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<< SOROCABA Sumiço das abelhas: o que está acontecendo de verdade? Segundo Associação, ameaça está em fatores como redução dos habitats naturais, doenças e espécies invasoras, entre outros

Publicada em 29/06/2018 às 18:54
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(Foto: Divulgação)
Elas estão por toda parte; entre as pétalas de uma margarida, na boca da latinha de refrigerante aberta, perto do caldo de cana das feiras de rua. Elas estão por toda parte? O zunido parece estar ficando mais distante e a presença que gera o medo da ferroada não parece tão mais frequente. A maioria das pessoas já deve ter ouvido que as abelhas estão desaparecendo. Estão mesmo?
 
A bióloga Katia Aleixo, consultora da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A), afirma que há números que mostram que muitas abelhas selvagens, assim como borboletas, têm diminuído em abundância, principalmente no noroeste da Europa e na América do Norte – segundo comparação de levantamentos faunísticos. Mas, no Brasil, das 1.700 espécies catalogadas apenas quatro estariam na lista de risco de extinção. “Entre as abelhas melíferas, usadas pelo homem para a produção de mel, há um aumento de 45% no número de colmeias em todo o mundo. Isso é puxado por países como China, Índia, Brasil e Espanha”, conta a bióloga.
 
A ameaça de desaparecimento, no entanto, não seria um problema específico das abelhas e de outros polinizadores. “A atuação do homem tem ameaçado todas as formas de vida no Planeta”, pontua Katia. “Há estudos que sugerem que 50% dos animais que vivem na Terra desapareceram desde o advento do Homo sapiens”.
 
Para as abelhas, segundo a bióloga, as principais ameaças seriam a redução dos habitats naturais, com a diminuição e/ou alteração da cobertura quantitativa e qualitativa de vegetação natural, biodiversidade e corpos d’água, entre outros; doenças que afetam colônias mundo afora; a Síndrome do Colapso das Colônias (CCD), que se caracteriza pelo abandono das colônias sem uma razão aparente; espécies invasoras, que são um componente-chave para mudanças ambientais e trazem impactos negativos aos nativos; mudanças climáticas, pois os eventos extremos no clima do Planeta afetam a todos; e o uso indiscriminado de agrotóxicos.
 
POSICIONAMENTO – Para este último fator, a A.B.E.L.H.A destaca nota oficial do Colmeia Viva, entidade do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), um dos seus associados, baseando-se no relatório de 2016 da Plataforma Intergovernamental de Serviços Ecossistêmicos e Biodiversidade (IPBES) para dizer que “as culturas dependentes da polinização animal (incluindo as abelhas) contribuem com 35% do volume de produção mundial de alimentos, representando de 5 a 8% em valor da produção mundial”.
 
A entidade conta ter assinado o Compromisso 2020 em outubro do ano passado, assumindo “metas e iniciativas para promover o uso correto de defensivos agrícolas na agricultura brasileira para proteger os cultivos e contribuir na garantia do direito básico de alimentação das pessoas, respeitando a apicultura e protegendo as abelhas e o meio ambiente”.
 
Houve ainda a elaboração do Plano Nacional de Boas Práticas, “voltado à prevenção da mortalidade de abelhas e mitigação de incidentes, baseado na disseminação de boas práticas no uso de defensivos e na formalização do pasto apícola entre agricultores e apicultores”.
 
CONSEQUÊNCIAS – Segundo a bióloga Katia Aleixo, da A.B.E.L.H.A, a principal consequência de um eventual sumiço das abelhas é o comprometimento da biodiversidade. “Plantas com flores são beneficiadas pela polinização feita por abelhas, moscas e borboletas, mas também vertebrados, como morcegos e beija-flores”, afirma. “Não é exata, porém, a afirmação que se repete de que a ‘Humanidade desapareceria se as abelhas desaparecessem’”, enfatiza a bióloga. “Alguns cultivos que são a base da alimentação humana, como os grãos, não dependem dos polinizadores. Aqui no Brasil, levantamento feito com 141 culturas agrícolas mostrou que cultivos como o melão, a melancia, girassol, maçã e pera, dentre outros, dependem fortemente da ação dos  polinizadores – todos, não apenas abelhas. Dentre as culturas que não seriam afetadas, incluem-se cana-de-açúcar, arroz, milho, trigo e uva, abacaxi, entre outras”.
 
 
Para cooperativa de apicultores, defensivos agrícolas são o problema
 
A indignação de Alcindo Alves fica nítida em sua fala e expressão enquanto ele rola a tela do celular lendo as mensagens repassadas por colegas no grupo de WhatsApp intitulado “Apicultores versus Agrotóxicos”. “Quando partirmos, todos vocês humanos vão conosco”, lê em voz alta ao deparar-se com a frase acompanhada da foto de uma abelha.
 
Vice-presidente da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis) e presidente da Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores do Estado de São Paulo (Faamesp), Alves pontua que os apicultores não acreditam que ouvir apenas o que a A.B.E.L.H.A declara seria suficiente para passar a informação. “É uma entidade custeada pelas empresas produtoras de agrotóxico”, justifica. “É nossa parceira, mas protege o trabalho deles”. De acordo com Alves, são duas situações; a primeira é o sumiço das abelhas, conhecido como distúrbio do colapso das colônias (CCD), quando a abelha simplesmente desaparece. “É um fenômeno. Normalmente, a gente já tem perca de 8 a 10% de colmeias por ano”, conta. A segunda é quando o colapso vai além e Alves exemplifica com o sumiço de 80 a 100% de abelhas nos Estados Unidos e em outros países: “Elas saem da colmeia para trabalhar e não conseguem voltar; perdem a orientação e acabam morrendo no caminho”, explica.
 
Pesquisas e análises vêm sendo desenvolvidos desde que a anormalidade foi percebida, mas ainda não se chegou a uma conclusão assertiva dos motivos do desaparecimento das abelhas. Alves, no entanto, tem uma convicção: “Está ligado ao uso indiscriminado dos agrotóxicos”. “Então, tem o sumiço, que é quando você vai na colmeia e tem mel, cera e pólen, mas não tem abelha nenhuma e a gente não sabe por que foi embora. E tem também a mortandade, que é quando o veneno passa e mata”, esclarece. “Principalmente quando há pulverização de agrotóxico com avião, aí mata mesmo”.
 
No Estado de São Paulo, por conta das plantações, Alves diz que o problema é mais drástico. “Em Sarapuí, perdi no ano passado 40 colmeias e, este ano, 90 – de morrer tudo por aplicação de veneno”, revela. “O maior vilão é o uso inadequado do agrotóxico, pois o produtor aumenta a dosagem para ter mais efeito”.
 
Segundo Alves, há meios de diminuir a mortandade, no entanto: “Precisa de um entendimento; quando o produtor for fazer a pulverização, se comunicar o apicultor, ele fecha as colmeias ou as muda de lugar”, explica, contando ainda que há um projeto de lei do deputado estadual padre Afonso Lobato (PV-SP) para proibir a aplicação aérea de agrotóxicos. “Mas o grande problema são as empresas que produzem os defensivos agrícolas; são muito poderosas e conseguem reverter tudo”, lamenta-se Alves.
 
Hoje, nos Estados Unidos, o apicultor diz que a maioria das pessoas que trabalha com abelhas é para fazer enxame para alugar - e não para produzir mel. O objetivo é manter a polinização da agricultura. No Brasil, a cidade paulista de Franca já tem demanda para levar colmeias para a polinização do café. “A gente que é apicultor tem certeza de que, se não fosse por nós, as abelhas já estariam extintas”, frisa Alves.
 
CONSEQUÊNCIAS – Segundo o apicultor Alcindo Alves também, a produção brasileira de mel não está comprometida, uma vez que, no Brasil, a mortandade de abelhas ainda não tem números expressivos. “A gente já trabalha há muito tempo sabendo que de 8 a 10% das abelhas se perdem; então, temos um trabalho de recuperação”, diz.
 
Há dois problemas reais a serem destacados, sendo o primeiro o trabalho dos apicultores. “Temos essa preocupação, pois, nós, apicultores, sobrevivemos delas”, observa ele. O segundo remete à polinização, processo de transferência do pólen entre plantas. A campanha “Sem Abelha, Sem Alimento” destaca que a polinização “garante a produção de frutos e sementes e a reprodução de diversas plantas, sendo um dos principais mecanismos de manutenção e promoção da biodiversidade na Terra”.
Alves cita o cientista Albert Einstein para resumir a situação: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a Humanidade terá apenas mais quatro anos de existência”.
 
 
Entidades sorocabanas estão engajadas na causa
 
Três entidades atuam em Sorocaba com a missão de desenvolver e fortalecer a Apicultura, todas com endereço no bairro do Trujillo. A Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis), fundada em 8 de agosto de 2007, estimula ações conjuntas de compra e venda, beneficiando o mel, a cera, o própolis e outros produtos.
 
Sem fins lucrativos, a Associação Paulista dos Técnicos Apícolas (Apta) trabalha a parte social, cuidando dos funcionários do local e da organização de cursos, palestras, reuniões, eventos e congressos. Já a Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores do Estado de São Paulo (Faamesp) atua em tudo o que diz respeito ao apicultor. Presidente da Faamesp, Alcindo Alves conta que viaja a Brasília algumas vezes por ano para participar de reuniões e congressos, envolvendo-se em projetos de lei e criação de normas relacionadas ao segmento. 
 
1.200 QUILOS DE MEL POR DIA - Segundo Alves, a cooperativa tem a capacidade de beneficiar 1.200 quilos de mel diariamente para o produtor. “É uma indústria bem estruturada; tudo automatizado e sem contato manual”, garante. O entreposto foi inaugurado em 2014, com instalações cujo investimento de R$ 780 mil, com recursos externos e internos. “Hoje, essa cooperativa é uma das maiores do Brasil”, celebra Alves. “Só uma organização é maior que a gente, a Casa Ápis, no Piauí. Eles exportam dois ou três containers de 20 toneladas por mês para o Japão e os Estados Unidos”, justifica.
 
A sede da Coapis, da Apta e da Faamesp está situada ao número 963 da avenida Gonçalves Magalhães, no Trujillo. Os telefones para contato são (15)3234.5036 e 3211.3407. Há ainda o e-mail coapis.sorocaba@gmail.com e o site www.coapis.com.br.
 
 
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