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<< AGENDA CULTURAL Antiga, iconografia resiste em Sorocaba Pároco utiliza técnica russa para produção de pinturas religiosas

Publicada em 18/05/2018 às 19:11
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(Foto: Miguel Pessoa)
JANELA PARA O CÉU
 
Na arte, cada traço, cor e forma têm um porquê – e o padre Almir Flávio Scomparim bem sabe disso. No pequeno ateliê de sua casa na Vila Fiori, em Sorocaba, o pároco faz traços leves sob o branco, escolhe pigmentos com a delicadeza de quem lida com pedras preciosas e trabalha incansavelmente em ícones, pinturas da arte sacra que incitam à oração e embelezam igrejas.
 
Quando não está cumprindo suas obrigações religiosas como titular da Paróquia São José, em Votorantim, o padre Almir dedica-se à iconografia, arte pela qual se apaixonou ainda no início dos anos 2000. “Sempre quis aprender, mas não tinha mestre. Não é algo que você aprende na internet ou lendo manual”, brinca. O contato com os padres Marcelo e Ricardo, de São Paulo, e o monge dom José, de Mogi das Cruzes, levou-o a ter o interesse despertado de vez.
 
A iconografia é uma arte sacra antiga que remete aos tempos da Idade Média. “É fascinante, uma arte por excelência”, admira o religioso. Ele explica que o ícone é uma pintura cujo objetivo é a oração. “É uma janela para o Céu. Mas como representar o divino se somos pessoas materiais presas a Terra? Por simbologias”, conta o padre. “O ícone usa linguagem simbólica para falar do mundo invisível; usa como recurso o desenho, as cores e a perspectiva.”
 
PROCESSO – Embora já desenhasse sem dificuldades, o padre Almir precisou aprender sobre a pintura. Seu trabalho é feito com base na Escola de Moscou, que conheceu por meio de um curso com a professora argentina Rosanna Nicoletti. “Ela é purista, segue a técnica russa autêntica. Geralmente, as pessoas são ecléticas e misturam tudo, mas ela só usa elementos naturais”, explica o pároco.
 
Para começar o processo de criação de um ícone, o padre Almir primeiro prepara a tábua na qual será feita a pintura. Uma madeira deve ser coberta com um tecido de algodão ou linho, seguido de 10 camadas de gesso misturado em cola de coelho. A aplicação não pode ser feita em telas, pois o suporte precisa ser estável.
 
Em seguida, faz-se a grafia. Pincéis finos traçam na cor preta uma ideia do desenho que se pretende fazer; se for algo grande, o padre revela que prepara algo menor em papel e projeta na tela maior para facilitar o trabalho.
 
O uso do ouro é a primeira etapa a dar cor para o ícone. Com um pincel feito de pelos de esquilo, aplica-se na base de barro folhas de ouro 23 quilates, cujo formato quadrangular mede oito por oito centímetros. “É mais fina que um fio de cabelo; se você respira em cima, a folha já estraga”, brinca o padre. “O ouro tem de ser feito primeiro porque vai sobrar rebarba e, então, precisa pintar por cima.”
 
O padre Almir esclarece que o ouro não está ligado ao luxo e ao requinte, mas, sim, ao simbolismo divino. “O ouro é incorruptível, assim como Deus”, diz. Os ícones brasileiros têm o ouro aplicado na auréola de Jesus Cristo e nos discípulos caso o retrato seja de uma cena após Pentecostes.
 
Depois, resta pintar. A tinta é feita a partir de pigmentos em pó – todos importados. “O Brasil, infelizmente, é atrasado na arte”, lamenta o religioso. Ele cita alguns materiais em tom ocre, à base de terra, e verde, de malaquita moída. “A grama de alguns pigmentos é mais cara que a do ouro”, revela, mostrando o pó do lápis-lazúli, do Afeganistão.
 
Os materiais naturais são determinados pela técnica russa de iconografia. “Quando os pigmentos são artificiais, os grânulos são redondos e iguais, então a pintura fica chapada e a luz rebate de maneira monótona e cansativa. Quando são naturais, os tamanhos e formatos são diferentes e a luz reflete para todos os lados, descansando o olhar e transmitindo serenidade”, justifica o padre Almir. “O ícone é objeto de oração. Não pode transmitir emoção, mas, sim, serenidade”, reforça.
 
Os pigmentos são aplicados junto a uma mistura de gema de ovo com vinho branco, que fazem a vez do aglutinante natural, que o pároco afirma ser o melhor que existe. “Se você pegar uma pintura do Renascimento, já foi restaurada diversas vezes; a iconografia do século VI, não. É uma arte feita para durar.”
 
A pintura é feita do escuro para o claro e as cores são corrigidas o tempo todo. Em seguida, é importante garantir que o nome dos personagens representados sejam escritos. “O ícone surge nos Tempos Antigos, junto ao paganismo. Se uma pessoa via um desenho de um Jesus Cristo barbudo, sentado em um trono, poderia pensar que é Zeus”, esclarece o padre. “Nomeamos para evitar qualquer confusão.”
 
Por fim, a pintura é revestida de verniz e está pronta para ser levada para contemplação na paróquia que a encomendou. “A gente pode pensar que contemplação é ficar olhando e falar que está bonito. Mas, no sentido cristão antigo, contemplar é olhar uma figura sagrada para que ela te tire dos pecados”, informa o religioso. “A pintura sacra tem o sentido de nos transformar, na medida do possível, no modelo que está nela.”
 
 
Arte sacra está carregada de simbolismo, diz padre
 
“Isso aqui é a mesma coisa que música erudita: às vezes, as pessoas acham feio porque não entendem”, afirma o padre Almir. Em meio aos ícones atualmente em desenvolvimento em seu ateliê, o religioso aponta elementos que diferenciam a arte sacra das demais.
 
Primeiramente, ele pontua que, por mil anos, existiu comunhão religiosa entre o Ocidente e o Oriente, quando a arte estava presente. Após o cisma de 1054, afloraram o gótico e o renascentista. Foi a chegada da pintura moderna, que o padre explica ser contrária à teologia cristã por conta de pressupostos materialistas e pessimistas, que a arte sacra começou a reunir forças para voltar – situação que data de apenas três ou quatro décadas atrás.
 
O pároco começa citando a perspectiva do desenho no ícone como diferencial. “O que está na frente é menor; há um ponto de fuga inverso da perspectiva cônica e naturalista”, diz. O sentido está em não limitar o fundo, que representa o céu infinito.
 
Os traços corporais também são destaque. “Os olhos – contemplação – são grandes e abertos; a boca – silêncio – é pequena; e o nariz, longo e reto, é sopro do Espírito Santo”, conta o padre. Ainda na cabeça, o rosto deve sempre estar de frente ou meio perfil. “As personagens representadas de perfil inteiro são pecadores ou pessoas associadas ao mal. Você não pode encarar a figura; assim como você olha para o ícone, ele olha para você.”
 
Já em relação às cores, as escolhas devem ser estudadas. Apontando para um ícone na própria parede, o padre Almir explica. “No Cristo, o manto é azul e a túnica, vermelha. Em Nossa Senhora, ao contrário. Azul é celestial e vermelho é sangue. Jesus, sendo Deus, assume a natureza humana; ela, humana, é deificada pela graça divina.”
 
Mesmo o tom de pele é pré-determinado. “A pele não pode ser rosada, pois a cor exprime sensualidade”, frisa o pároco. “O tom sempre é bronze reluzente; se você abrir a Bíblia, verá que é a descrição para os profetas e figuras enigmáticas.”
 
Toda a iluminação na pintura deve ser feita de modo específico; a luz representada não é a do Sol, mas, sim, a luz tabórica da essência divina. “Por isso o ícone não usa a técnica de luz e sombra”, justifica o padre. “No ícone, a luz vem de dentro para fora e as partes mais iluminadas são as que tocam o corpo.”
 
Mesmo dominando os preceitos da arte sacra da iconografia, o padre Almir vai anualmente a um curso intensivo em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. “É um retiro de 11 dias em que você só fica pintando”, anima-se. “Neste ano será o batismo do Senhor. Terá quatro anjos, Jesus Cristo, São João Batista, montanha, árvore, rio e peixes. Vai dar trabalho!”, brinca.
 
 
Conheça mais
 
O grupo de estudos de iconografia de Sorocaba reúne-se todas as quartas-feiras, das 14 às 17 horas, no Seminário Diocesano, no número 140 da avenida Dr. Eugênio Salerno, no Centro. “As pessoas estão em fases diferentes; tem gente começando do zero ainda”, conta o padre Almir, garantindo que todos são bem-vindos para conhecer a arte, mesmo sem experiência alguma. “Em tudo na vida conseguimos êxito pela persistência”, incentiva.
 
Uma exposição com os ícones do pároco e de seus aprendizes está no Residencial Granja Olga, na avenida São Paulo, onde deve seguir até julho deste ano. Como se trata de um espaço particular, o padre Almir planeja expor os trabalhos em um local público no segundo semestre. “Estou negociando com Votorantim”, adianta.
 
Enquanto os ícones não estão em uma mostra aberta, a arte sacra produzida pelo religioso pode ser encontrada embelezando algumas igrejas. “Embelezando, pois decorar é algo supérfluo; embelezar é da arquitetura”, frisa o padre Almir. Em Sorocaba, os ícones estão na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na Vila Angélica, e na Paróquia São Francisco de Assis, na Vila Assis.
 
 
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