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<< SOROCABA Gpaci convoca comunidade para união Entidade atua com excelência no tratamento do câncer infantil há 26 anos

Publicada em 06/10/2017 às 17:57
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(Foto: Bruna Camargo)
LUTANDO PELA VIDA
 
O ambiente de cores claras corresponde ao esperado para um local dirigido a tratamentos de saúde, mas, aos poucos, são alguns elementos espalhados que indicam quem passa por ali. Um gibi pousa aberto em uma das cadeiras pretas de espera; não distante, em outro assento, uma bolsa-maternidade pende entreaberta; já o monitor afixado na parede exibe um vídeo institucional com a animação de um urso.
 
A inocência da sala de espera para atendimento infantil é quebrada quando um homem abre as portas da recepção. Em suas mãos, um brinquedo colorido; em seu rosto, a preocupação estampada. A esposa vem em seguida, carregando num abraço carinhoso um pequeno menino, com a pele pálida e levemente manchada, sem cabelos e sem forças, que tem, naquele local, sua esperança de viver.
 
CASA DE APOIO – A primeira ‘semente’ para a implantação de um hospital que tratasse o câncer infantil em Sorocaba surgiu da grande dor da advogada Elizabeth Nonato, mãe que teve uma criança com leucemia, segundo a atual vice-presidente, Maria Lúcia Neiva de Lima. “Ela tinha condições de tratamento em São Paulo, mas ficou muito sensibilizada com as crianças daqui, que não tinham recurso para nada”, conta.
 
Proprietária de um comércio próximo à Rodoviária, Elizabeth presenciava constantemente a dificuldade das famílias que ficavam ali após tratamentos quimioterápicos. Ela logo juntou um grupo de amigas para arrecadar dinheiro para condução, vestuário e alimentação; só depois, em 1983, surgiu a ideia de construir uma casa de apoio.
 
Médicos envolveram-se com o projeto então dirigido por Thereza de Luca, esposa do fundador do DIÁRIO, Vitor Cioffi de Luca, e sugeriram que a iniciativa se transformasse em um hospital. Com um terreno doado pela Prefeitura, na Rua Antônio Miguel Pereira, no Jardim Faculdade, a construção começou após uma série de campanhas e rifas. A ajuda de João Caracante Filho para que o hospital fosse equipado permitiu a abertura dele, em 1992.
 
HOSPITAL – Com a inauguração do hospital do Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil, a presidência passou por outras mãos antes de chegar à de Maria Lúcia; primeiro Elizabeth Nonato e depois Carolina Caracante.
 
“Para que não fechasse, eu assumi”, revela Maria Lúcia, que lembra como a insistência de Thereza de Luca a ajudou. “Fiquei 18 anos como presidente. Fui aprendendo, chorando e sofrendo muito, mas muitas vezes nos alegrando com os resultados.” Há 15 anos é Carlos Camargo Costa quem preside a entidade.
 
O tratamento do câncer infantil é muito caro, mas as palavras de outrem não foram fortes o suficiente para abalar a força coletiva que move a equipe do hospital. “Não desistimos. São 26 anos em funcionamento; não só tratando, como também curando as crianças”, orgulha-se a advogada. “Nós não podemos sair de casa para vir aqui e ver as coisas serem feitas de qualquer jeito. Os pacientes serão, sim, muito bem-atendidos.”
 
CONVITE – No momento, a grande vontade do Gpaci é que a comunidade conheça e apoie os trabalhos desenvolvidos no hospital. “Participar e vir aqui mais; conhecer e conversar com a gente”, convida o médico e diretor-clínico, Fábio Bernardes de Oliveira. “Estamos abertos aqui o tempo inteiro para visitas”, garante o Dr. Gustavo Ribeiro Neves.
 
Maria Lúcia ainda comenta que é muito comum conhecer pessoas que procuraram envolvimento com o Gpaci e outras instituições ligadas à cura do câncer devido a um caso da doença na família. “Mas não precisa esperar acontecer. Precisa pensar nos que já passaram e estão passando por isso. Precisa ajudar.”
 
 
Hospital é referência, mas necessita expansão
 
O Gpaci atende a pacientes de 47 cidades da Região Metropolitana de Sorocaba e estima que, em certos tipos de leucemia, até 80% dos casos que recebem sejam curados. Geralmente, os pacientes são encaminhados por postos de saúde, consultórios e prontos-socorros, quando da cidade; se de fora, os municípios entram em contato.
 
O médico e diretor-técnico, Gustavo Ribeiro Neves, diz que praticamente todos os tipos de câncer são tratados ali, com poucas exceções, como o oftalmológico, que tem baixa procura e não justificaria a estrutura.
 
Não há uma triagem para recebimento exclusivo de casos específicos e uma capacidade máxima nunca foi atingida no hospital, embora possa estar próximo disso. “O hospital já está pequeno”, analisa o Dr. Fábio Bernardes de Oliveira. “Temos projetos em andamento que precisam ser executados para ampliação.”
 
Doutor Fábio conta que há alguns pontos nos quais as melhorias são mais urgentes. O segundo andar do hospital deve receber uma expansão do setor de Oncologia, com a inserção de mais leitos. “Doutor Gustavo e equipe têm a intenção de fazer transplantes de medula aqui”, explica. “Acaba sendo uma complementação do tratamento”, frisa o colega.
 
O local, agora, recebe o setor de Pediatria no primeiro andar, anteriormente responsabilidade da Santa Casa de Misericórdia. “O Gpaci não é mais só um hospital de câncer infantil, é um hospital infantil com serviços de Oncologia, Pediatria e Centro Cirúrgico”, esclarece o Dr. Gustavo.
 
Há espaço horizontal para crescimento do hospital, mas falta o suporte financeiro. O projeto para instalação do setor de imagens, como a tomografia, já começou com doação de recursos de uma rede de supermercados.
 
São necessários R$ 2 milhões por mês para manter o Gpaci. Há uma verba fixa da Prefeitura para os atendimentos de Pediatria e Oncologia. “Nos ajuda, mas é sempre insuficiente”, pontua o Dr. Fábio. Os recursos também chegam por repasses de deputados estaduais, doações espontâneas e arrecadadas por doações de telemarketing e pelos repasses do Sistema Único de Saúde (SUS).
 
“Os equipamentos estão mais tecnológicos e caros. Nós estamos defasados. A gente não pode ficar para trás, este hospital é de excelência”, explica o Dr. Fábio. “Para conseguir os recursos, temos de matar um leão por dia.”
 
Os municípios da região também devem se mobilizar, opina a vice-presidente, Maria Lúcia. “Nós atendemos as outras cidades, precisamos que colaborem”, diz. “O Gpaci vive de caridade. É nossa realidade, mas não precisaria ser.”
 
HISTÓRICO DE SUPERAÇÃO – Os médicos Fábio e Gustavo recordam de que, quando chegaram ao Gpaci, há cerca de 14 anos, a situação do hospital era bem diferente. A equipe de médicos havia saído e o momento exigia uma reestruturação completa, sob a alternativa de encerrar as atividades.
 
“Não foi uma reforma, foi a construção de um novo hospital”, brinca o Dr. Fábio. Os pacientes foram enviados à Santa Casa; o lugar cedia o espaço para que os profissionais do Gpaci continuassem os tratamentos. Enquanto isso, Dr. Gustavo cuidava de montar uma forte equipe para atender a todas as especialidades. “Foi uma luta”, lembra.
 
Após o momento de superação, um novo ciclo de desafios chega. “Precisamos de toda a comunidade; empresários e população”, afirma o especialista Fábio Bernardes. “Tem dia que saio pensando em como tem um lado do mundo que só pensa em si e outro que vive em função do próximo. Precisamos das pessoas que venham aqui não só se sensibilizar, mas também colaborar.”
 
UM LUGAR ESPECIAL – O atendimento no Gpaci não se limita aos tratamentos oncológicos. A estrutura oferece alimentação, transporte, remédio, kit de higiene e serviço dentário para os pacientes que passam por ali e precisam. “Precisa fazer com humanidade. É um serviço completo, senão você não cura o câncer”, emociona-se Maria Lúcia.
 
Ela conta que uma vez presenciou uma criança chorando por não querer ir embora do hospital. “Porque está sendo muito bem-tratada”, explica. Mas, o que mais a tocou recentemente foi uma garota que aguardava uma cirurgia na perna e veio elogiar seu cabelo. “Se tem uma coisa que nunca foi lindo, é meu cabelo”, brinca. “Mas claro que ela ia gostar; ela estava careca.” Aquela menina deu um bombom à Maria Lúcia, que foi para casa chorando.
 
“O que mais chama a atenção é a forma como o Gpaci trabalha a interação com as famílias”, opina Fábio. Ele revela que, nos outros hospitais em que trabalhou, nunca viu tanto carinho no modo como as pessoas se tratam. “A gente cansa de ver enfermeiro abraçando pai e mãe, médicos chorando pelos cantos quando não curamos todos. Como o tratamento é longo, cria-se um vínculo.”
 
Para Fábio, há uma aura em torno do hospital. “Essa espiritualidade não é só na capela ou no espaço ecumênico. É onde está a equipe”, diz, sorrindo.
 
 
Missa celebra Chiara Luce Badano
 
Uma Santa Missa em homenagem à Chiara Luce Badano será celebrada pelo arcebispo metropolitano de Sorocaba, dom Julio Endi Akamine, SAC, no hospital do Gpaci a partir das 9 horas da próxima terça-feira (10). Hoje, completam-se 27 anos da morte da jovem esportista italiana, que morreu em decorrência de um osteosarcoma.
 
Chiara nasceu em uma família muito católica e, desde muito nova, participou de grupos religiosos. Aos 17 anos de idade, sentiu dores nos ombros e fez cirurgias até descobrir um câncer nos ossos; ouviu o diagnóstico em silêncio. Retirou-se por 25 minutos e, quando voltou, anunciou aos pais: “Se é o que queres, Jesus, eu também o quero”.
 
Sua fé inabalável permaneceu em meio às dores e dificuldades trazidas pela doença. O tratamento não foi efetivo e, dois anos depois, Chiara faleceu após dizer à mãe que estava feliz em encontrar seu Esposo, como se referia à Jesus.
 
Após um processo de 11 anos, Chiara Luce foi beatificada em 25 de setembro de 2010, pelo cardeal Angelo Amato; a Igreja reconheceu a cura inexplicável de um jovem que pedira sua intercessão para se curar de uma meningite.
 
DIVERSIDADE RELIGIOSA – A história de Chiara inspira jovens de todo o mundo. Na capela que leva seu nome no Gpaci, primeiro lugar do mundo a homenageá-la, fotografias e bilhetes ficam embaixo de sua foto.
 
“O lado espiritual alimenta a esperança de que haja cura”, pontua a vice-presidente, Maria Lúcia. A capela é católica, mas outras religiões circundam o hospital. “Nós oferecemos, não impomos.”
 
Toda quarta quarta-feira do mês, uma Santa Missa é celebrada às 19h30 e a comunidade é bem-vinda a participar, mas outras manifestações religiosas são organizadas no decorrer do mês. “É um momento em que as pessoas precisam ter algo para acreditar”, afirma Maria Lúcia.
 
CONCILIAÇÃO – O médico Gustavo Ribeiro Neves reforça que manter um apoio espiritual é essencial para manter a confiança no tratamento da Medicina. “Para nós, isso é simples”, explica. “Conciliar o tratamento do corpo, que o médico faz, e da alma, com a religião, é sempre bom.”
 
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