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Diário de Sorocaba

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<< COTIDIANO Projeto social sorocabano ampara autores de violência doméstica Idealizado no CIM Mulher, programa recebe homens em encontros semanais para reeducação

Publicada em 13/07/2018 às 18:46
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(Foto: Germano Schonfelder)
Todas as segundas, quartas e quintas-feiras pela manhã, o movimento de pessoas aumenta no número 33 da rua Buenos Aires, no bairro da Parada do Alto. Homens de todas as idades, profissões, aparências físicas e classes sociais reúnem-se em um semicírculo, sentados para ouvir e contar histórias durante quase duas horas. Discursos exaltados e conversas estimulantes; tristeza, raiva e, enfim, compreensão. 
 
Os mais diversos sentimentos passam semanalmente pela sala do Centro de Integração da Mulher (CIM Mulher) na qual homens são acolhidos pelo projeto social do Centro Especializado de Reabilitação do Autor em Violência Doméstica (Cerav). Uma média de 60 a 80 homens são atendidos mensalmente, encaminhados pela Justiça ao adquirirem uma medida preventiva após denúncia pela Lei Maria da Penha. O Centro de Referência da Mulher (Cerem) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) também fazem o encaminhamento ao identificarem uma situação de prevenção à violência doméstica.
 
“Independentemente de qualquer coisa, eles estão em fase de medida preventiva. Então, não estão condenados ainda”, enfatiza a assistente social Tatiana Festa que, ao lado da psicóloga Ingrid Fonseca, media os encontros. “O grupo tem muitos assuntos pessoais. Falamos de relações de afeto, violência e sexualidade”.
 
PROGRAMA PIONEIRO - Criado em 2014 e implantado em 2015, o programa parte de uma proposta de 15 encontros, um por semana, número que pode ser prorrogado pela avaliação da equipe do Cerav. “Teve caso da pessoa participar de 45 encontros”, lembra Ingrid. “A gente só libera quando percebe que dá para ‘soltar a mão’”, garante Tatiana Festa.
 
Quando encaminhados ao Cerav, os homens são obrigados a comparecerem aos encontros. “Eles só ficam em regime aberto se vierem”, explica Tatiana. “Fazemos o acompanhamento de liberdade assistida, com relatórios e carteirinha de frequência”.
 
O programa, primeiro do Estado de São Paulo, foi desenvolvido em razão da reincidência dos agressores. “A Casa Abrigo `Valquíria Rocha´ recebe mulheres e crianças amparadas pela Lei Maria da Penha. Mas a gente tem que parar eles, não elas”, observa Tatiana.
 
REEDUCAÇÃO – A maioria dos homens que chega ao Cerav está na defensiva; chateados, agressivos ou em negação. “A gente tem muito advogado e policial e eles têm aquele discurso do ‘por que eu estou aqui?’”, conta Ingrid. “Querendo ou não, é uma vergonha para eles”.
 
A psicóloga diz que o trabalho da equipe é entender o momento e a emoção dos atendidos. “Eles estão revoltados; saíram de casa, estão em uma situação judicial e são obrigados a virem, então chegam agressivos”, pontua. “Isso faz parte do processo”, completa Tatiana. “A gente trabalha com eles de uma maneira muito gradativa, mas, ao final, acontece uma transformação”.
 
O primeiro passo, segundo a assistente social Tatiana Festa, é desenvolver nos homens a maturidade de poder falar sobre o problema. “O grupo é importante porque a pessoa começa a se olhar do lado de fora. Tentamos buscar neles a autodescoberta”, conta a assistente social. “Às vezes, a história de um leva o outro a falar”, exemplifica Ingrid.
 
Em seguida, começa o processo de desconstrução. “Não adianta, se eu aprendo errado, vou executar errado”, explica Tatiana. “A partir do momento em que alguém te ensina o caminho, você ensina à pessoa outros meios de abordagem da situação”.
 
Ingrid acredita que o histórico familiar e o pensamento patriarcal da sociedade são problemas a serem enfrentados. “Os mais velhos dizem que bater na mulher era normal antes. Nunca foi normal! Mas, para dizer isso, a pessoa vivenciou”, acrescenta. “É difícil desconstruir quem viu e viveu isso; é difícil aceitar. Tenho que bater na mesma tecla”.
 
Então, há a reeducação por meio da abordagem de temas pré-determinados ou de acordo com os depoimentos espontâneos de membros do grupo – e a diversidade dos homens conta pontos positivos nesse momento. “Temos empresário e catador de latinha, por exemplo. As realidades são diferentes. E, a partir do momento em que eu me coloco no lugar do outro, a dor dele dói em mim e eu me transformo”, explica Tatiana.
 
As conversas não tratam apenas do machismo e da violência, mas também repensam as relações. “Vemos que as relações estão completamente disfuncionais”, lamenta a assistente social. “Eles ‘entram de cabeça’ em relacionamentos que são fáceis de começar e de acabar, então insistimos em saber se eles estão prontos. Com a `Maria da Penha´, eles perdem a casa e a confiança fica abalada. Então, pedimos para não confundirem carência com amor”.
 
MULTIPLICADORES – Satisfeitas, Tatiana e Ingrid relembram incansavelmente os casos que já passaram pela sala do Cerav nos últimos meses, como o atendido que percebeu que a vizinha sofria violência doméstica e ofereceu ajuda; o que viu uma briga de casal no shopping e interferiu; o que percebeu que se continuasse como agressor passaria o exemplo ao filho e o que se tornou voluntário do CIM Mulher.
 
“São os multiplicadores”, define a assistente social Tatiana Festa, referindo-se aos homens que fazem o acompanhamento pelo programa, reeducam-se e passam  adiante os conhecimentos adquiridos. “Pensar que vamos mudar o mundo é uma utopia; mas, de pouquinho a pouquinho, fazemos alguma mudança”, celebra a psicóloga.
 
CIM MULHER – Para conhecer melhor o trabalho do CIM Mulher, basta acessar o site www.cimmulher.org.br ou entrar em contato pelo telefone (15)3342.6999 e pelo e-mail contato@cimmulher.org.br. A entidade também aceita voluntários, por meio de requisição no e-mail voluntariado@cimmulher.org.br, e doações, por transferência bancária, pela Caixa Econômica Federal (Banco 104, agência 2757 e conta poupança 013-12466-8).
 
 
Uma em cada 100 mulheres recorreu à Justiça por violência doméstica em 2017
 
Um estudo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelou que, ao final do ano passado, uma em cada 100 mulheres brasileiras abriu ação judicial por violência doméstica. No levantamento elaborado e divulgado pelo Departamento de Pesquisas Judiciárias da instituição, constatou-se que 1.273.398 processos dessa natureza tramitavam na Justiça dos estados. Desse total, 388.263 eram casos novos. Em relação a 2016, o número apresentado foi 16% maior.
 
Apenas 5% dos processos de agressão doméstica em tramitação tiveram algum tipo de andamento no ano passado, contudo. Em relação ao feminicídio, crime considerado hediondo desde 2015, foram 2.795 ações pedindo a condenação de um agressor enquadrado nessa modalidade em 2017, em uma proporção de oito casos novos por dia ou uma taxa de 2,7 casos a cada 100 mil mulheres.
 
De acordo com o CNJ, o volume de processos julgados (440.109) foi ampliado em 19% na comparação com 2016. Um dos fatores que motivaram o aumento é o programa “Justiça pela Paz em Casa”, que consiste em uma força operacional de tribunais estaduais concentrada ao longo de três dias, em que são decididos os destinos de vítimas e autores de crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher. Mais de 800 mil casos (833.289) ainda aguardavam um desfecho no final de 2017.
 
Outra pesquisa, divulgada na semana passada, indica que somente uma em cada três mulheres afirmou ter recorrido a algum equipamento do Estado para enfrentar a violência a que foi submetida. Segundo o levantamento `Aprofundando o Olhar sobre o Enfrentamento à Violência contra as Mulheres´, realizado pelo Observatório da Mulher contra a Violência e pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, 29% das mulheres consultadas dizem que foram vítimas de violência. Em 2015, o percentual era de 18% das entrevistadas.
 
NA INTERNET – Por outro lado, internautas brasileiros demonstram cada vez mais curiosidade em pesquisar o termo `machismo´ nos canais de busca do Google e do YouTube, apesar de ainda existir falta de informação ou confusão sobre o tema. O apontamento faz parte de uma pesquisa realizada pelo Google BrandLab, que realizou 700 entrevistas online em diversos estados brasileiros e analisou o resultado nos canais de busca do Google e YouTube. 
 
 As consultas com o termo `machismo no Brasil´ aumentaram 263% nos últimos dois anos, pulando da nona posição para a terceira em volume de busca, e a existência do machismo no País é uma verdade assumida por 78% dos brasileiros. No entanto, a pesquisa aponta também que, apesar do crescimento do interesse, ainda há muita confusão e falta de informação sobre o tema. Para metade dos homens, machismo e feminismo são movimentos equivalentes. “O feminismo está disputando não a hegemonia de um grupo sobre o outro, mas as relações de igualdade entre homens e mulheres”, explica o pesquisador do Núcleo sobre Sexualidades, Gêneros, Feminismos e Diferenças da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP), Fábio Mariano. O machismo, por outro lado, é o esforço para manter as assimetrias entre os gêneros. (Agência Brasil)
 
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