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Diário de Sorocaba

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<< COTIDIANO Associação defende sociedade bilíngue e sincronismo Projeto para surdos oferece diversas atividades de ensino e capacitação na Vila Progresso

Publicada em 06/04/2018 às 17:49
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(Foto: Bruna Camargo)
INCLUSÃO
 
Silêncio. Então, a trovoada. A chuva irrompeu de repente sob o céu da Vila Progresso, em Sorocaba, em uma tarde de sábado e as gotas caíram raivosas após um Verão seco. Sob o olhar sisudo do poeta Vinícius de Moraes em uma pintura, Larissa Tancredo, 14 anos, e Márcio Rogério de Oliveira, 35 anos, seguravam violões como se a natureza não estivesse dando sinal de sua força do lado de fora. Nem um ruído sequer chegava aos seus ouvidos enquanto Márcio tentava ensinar acordes à jovem Larissa. Ela não entendia: o que fazer? Como fazer? Márcio demonstrava e logo posicionava as mãos delas nas cordas. Qual o propósito? Então, pacientemente, Márcio segurou a mão direita de Larissa e pousou na caixa acústica do violão. Os dedos dele deslizaram pelas cordas e produziram uma nota musical. Imediatamente, os olhos de Larissa brilharam e sua boca abriu como quem queria gritar. Ela sentiu o som.
 
Os jovens são integrantes da Associação do Amor Inclusivo (AAI), organização não governamental (ONG) inaugurada em dezembro de 2017 para acolher surdos em busca de inserção social e acolhimento educacional. “É um sonho realizado”, comemora a presidente da entidade, Maria Angela Oliveira Oliveira.
 
LONGA TRAJETÓRIA – Maria Angela não é surda e não tem um surdo na família. Sua história remete ao ano de 2006 quando, como catequista na Igreja católica, deu aulas a uma jovem surda. Ao ver potencial na garota, recebeu-a em sua casa para ensinar disciplinas escolares e, depois de alguns meses, inseriu-a no mercado de trabalho. Foi o começo de uma trajetória que já dura mais de uma década.
 
Primeiro em sua residência, depois no Laboratório de Ensino Multidisciplinar (LEM) e, então, na Casinha de Nazaré, espaço que mantinha desde 2014 no Santuário de Santa Filomena, no Jardim Abaeté. O ensino de Português, Matemática, Língua Brasileira de Sinais (Libras), Música e Artesanato, entre outras atividades, parecia requerer mais e, ao mesmo tempo, as doações de material aumentavam. O sonho de Maria Angela crescia.
 
“Fui ousada”, brinca. “Em setembro de 2017, no mês em que se comemora o Dia Internacional do Surdo, senti que, se aquela era a obra de Deus para mim, eu deveria ousar”, explica Maria Angela, que conversou com o marido e decidiu ser a hora de dar mais um passo: alugar uma casa para a ONG.
 
Embora a Casinha de Nazaré oferecesse o necessário para a realização de atividades, o sonho de Maria Angela exigia mais. Então, certo dia, em busca de um local novo, encontrou a atual residência da sede. “Fiquei encantada. Eu podia visualizar nossa Associação aqui”, relembra, com um brilho nos olhos. Convencido pela firmeza e emoção da presidente, o dono do imóvel aceitou seu preço e ela ficou com a casa.
 
Alguns meses foram necessários para a parte burocrática ser concluída e, enquanto isto, os frequentadores da Casinha de Nazaré ajudaram a preparar a agora Associação do Amor Inclusivo (AAI). Eles pintaram, consertaram, arrumaram e organizaram a nova sede. Surdos, ouvintes e amigos colocaram um pouquinho de si naquela realização. E, então, o sonho tornara-se realidade!
 
O SONHO NÃO ACABOU – Uma sede física para seu projeto de vida era um dos objetivos de Maria Angela, mas conquistá-la não encerrou sua luta. Agora, vem a parte que não depende apenas dela e sim da sociedade: a inclusão. “A inclusão está demorando a chegar”, afirma. Para a presidente da ONG, apenas aceitar surdos em escolas ou oferecer vagas para Pessoas com Deficiência (PCD) está longe de ser o suficiente. “Na escola, eles vão passando. Não aprendem. E, no trabalho, vão colocar para apertar parafuso? Tem de ser igual, não inferior”, enfatiza Maria Angela.
 
A solução encontrada é a de tornar a sociedade bilíngue, uma vez que Libras é a segunda língua oficial do País desde 2002. “Com sincronismo”, frisa ela. “Muitos países falam simultaneamente com lábios e mãos e isso é importante. Senão, estou separando: hora de falar com o surdo e hora de falar com o ouvinte. A gente quer inseri-los na sociedade como eles merecem”.
 
ATIVIDADES – Por enquanto, a agenda de atividades da Associação do Amor Inclusivo restringe-se aos sábados para viabilizar as aulas dos professores voluntários – inclusive de Maria Angela, professora universitária de Matemática e Libras. A programação inclui oficinas de Alfabetização em Libras e Português, Português para surdos, Matemática, Corpo e Movimento, Arte-Educação, Pintura, Artesanato, Costura, Capoeira, Informática, Música, Alimentação Saudável e Saúde Acessível.
 
Voluntários podem candidatar-se para oferecer qualquer oficina e, agora, a prioridade de Maria Angela é encontrar quem possa ajudar nas áreas de Fonoaudiologia, Psicologia e Terapia Ocupacional. Todas as informações para doação ou visita podem ser encontradas no site www.aainclusivo.blogspot.com.br. 
A Associação do Amor Inclusivo (AAI) está localizada no número 564 da rua Pedro Álvares Cabral, na Vila Progresso.
 
 
Reabilitação auditiva é possível, mas exige acompanhamento
 
Ao falar de inclusão do surdo na sociedade, há duas vias de pensamento: a adaptação do ouvinte e a adaptação do surdo. Enquanto a presidente da Associação do Amor Inclusivo (AAI), Maria Angela Oliveira Oliveira, empenha-se pela primeira parte junto aos ensinamentos dos dois lados, especialistas da área da saúde atentam especificamente para a segunda.
 
A fonoaudióloga e especialista em audição Vanessa Gardini explica que muitas podem ser as causas de perda auditiva, como exposição constante ou extrema ao ruído, envelhecimento, infecções ou doenças crônicas, acidentes, fatores genéticos e efeitos colaterais de medicamentos. “Nenhum caso é igual ao outro, existindo diversos graus de perda e de comprometimento de entendimento de fala”, conta a Vanessa, que garante a necessidade de uma avaliação para proposição de melhor tratamento.
 
O teste da orelhinha, simples e indolor, é feito obrigatoriamente em todas as maternidades logo após o nascimento do bebê, segundo a fonoaudióloga. Caso a perda auditiva seja identificada de imediato, haverá encaminhamento para reabilitação com prótese auditiva ou implante coclear, assim como fonoaudiólogo para que a fala seja desenvolvida normalmente.
 
A professora Jéssica Barros, 33 anos, integrante da AAI, nasceu surda por conta da contração de rubéola pela mãe durante a gravidez. Por insistência da família, colocou o aparelho auditivo aos 6 anos de idade e aprendeu a falar. “No começo, foi muito difícil. Meus amigos me chamavam de surda; eu tirava o aparelho e jogava na mochila”, conta.
 
Foram anos amedrontada pelo preconceito, até que aos 18 anos, já cursando Pedagogia e trabalhando como cuidadora de crianças especiais, conheceu uma menina surda e decidiu voltar a usar o aparelho para lhe encorajar. “Não tem nada de errado em ser surda e usar aparelho”, salienta.
 
No entanto, nem todo surdo consegue adaptar-se ao aparelho. É o caso de Márcio, também da AAI, que se sentiu incomodado pelos barulhos que ouvia. “Prefiro o silêncio”, sinaliza em Libras. O inspetor escolar aprendeu a ler lábios, mas não fala, nem tem a intenção de tentar usar o aparelho novamente – e vive bem com isso.
 
A fonoaudióloga Vanessa Gardini acredita que a falta de adaptação pode ser explicada por conta das diferentes tecnologias de cada tipo de aparelho auditivo. “Muitos pacientes acabam comprando um aparelho barato, mas sem qualidade”, afirma. “Também é fundamental levar em conta o acompanhamento. Ninguém consegue usar aparelho sozinho; ouvido junta cera, a audição muda e o equipamento eletrônico requer cuidados”, atenta Vanessa, para quem a aposta na reabilitação auditiva deve-se aos desafios impostos pela sociedade. “Tem pouquíssima acessibilidade em escolas, cinemas, igrejas e teatros”, justifica.
 
 
Surdos ganham iniciativa pública em Sorocaba
 
Prevista ainda para o primeiro semestre deste ano, a Central de Interpretação de Libras (CIL) será implantada em Sorocaba através da Secretaria de Igualdade e Assistência Social da Prefeitura, por intermédio do programa “Viver Sem Limite”, do governo federal. O objetivo é promover a inclusão social de surdos e facilitar o acesso a serviços, através da mediação da comunicação por meio da Libras, com trabalhos de tradução e interpretação.
 
Segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui mais de 2 milhões de pessoas com deficiência auditiva severa; quase 29 mil estão em Sorocaba. Com a CIL, a Prefeitura espera que os surdos sejam auxiliados por interlocutores mediante agendamento. A Central funcionará no Centro Integrado e de Apoio à Pessoa com Deficiência, à rua João Gabriel Mendes, 351, na Vila Gabriel.
 
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