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<< REGIÃO Legado das Águas abre as portas para o encantamento A três horas de Sorocaba, reserva privada de Mata Atlântica encanta visitantes

Publicada em 22/09/2017 às 18:01
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(Foto: Bruna Camargo)
ECOTURISMO
 
Três minutos são o suficiente para que o ouvido deixe de lado o costumeiro zumbido da cidade grande e se acostume aos sons da natureza. Três minutos contemplando o Sol baixando no horizonte, diante de uma imensidão do verde vivo da Mata Atlântica e da água limpa do rio Juquiá. Três minutos e o turista transporta-se para outro mundo. Apenas três minutos de silêncio, solicitados após um dia de aventuras, e o Legado das Águas consegue mostrar a que veio.
 
Prestes a completar um século de atividades, o Grupo Votorantim já via a necessidade de água para suas usinas hidrelétricas há 50 anos, quando assumiu a proteção do espaço localizado no Vale do Ribeira; sete das 32 usinas do grupo estão ali. Em 2012, através de um protocolo assinado em parceria com o Governo de São Paulo, a área de 31 mil hectares entre os municípios de Juquiá, Miracatu e Tapiraí, ao sul do Estado, tornou-se a maior reserva privada de Mata Atlântica para o desenvolvimento sustentável do País.
 
Administrado pela Reservas Votorantim, o Legado das Águas é um dos ativos da empresa centenária, assim como o Legado Verdes do Cerrado, em Goiás, criado neste ano. A proposta da imensidão de Mata Atlântica não é ser um parque aberto; a gestão trabalha para combinar a proteção ambiental com a possibilidade de utilização de recursos naturais de maneira sustentável, com geração de renda, valor compartilhado e desenvolvido das comunidades locais.
 
Assim, para não se restringir a pesquisadores e estudiosos, o Legado das Águas, agora, se abre para o público, de modo contido e organizado, para que todos tenham a chance de conhecer o patrimônio natural do Grupo Votorantim. Com pequenos grupos de turistas previamente agendados e com o apoio de empresas parceiras com know-how para operacionalização, a reserva, é uma nova ótima opção de ecoturismo na região.
 
O CAMINHO PARA O ENCANTAMENTO - O caminho para esse encantamento não é tão fácil. São quase três horas de percurso de Sorocaba até a base do Legado; cerca de uma hora na SP-79 até Tapiraí e mais duas horas e meia de estrada de terra mata adentro. Mas, após o carro chacoalhar pelas subidas e descidas, a vista que se tem do alto do morro faz tudo valer a pena.
 
A base oferece alojamento, refeitório e auditório para os visitantes que pernoitam ou chegam para grupos de estudos e pesquisas. O local aproveitou e melhorou a estrutura já existente por conta de uma vila de moradores que ali trabalham. A partir disso, as atividades planejadas de ecoturismo passaram a ser desenvolvidas no entorno.
 
Uma dica: o sinal de celular não pega. Câmeras fotográficas são essenciais para quem quer materializar as memórias ali adquiridas, mas o aparelho de telefonia é dispensável por não ser útil no local e por ser apenas um lembrete da vida real que tanto traz preocupações e correrias. A reserva é perfeita justamente para quem busca desacelerar!
 
 
Atrações trabalham com exaltação do nativo
 
Um ponto insistentemente questionado pelo Legado das Águas é: por que as pessoas mantêm o fascínio por espécies exóticas sendo que há uma beleza tão vasta na fauna e na flora nativas?
 
Pensando nisso, desenvolveu-se um trabalho para preservar e recuperar plantas nativas da Mata Atlântica, além de explorar o potencial paisagista sustentável. O Viveiro do Legado foi implantado há um ano; dois funcionários fazem coleta, armazenamento, germinação, limpeza e estaquia de sementes e mudas encontradas na natureza, sem recorrer à extração direta.
 
Uma ampla estufa com bancos de areia guarda diversos exemplares de plantas. O objetivo é utilizá-las para fins de restauração florestal, enriquecimento genético e fins ornamentais. Observa-se uma capacidade produtiva de até 200 mil mudas por ano. “A ideia é mudar a mentalidade do exótico para o nativo”, frisa o analista de recursos naturais e pesquisas do Legado das Águas, Thiago Niconiello.
 
Um orquidário também foi aberto em 2016 e nele o casal de pesquisadores independentes Luciano Zandoná e Angelica Guidoni Maragni pode desenvolver uma coleção viva de orquídeas. “São plantas epífitas, ou seja, usam a árvore como suporte”, explica Zandoná. “A orquídea faz fotossíntese, ela não é parasita, não tira nada que não lhe seja dado; absorve o adubo natural que escorre com a água”.
 
O pesquisador acredita que aumentar a presença de plantas nativas no mercado criará uma competição mais justa com as plantas exóticas. “A primeira missão é revelar as espécies. H muita coisa diferente do que imaginamos”, afirma. “Então, vamos selecionar algumas espécies presentes no Legado para propagar”, antecipa.
 
Um dos assuntos levantados por Zandoná é o tráfico de orquídeas. Ele não condena a prática, pois sabe que há muitos fatores sociais envolvidos. “É preciso capacitar os ex-coletores ilegais para que cultivem as plantas de forma sustentável”, observa. “A gente sabe que só fiscalização e opressão não funcionam”.
 
Já para os amantes de orquídeas, o pesquisador sugere que o cuidador dedique-se à nutrição correta da planta, mas não com exagero: “A gente cultiva plantas para ter o prazer de ver as flores, não para ficar escravo”, diz.
 
EM BUSCA DAS ANTAS – Em uma área tão grande de preservação ambiental, trilhas de caminhada não poderiam faltar. E a Trilha do Cambuci foi aberta justamente para atender a essa demanda. O cambuci é um fruto adorado pelas antas, que existem nos arredores da reserva do Legado. Armadilhas fotográficas espalhadas pelo caminho já registraram, principalmente no período noturno, não só antas, como onças pardas, muriquis e serpentes.
 
Durante o dia, a chance de avistar os animais diminui. Logo, a trilha é tranquila; o que não exclui a proteção, feita através de perneiras de couro colocadas em volta da panturrilha para proteger contra possíveis picadas. As largas copas de árvores sombreiam a trilha de terra e pedras e, em cerca de quarenta minutos de andança, diversas espécies de flora podem ser identificadas. Pássaros e borboletas acompanham os grupos e logo, quando o barulho da água corrente chega aos ouvidos, chega-se ao fim.
 
NO MEIO DO JUQUIÁ – Para quem está acostumado ao trânsito dos centros urbanos, com poluição sonora e visual, estar sob a superfície das águas limpas do rio Juquiá é um tanto quanto diferente. 
 
A parceria com a Canoar garante segurança para a atividade. Antes da aventura, instrutores orientam sobre o uso do colete salva-vidas e dos remos da canoa. Em duplas ou sozinhos, os turistas, mesmo que sem experiência nenhuma, podem iniciar um percurso de até quatro quilômetros rio abaixo.
 
O primeiro momento é de adaptação ao momento. Uma vez em sincronia com a água, é tempo de observar a paisagem. Leva cerca de uma hora de remadas até chegar à Praia das Pedras, um pequeno trecho no qual é possível parar para um descanso. E é ali que os três minutos são mais preciosos: de olhos abertos ou fechados, o turista realmente sente a natureza. O corpo arrepia com o som das aves ao redor – que sim, percebe-se serem diferentes conforme as espécies; os olhos marejam ao observar o céu azul e o coração pára por um instante, porque, por mais apegada ao urbano que a pessoa seja, a vontade é de ficar ali para sempre e sentir aquela paz.
 
Como diz uma das tantas placas com frases inspiradoras e criativas presentes na área que compõe o Legado das Águas, “Aqui, quem manda é a natureza. A gente obedece”!
 
Para conhecer os pacotes oferecidos pelo Legado das Águas, basta acessar o site www.legadodasaguas.com.br, enviar um e-mail para contato@legadodasaguas.com.br ou ainda ligar para (13)99108.4057. Imagens e informações sobre a reserva também podem ser encontradas nas páginas do Facebook e do Instagram.
 
A observação de aves é feita em parceria com a Sustentar; a canoagem, com a Canoar; e as trilhas de bicicleta, com a Velo Vert. Grupos de pesquisa e de estudo, assim como grupos de escolas e de turistas são bem-vindos mediante agendamento prévio.
 
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