Sexta-Feira, 14 de Dezembro de 2018 ASSINE O DIÁRIO 15.3224.4123

Diário de Sorocaba

buscar

<< COTIDIANO Vídeo que viralizou na internet é uma fake news

Publicada em 21/09/2018 às 18:47
Compartilhe: IMPRIMIR INDICAR COMENTAR

(Foto: Reprodução/Facebook)
Um vídeo tomou conta das redes sociais dos sorocabanos a partir da tarde do domingo passado (16). Em 39 segundos, era possível ver um cachorro rodeando um veículo – de dentro de outro automóvel, alguém filmava a situação. “Vou chamar a polícia! Isso daí é crime!”, anuncia uma voz de mulher, enquanto a câmera mostra sua mão apontando o dedo indicador para o rosto do condutor do qual o cachorro se aproximava. “O que é crime?”, ele questiona. “O senhor é um cafajeste por largar o cachorro desse jeito”, ela continua. “A senhora sabe se o cachorro é meu?”, o homem indaga. Incomodado, o condutor vai embora e o homem que segurava a câmera mantém os xingamentos enquanto segue o carro que se afastava – com o cachorro correndo atrás.
 
A cena, passível de diversas interpretações, foi compartilhada pelo menos mais de cinco mil vezes no Facebook e, a cada post, muitos comentários apareciam reforçando os discursos de ódio ao homem que, segundo o vídeo, abandonou o cachorro na avenida Barão de Tatuí, em Sorocaba. Mas, aos poucos, a história foi sendo questionada.
O empresário Filipe Alves, 25 anos, foi um dos que se posicionaram em defesa do homem que aparece como condutor do carro, a quem diz conhecer somente de vista. “Trabalhava em frente a uma praça e, todos os dias, esse senhor passava e o cão o seguia. Depois, ele parava e alimentava o cão”, relata, assim como o fez no Facebook.
 
Segundo Filipe, ao ver a descrição de um vídeo que anunciava o abandono de um cachorro, ele ficou bravo, porém, ao ver de quem se tratava, sentiu a necessidade de falar o que sabia. A proposta funcionou em partes; “Sério? Calma aí, gente... temos de ver esse lado da história”, comentou uma mulher, seguida por mais pessoas. “Em momento algum tive medo porque tinha certeza do que estava defendendo. Mas recebi várias mensagens de pessoas me xingando, dizendo que esse senhor teria me pagado para isso e até coisas piores”, revela.
 
Filipe acredita que, ao invés de uma postagem no Facebook, o autor do vídeo deveria ter ido a uma delegacia. “Aí me pergunto: será que realmente a intenção era defender o cão ou apenas ganhar ‘curtidas’?”, reflete o jovem.
 
Na quarta-feira (19), o DIÁRIO voltou a fazer buscas pelo vídeo nas redes sociais, mas as postagens anteriormente vistas haviam sido apagadas. Uma pessoa foi apontada para a reportagem como a que teria feito a gravação, mas, procurada, não ofereceu retorno.
 
O CACHORRO JOHNNY – O cão do vídeo tem nome, Johnny, e muitos amigos na zona sul de Sorocaba, região em que mora há cerca de um ano e meio. O animal surgiu na vida do engenheiro mecânico Renê* por acaso, quando seu filho voltava da escola e foi seguido pelo cachorro até o portão da casa da família.
 
Primeiro, eles ofereceram água; depois, comida. Como o cão não ia embora, eles abriram o portão e o pequeno entrou correndo. “Nas 48 horas seguintes, ele só dormiu”, lembra Renê, que acredita que Johnny estava muito cansado.
 
Então, ao ver o portão aberto, o já desperto e alegre animal escapou. Depois de um tempo, voltou. Sendo o cachorro dócil e tranquilo, assim como habilidoso, a família não viu perigo em deixá-lo ter liberdade na rua.
 
E era assim há um ano e meio.
 
No domingo, Renê saiu de casa dirigindo com Johnny em seu encalço, como de costume. De repente, ouviu buzinas e gritos. “Fui abordado por um casal. Não fizeram pergunta alguma, só começaram a me ofender e me ameaçar”, conta. “Fiquei estarrecido”.
 
O que se seguiu foi o que o vídeo registrou. Renê explica que não estava entendendo até se incomodar com a agressividade com a qual a mulher se dirigia a ele e ver que um homem o filmava. Ele acha que atitude que demonstrou em seguida pode ter confundido quem assistiu ao vídeo. “Muita gente entendeu que eu estava negando que era dono do cachorro”, reflete. “Me senti ameaçado e entendi que deveria ir embora.”
 
Apenas quando voltou para casa naquele dia, Renê descobriu que o vídeo havia sido postado. “Minha esposa mostrou e achei de mau gosto, mas não imaginava que ia ter a repercussão que teve”, diz. “Muitos amigos nossos que tentaram desmentir foram rechaçados como se quisessem esconder um crime.”
 
No dia seguinte, enquanto fazia um curso em São Paulo, Renê foi contatado pela Polícia Ambiental, pois uma denúncia havia sido feita. “Fui constrangido na frente de todos”, lamenta. Ele precisou prestar esclarecimentos e ainda receber agentes em sua casa para atestar a história que contara.
 
No entanto a situação deixará marcas na família. “Nos traumatizou e causou extremo constrangimento”, enfatiza Renê. “A gente está chocado com o tipo de repercussão que uma 'fake news' causa; pode acabar com a vida de uma pessoa. As mídias sociais são excelentes, mas acredito que junto com essa liberdade está intrínseca uma responsabilidade”, declara.
 
"Acredito que as pessoas que comentaram e compartilharam o post realmente julgaram estar vendo algo real. Foram levadas ao engano por esta 'fake news'. Bem-intencionadas, porém incautas."
 
Renê acredita que as pessoas que comentaram e compartilharam o post realmente julgavam estar vendo algo real. “Bem-intencionadas, porém incautas”, define, lembrando que muitos excluíram as interações logo após descobrirem que se tratava de "fake news". “Postam e depois tiram como se tudo estivesse certo. As pessoas precisam ter responsabilidade sobre o que postam e compartilham”, reforça.
 
Agora, uma decisão restou à família: Johnny, que está em tratamento devido a um tumor benigno no focinho, não terá mais suas ‘escapadas’. “Infelizmente, chegamos à conclusão de que ele não pode mais sair de casa. As ‘voltinhas’ dele acabaram e vai ter de andar com coleirinha, até pela segurança dele”, justifica Renê.
 
* Renê preferiu não ter o sobrenome divulgado em respeito à privacidade da família
Não há comentários nessa notícia.Seja o primeiro a comentar