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<< SOROCABA Conscientização é essencial para promover mudanças Jovem cadeirante mostra que superação é possível com apoio e respeito da sociedade

Publicada em 02/12/2017 às 23:57
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(Foto: Germano Schonfelder)
DIA DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
 
Pessoas com deficiência são, antes de mais nada, Pessoas. Assim define a Organização das Nações Unidas (ONU), em sua Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo governo brasileiro em 2008. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), dados de 2011 revelam que uma a cada sete pessoas do mundo vivem com alguma deficiência. Em 1975, a Assembleia Geral da ONU instituiu a Declaração sobre o Direito das Pessoas com Deficiência e, já o primeiro tópico frisa o que pode facilmente ser deixado de lado: “Pessoas com deficiência têm o direito ao respeito pela sua dignidade humana”.
 
Neste domingo (3), o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência é celebrado e joga uma luz sobre as dificuldades e necessidades de quem precisa viver com adaptações, das quais o restante da sociedade não tem conhecimento. Tão importante quanto gerar empatia pelos obstáculos, a data visa à conscientização sobre o tema.
 
SORRINDO PARA A VIDA – O sorriso que Vanessa Fonseca Soares, 30 anos, abre ao cumprimentar colegas de trabalho é aconchegante dada a sua condição; a jovem técnica-administrativa nasceu com má formação congênita, o que os médicos chamam de mielomeningocele – um problema na coluna que a obriga a usar uma cadeira de rodas. Sequelas de hidrocefalia também a acompanham há três décadas, mas tudo é controlado por uma válvula, que ela diz já fazer parte de seu corpo. Nada que a desanime.
 
“Acho que acabei enfrentando tudo melhor devido à minha criação”, explica Vanessa. “Meus pais sempre me apoiaram, nunca me viram ou fizeram eu me enxergar como uma pessoa ‘defeituosa’, que foi o que já ouvi de uma colega no passado.”
 
O amor e suporte familiar deram base para sua vida, mas a saída para o mundo seria diferente da segurança de casa. “Do Ensino Fundamental, tenho lembranças boas porque, entre crianças, não tem essa coisa de preconceito”, lembra. No entanto Vanessa diz que quem sofreu foi sua mãe, ao ver a filha ser recusada em algumas instituições de ensino. “Teve uma professora que falou ‘por que colocar sua filha na escola se ela vai ser um tormento na vida dos nossos alunos?’.”
 
Já no Ensino Médio, o amparo foi maior, pois o local oferecia mais adaptações que a escola anterior. Porém, já na faculdade, onde trabalhou além de estudar, ela sentiu o desrespeito na pele. “Minha supervisora, responsável por trabalhar com deficientes, não sabia atuar adequadamente”, conta. “Ao mesmo tempo em que eu corria atrás de adaptação para os alunos, eu nunca a tive; precisei sair.”
 
Na vida profissional, Vanessa encontrou empresas acolhedoras. Ela passou por três empregos e, neste último, está há nove meses – considera o melhor até agora. No primeiro, ficou por seis anos e optou por sair, embora os empregadores não quisessem deixá-la ir. “Agora está sendo uma experiência superbacana, o pessoal é receptivo demais”, comemora.
 
UM OLHAR MAIS ATENTO – “Aparentemente somos todos iguais, mas cada um tem sua limitação”, frisa Vanessa, que sabe que, por mais que tenha tido possibilidade de conviver com pessoas que a entenderam e a ajudaram, nem todos recebem tal base.
 
No primeiro e terceiro emprego, a jovem teve ajuda de custo para a cadeira de rodas; na faculdade, os amigos fizeram uma rifa para presenteá-la. “As cadeiras têm prazo de validade. Depende do uso, mas dura em torno de quatro a cinco anos”, explica.
 
Não basta ter uma cadeira de rodas em boas condições, conforme ela enfatiza. “O que faz muita falta é a questão do ambiente que não tem elevador ou das rampas que precisam de nível mais adequado”, exemplifica. Vanessa lista uma série de pontos necessitam melhorias: maior espaço em elevadores ou até sua instalação, mais vagas para deficientes no transporte coletivo, rebaixamento de guias e revitalização de calçadas.
 
Para ir à luta por seus direitos, Vanessa integrou o Movimento Livre Independente (MLI), que desenvolve ações sociais pela cidade. O grupo ainda tenta inserir-se no poder público. “A gente tem nossa família, mas nossos pais não são eternos; a gente tem de correr atrás das coisas”, afirma. “Não é porque estamos numa cadeira de rodas que somos limitados. Temos tanto direito quanto quem não tem deficiência alguma!”
 
 
Sorocaba garante ações presentes e planos futuros
 
O último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aplicado em 2010, revelou que Sorocaba tem, em média, 12.054 pessoas com deficiência total ou grave. O DIÁRIO questionou a Prefeitura sobre as ações efetuadas e os direitos garantidos para esta parcela da população.
 
GRATUIDADE – O munícipe que tenha em mãos um laudo que determine a necessidade de uma cadeira de rodas para livre locomoção pode abrir um processo administrativo para requisição do equipamento, seja na Secretaria de Saúde Municipal ou Estadual. O laudo pode ser adquirido após solicitação de um médico por consulta em uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
“Após a solicitação, o pedido passa por uma avaliação referenciada nos princípios do SUS: equidade, universalidade e integralidade”, explica a Prefeitura, em nota. “Vale ressaltar que também é avaliada a situação socioeconômica do solicitante e a situação orçamentária da secretaria.”
 
TRANSPORTE – A Urbes – Trânsito e Transporte destaca que, por normas legais, é obrigatório que seja garantido um lugar para cadeirantes nos ônibus, mas que, quando o veículo já tiver o lugar ocupado, atualmente, o cadeirante deve aguardar o próximo carro.
 
A empresa informa, porém, que o Comitê Municipal do Transporte Especial de Sorocaba está em processo de formação para tratar do serviço e também de assuntos que envolvam a pessoa com deficiência no transporte coletivo. “A ideia da Urbes é que, em 2019, com a nova licitação do transporte coletivo, a empresa vencedora ofereça dois locais reservados aos cadeirantes no ônibus”, explica, em nota.
 
PRÓXIMOS PASSOS – Em 2018, a Prefeitura informa que espera dar continuidade às Oficinas Inclusivas e promover o II Fórum da Inclusão. Há também planejamento para a Virada Inclusiva, Revitalização do Centro Integrado e de Apoio a Pessoas com Deficiência, parcerias com universidades e faculdades, trabalho com voluntários, estudo para a Implantação do Acolhida e instituição do Dia para Pessoas com Deficiência.
 
SEM RESPOSTA – A Prefeitura ainda foi questionada a respeito de outros pontos, mas não ofereceu retorno até o fechamento desta edição. São eles: número de ambientes públicos da cidade com arquitetura inclusiva e planejamento para adaptação; como é feita a fiscalização para garantir que novas obras respeitem condições técnicas de acessibilidade; ações que foram feitas para o cuidado com as calçadas neste ano; e se haverá alteração da Lei n° 11.496, que permite que comerciantes ocupem calçadas com cadeiras e placas, o que dificulta o livre trânsito.
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