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Diário de Sorocaba

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<< SOROCABA Semáforos acolhem desempregados em busca de sustento Em um cruzamento do Jardim Santa Rosália, três pessoas dividem suas histórias e esperanças

Publicada em 29/09/2017 às 19:12
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(Foto: Germano Schonfelder)
PELO PÃO DE CADA DIA
 
Sob um sol escaldante no cruzamento da avenida Dom Aguirre com a rua Padre Madureira, no Jardim Santa Rosália, uma mulher caminha incansavelmente, indo e voltando. Os cabelos brancos e esvoaçantes são contidos por um boné amarelo enquanto ela anuncia: “Olha a água, água, água”.
 
É o primeiro dia que Helena*, 55 anos, vai ao semáforo para tentar ganhar dinheiro. Os dois filhos, de 27 e 29 anos, já são adeptos da prática desde que perderam o emprego e agora, com as contas apertando a cada dia mais, a mãe não viu nada a perder. “Tem que pagar aluguel, água, luz”, lembra uma ofegante Helena. “Há três anos entrego currículo e não consigo emprego. Deu mais de 40 anos, acham a gente velha e ninguém pega mais”, desabafa.
 
Helena trabalhou durante alguns anos na área de produção de uma fábrica de embalagens. Quando a empresa saiu da cidade, ela ficou desempregada e desamparada. Com filho e nora desempregados em casa junto com o neto, a responsabilidade de garantir a vida dos quatro na casa ficou com ela.
 
A cada vez que a luz do semáforo fica vermelha, Helena se apressa em percorrer a longa fila de carros para oferecer garrafas de água. Quando um motorista coloca uma nota de R$ 2 para fora do vidro, ela abre o sorriso e entrega o produto. “Acho que está vendendo bem”, revela. Porém, não fez as contas de quantas garrafas precisaria vender para pagar as dívidas – prefere não pensar nisso ainda. “É um serviço digno”, reflete. “Não deixam a gente pedir, nem vender; vem agente mandando parar. Mas não tem outro emprego. Não tem como ficar parada”, insiste.
 
Em seu primeiro dia no semáforo, Helena nutria esperança de poder voltar a ajudar em casa. Quer, sim, um futuro melhor; não deixará de entregar currículos e espera conseguir um emprego logo. Mas, enquanto isso, vai insistir na frase que entoa com tanta firmeza: “Olha a água, água, água”.
 
ROEDORES AMIGOS – Pessoas lançando objetos aos ares pelos semáforos de Sorocaba não faltam. Porém, a jovem Jennyfer Cristina Timm, 18 anos, chama muito a atenção. A alguns metros de Helena, ainda no cruzamento da Dom Aguirre, na altura do Jardim Santa Rosália, Jennyfer equilibra três bolinhas jogando-as no ar e um rato equilibra-se em cima de seu boné. “O amigo dele está descansando na mochila”, diz, apontando para os pertences acomodados em um arbusto. “Tenho 25 ratos. Eu adoro bicho”... e seus ombros encolhem, como se fosse tudo muito óbvio.
 
Há dois anos que Jennyfer e seus amigos roedores começaram a marcar presença nos semáforos da cidade. Na faixa de pedestres, ela faz brincadeiras com as três bolinhas e depois passa entre os carros para agradecer e pegar alguns `trocados´ que lhes são oferecidos. “Moro com minha tia e minha avó, ambas de idade. Na época, ainda estava estudando, mas, como não consegui emprego, comecei a ajudar em casa desse jeito”, explica. Jennyfer começou vendendo balas, mas não gostou: “Precisa dialogar”, justifica.
 
A jovem tinha o sonho de estudar Medicina Veterinária, mas desanimou ao descobrir que a área não era exatamente o que pensava ser. Cogitou entrar em alguma outra faculdade, porém mudou de ideia ao ver-se impossibilitada financeira e emocionalmente. “Tenho outros propósitos de vida agora”, conta ela, que está tendo ajuda para aprender Marketing, carreira que pensa em explorar.
 
Durante o tempo com os malabares, Jennyfer não teve nenhuma situação desagradável o suficiente para ofendê-la. “Tem pessoa que acha que a gente vai roubar e fecha o vidro, mas ninguém nunca foi grosso”, afirma. Certa vez, a mãe de um menino para o qual Jennyfer ensinou a tocar violino a viu na rua e perguntou por que ela não investia em ser professora de Música: “Não aprendi a tocar para ganhar dinheiro”, explica, com tranquilidade.
 
Com algumas moedas a cada sinal vermelho, a jovem garante sustento para as duas mulheres que são dependentes e para si mesma. Jennyfer ainda revela o segredo que usa para não desanimar: “Sei que todo dia vai ser melhor que o outro”.
 
QUASE 100 ANOS – Os olhos azuis ficam quase fechados diante dos fortes raios de Sol que brilham ao final de mais uma tarde; o chapéu de palha protege a cabeça e os braços cansados carregam uma pilha de panos brancos. Enquanto Jennyfer faz malabares na faixa de pedestres, José** caminha em zigue-zague pelos carros, silencioso.
 
José optou pelas vendas nos semáforos quando ficou desempregado. A mulher e o filho não trabalham e é o dinheiro dos panos e, ocasionalmente, dos doces que traz sustento para o lar do idoso. A testa franzida já anuncia a personalidade contida de José. Ele prefere agir quieto e, com jeitinho, conta que chega a conseguir vender até 25 panos por dia, sendo que cada cinco saem por R$ 10.
 
Mesmo misterioso, José desabafa que apenas queria se aposentar: “Ando por aí, pelos cantos, e vendo todos os dias, há três anos”, comenta o homem que, quando questionado sobre a idade, dá uma boa risada: “Quase 100 anos”!
 
A LEGISLAÇÃO MUNICIPAL – Em Sorocaba, informa a Secretaria de Comunicação e Eventos da Prefeitura, a lei 4.828/1995 proíbe a prática de comércio, propaganda, distribuição de folhetos e arrecadação de ajuda financeira ou de qualquer espécie nos cruzamentos das vias públicas da cidade. A Secretaria de Segurança e Defesa Civil, de sua parte, esclarece, a propósito, que os infratores estão sujeitos à multa e apreensão dos materiais, lembrando que “a ação da Guarda Civil Municipal é desenvolvida em conjunto com a Divisão de Fiscalização da Prefeitura”. A Pasta também informou que vem desenvolvendo a Operação Semáforo, que visa coibir tais práticas nos cruzamentos da cidade. “Além do cumprimento à lei municipal, é uma forma de garantir a segurança dos pedestres, motoristas e veículos, visto que em alguns casos os infratores utilizam materiais inflamáveis e cortantes”. 
 
* A ambulante Helena preferiu preservar o sobrenome.
** O nome foi alterado pois o ambulante preferiu não se identificar.
 
 
Músicos alegram linhas de ônibus
 
São quase 22 horas e a linha 100 – Expresso sai do Terminal São Paulo em uma noite de quarta-feira. Rostos cansados estão por todos os cantos do ônibus, até que a monotonia é quebrada por uma nota musical vinda de um violão. 
 
“Boa noite, gente. Nós somos a dupla ‘O bicho e a bicha’ e vamos cantar um pouco para vocês. Nós acreditamos que toda forma de arte é importante e deve ser acessível, sem que precise pagar ou viajar para ver. Se alguém se sentir incomodado, pode pedir que a gente para e não fica ofendido não; vai que a pessoa está com dor de cabeça!”.
 
É com essa apresentação que Khalil Magno, 22 anos, solta a voz suave dentro do ônibus, acompanhado do amigo Fernando Apollônio, 19 anos. O primeiro com o violão, o segundo com o triângulo; logo, a música brasileira preenche o ambiente em movimento. Os sete minutos de trajeto são o suficiente para a dupla dar um show e alegrar a noite de quem achava que estava apenas voltando para a casa.
 
A ideia de implementar música nos ônibus surgiu em 2014, no Galpão da Estação Laranjada, no bairro da Árvore Grande, em um momento em que diversas formas de arte afloravam no local. “Em São Paulo, já acontecia muito, mas aqui não”, explica Fernando. “Se não oferecemos arte na rua, ela fica elitizada, só para quem tem dinheiro e tempo, que é a minoria”, conta Khalil. “As pessoas ficam muito ocupadas com o dia a dia, nem têm tempo de ouvir um som ou ver uma apresentação. A gente ajuda um pouco”.
 
A efervescência criativa dos jovens nos últimos anos inspirou Khalil, Fernando e outros colegas músicos a levarem a arte às pessoas. No entanto, demorou até os dois adquirirem a tranquilidade e confiança que exalam hoje. “Eu fazia um trabalho de militância para ajudar a comunidade, então a primeira vez que pisei num ônibus estava com um pano ‘louco’ na cabeça”, lembra Fernando, aos risos. “A gente parecia hippie e a galera se assustou, mas as pessoas foram se acostumando e abrindo a cabeça”.
Para Khalil, a recepção em Sorocaba é diferente da Capital: “Em São Paulo, as pessoas estão acostumadas a ver arte de rua”, comenta. “Mas a gente é muito bem recebido aqui; até mesmo os fiscais, quando pedem para a gente sair, vêm sempre dizendo que não é um problema individual, mas estrutural”.
 
Os amigos lembram-se de uma única vez em que houve uma situação diferente durante as cantorias: “A gente estava cantando uma música que tem uma parte que é ‘Deixe que diga, que pense, que fale’”, conta Khalil. No fundo do ônibus, a dupla não percebeu que um homem estava insatisfeito com a cantoria. Em seguida, era a vez daquele trecho da canção. “A galera entendeu como se fosse uma resposta a ele e começou a bater palma, mas eu nem sabia o que estava acontecendo”, diz, aos risos.
 
UNINDO O ÚTIL AO AGRADÁVEL – Um chapéu preto fica posicionado aos pés dos cantores durante o curto trajeto de um terminal ao outro da cidade. Khalil avisa que quem quiser, pode contribuir, mas que ganhar dinheiro em cima da arte não é a prioridade deles. “Não queremos invadir o espaço de ninguém”, explica Fernando.
 
Entre uma batida de samba e uma canção caipira, algumas moedas e notas são deixadas para os músicos, o que os ajuda nas finanças. Fernando revela que vive da arte; ele faz artesanato, canta em outros lugares e faz eventos. Já Khalil ainda vive com a mãe. “Comida e teto eu tenho, mas todo o resto vem através da arte”, diz.
 
Aos que gostam do que ouvem no Expresso e querem apreciar o talento da dupla fora do ônibus, a sugestão é encontrar o perfil dos jovens no Facebook. “Não tenho celular, nem computador, mas acesso o Facebook em um cybercafé”, explica. “Tenho a página ‘Casinha Ocitocina’”, atenta Fernando. Fazer um CD está nos planos dos amigos. Ele tem a mente aberta para diversas formas de arte e espera a chance de incorporá-las ao seu futuro. Já Khalil, sorridente, é decidido: “Tenho que ser músico, senão não vou ser feliz”.
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