto das redes sociais nestas eleições foi “imenso” e com mais influência do que nas disputas anteriores. Contudo, em relação ao tema "fake news", ela acredita ser uma realidade que não permanecerá por muito tempo.
 
“Não vejo que as 'fake news' vieram para ficar; pois elas desinformam o eleitor e prejudicam o andamento da competição político-partidária. Por isso, é muito importante que, na avaliação deste pleito, os órgãos competentes pensem em um controle maior das redes sociais, especialmente em relação aos casos de 'fake news'”, comenta. 
 
Maria do Socorro salienta, ainda, por outro lado, que as redes sociais colaboram com as campanhas e foi muito precisa para candidatos que tiveram menos recursos. “Elas vêm em um momento importante, em que as pessoas estão construindo uma política-democrática; se forem bem usadas, podem ser fundamentais para as próximas eleições.” 
 
Também sobre as redes sociais, ela avalia que esse meio pode ser positivo para mobilizações e debates, porém é necessário ponderar a forma com que elas serão usadas. “Acredito que temos condições, cada vez mais, de se utilizar delas de forma saudável, e não da maneira lesiva com que foram usadas por algumas candidaturas.” 
 
Os casos de notícias falsas chegaram a preocupar a presidente da missão de observadores da Organização de Estados Americanos para as eleições brasileiras, Laura Chinchilla. Para ela, o Brasil enfrenta um fenômeno sem precedentes em relação à difusão de informações inverídicas, preocupando o grupo de especialistas. 
 
 
Primeiros passos de Bolsonaro no Planalto 
 
A primeira questão que Bolsonaro terá de equacionar, na visão da cientista política Maria do Socorro, será compor e criar um grau de confiança entre os partidos da base, já que foram poucas as legendas que expressaram apoio a ele. “Ele fez uma bancada expressiva, mas é muito pequena, não chega nem a 20% das cadeiras da Câmara.”
 
Sobre as primeiras medidas, ela acredita que a composição dos Ministérios será focada. “Ele fala muito em segurança, questões morais, família, composição de seu ministério e, a partir dessa base, poderemos ter as formações, mas temos de esperar”, prevê, ressaltando que será um governo bem voltado aos setores, como temas de família e reformas.Entre reformas, a cientista política pontua que Bolsonaro muito falou em Previdência, contudo não se sabe, com certeza, a direção que será tomada, por ele não ter deixado isso claro. “Como foram poucos os debates, fica difícil detalhar como serão essas reformas”, enfatiza, frisando que não são todos do eleitorado de Bolsonaro que o conhecem.
 
 
Projetos polêmicos do capitão reformado
 
Maria do Socorro reforça ser difícil avaliar a probabilidade de aceitação das propostas de Bolsonaro, por conta da falta de detalhes do próprio candidato. No entanto ela pontua que, superficialmente, alguns projetos possam ter menores possibilidades devido ao apoio. “Quanto maior o apoio da população, maiores as chances de passarem projetos”, explica.
 
Quanto aos votos de Bolsonaro, a cientista política diz não considerar que a maior parte dos que votaram nele seja um voto anti-PT. “Penso que seja uma parcela considerável, mas a maior parte vem do eleitorado que está muito reticente e avaliando a classe política no geral; tanto é que não foi o PT o principal partido que perdeu nestas eleições.” 
 
Ela avalia, ainda, que, apesar de contar com setores populares, em perfil socioeconômico, no eleitorado de Bolsonaro tem maiores pesos as classes média e alta. “Os setores empresariais têm peso importante, assim como os jovens e idosos. Em termos de religião, vemos muito mais cristãos; boa parte é evangélica, que reforça esse eleitorado.”
 
 
Influência de Lula no caminho de Haddad
 
Já o candidato derrotado do PT, Fernando Haddad, no primeiro turno destacou a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Maria do Socorro, a associação de Haddad com Lula teve pontos positivos e negativos. “Claro que a parte positiva foi para a militância e os filiados ou, mesmo, àqueles eleitores que vêm aderindo ao PT desde a formação.” 
 
Pelo negativo, a cientista política explica que Haddad não pôde fazer ampliações. Ela junta, ainda, essa realidade à escolha da candidata a vice, Manuela D’Ávilla, que não o ajudou a ir para o campo da direita. “Manuela mantém uma composição muito mais à esquerda, e isso acabou limitando a abrangência do eleitorado nacional.”
 
Quanto aos eleitores de Haddad, ela diz que, de acordo com as pesquisas de opinião, o perfil enquadra-se entre os setores mais humildes, que recebem um ou dois salários mínimos. “Tem segmentos da classe média, intelectuais, artistas e celebridades, mas em número bem menor.” 
 
 
Parte que compete aos brasileiros
 
Mesmo com novos projetos e possíveis alterações, as mudanças devem levar certo tempo para se concretizarem, inclusive em alguns campos, como saúde, vagas no mercado de trabalho e educação. Com a busca constante de uma parcela da população a oportunidades de emprego, a questão emocional deve ser considerada neste início de novo governo. 
 
De acordo com a psicóloga Rita de Cássia Bizon, mestre em Psicologia e Psicanálise, o desemprego desencadeia falta de expectativas, mas é um fato que o País vem enfrentando. “Isso exerce um profundo problema de ordem emocional, porque provoca desde ansiedade, pela expectativa, a uma possível depressão, por não se conseguir um emprego.” 
 
Ela comenta, ainda, que o “amontoado” de promessas dadas por candidatos a um País social e economicamente instável, quando não bem-gerenciado, pode provocar uma instabilidade emocional. “Pois em todas as eleições percebemos muitas promessas de um futuro melhor, mas pouco se cumpre. Isso gera sentimentos de frustração e baixa autoestima.” 
 
Rita de Cássia aconselha que as primeiras mudanças devem começar com cada pessoa. “Penso que cada um deve se posicionar na sociedade com parcela de comprometimento e responsabilidade para o crescimento da Nação. As eleições são exemplo disso, pois o voto deve ser pensado e analisado para que vença o melhor candidato”, pontua. 
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