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<< SOROCABA Associação busca manter viva memória ferroviária Locomotiva 58 pode tornar-se trem turístico interligando Sorocaba e Votorantim

Publicada em 01/09/2017 às 19:28
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(Foto: Divulgação)
AMOR PELOS TRENS
 
O apito estridente, o som da maquinaria tomando fôlego e a fumaça escapulindo por todos os lados deixou o dia 15 de agosto de 2017 marcado afetivamente na memória dos sorocabanos. Para quem se dispôs a presenciar o funcionamento da Locomotiva 58 durante as celebrações do 363º aniversário de fundação da cidade, o espírito ferroviário com o qual os sorocabanos tradicionalmente relacionam-se estava vivo novamente. “No trecho que a locomotiva percorreu, entre a Estação Paula Souza e a altura da antiga Fábrica Santa Maria, em Vila Hortência, a gente viu pessoas acenando nas janelas, manifestando euforia por ver aquilo funcionando. Uma aglomeração no Centro e parte do Além-Ponte saudando a locomotiva”, comemora o vice-presidente da Associação Movimento de Preservação Ferroviária do Trecho Sorocabana (MPF-Sorocabana), o jornalista Eric Mantuan, que ajudou a tornar a exibição possível.
 
A MPF-Sorocabana é uma organização sem fins lucrativos, idealizada, em 2014, por um grupo de pesquisadores ferroviários de diferentes gerações. “Preocupamo-nos com o desmonte da ferrovia, que vem acontecendo desde 1999 como reflexo do processo de privatização e da extinção da antiga Fepasa”, conta Mantuan, referindo-se à Ferrovia Paulista S/A.
 
O receio da Associação também está com a perda da memória material e histórica das locomotivas e carros de passageiros e de carga. “Estavam sendo encaminhados para leilões como sucata”, diz Mantuan. “Poderiam ser expostos em museus e até ser utilizados em projetos de trens turísticos”.
 
Diante disso, os pesquisadores e amantes ferroviários entenderam que, para começar a buscar uma solução, seria necessário criar uma entidade dentro da legislação do Terceiro Setor.
 
LOCOMOTIVA 58 – A Maria Fumaça que conquistou corações há algumas semanas, durante as comemorações do Dia da Cidade, sempre esteve na Estação Paula Souza, o quilômetro zero da antiga Estrada de Ferro Sorocaba-Votorantim, segundo o vice-presidente da MPF-Sorocabana.
 
A aquisição da locomotiva foi resultado de um convênio da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura com a União, responsável pelo patrimônio da antiga Fepasa; durante o Governo Crespo, o diálogo foi de incentivo. “No momento, tinha a prioridade de implantar o trem turístico”, comenta Mantuan. “A sensibilização do Poder Público veio somar ao interesse da Associação em colaborar”.
 
A equipe de associados da ONG se propôs, então, a fazer a revisão hidráulica, consertar vazamentos e os mancais das rodas, fazer a lubrificação e trocar algumas peças que, pelo desgaste, estavam condenadas. Já a Secretaria de Cultura e Turismo do Município contratou um teste de caldeira para regularizar o trabalho da locomotiva.
 
O esforço possibilitou na exibição da 58 no aniversário da cidade, em que o percurso de um quilômetro foi feito em meio à êxtase do público. “Uma adesão plena”, define Mantuan. “A gente recebeu até telefonemas de ferroviários emocionados; alguns inclusive choraram de felicidade”.
 
TREM TURÍSTICO – A ideia é levar adiante a parceria da Associação Movimento de Preservação Ferroviária do Trecho Sorocabana com as prefeituras de Sorocaba e de Votorantim para que a Locomotiva 58 volte a funcionar como um trem turístico que interligue os dois municípios. “O mais difícil a gente já conseguiu, que é unir todos os partícipes necessários para concretizar uma ação dessas”, brinca Mantuan. “Agora, é uma questão de execução; o interesse e a proatividade dos envolvidos já foi obtido”, pontua.
 
Para o pesquisador, aliás, a comunidade sorocabana tem uma ligação muito forte com a ferrovia, que data de mais de 130 anos. Após manter quase 5 mil funcionários, a antiga Estrada de Ferro Sorocabana deixou descendentes que têm origem nos trilhos. “Isso só reforça o desejo de poder contar com essa atividade turística, de estar mais perto do trem”, afirma Mantuan. “É um costume que, infelizmente, vem se perdendo. A gente pretende resgatá-lo e devolver ao sorocabano o direito de poder andar de trem”, acrescenta categórico.
 
 
Projetos dependem de captação de recursos
 
A MPF-Sorocabana já conseguiu retorno positivo para a captação de recursos para o restauro do carro de passageiros que vai ser utilizado como futuro trem turístico no trecho ferroviário Sorocaba-Votorantim, segundo o vice-presidente da Associação Movimento de Preservação Ferroviária do Trecho Sorocabana (MPF-Sorocabana), Eric Mantuan. A capitalização é possível através de leis de incentivo, do projeto já avançado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), do Governo do Estado, e de patrocínios privados. “É um caminho executável, embora tenha suas dificuldades, porque ninguém sai distribuindo dinheiro”, analisa Mantuan. Um ponto favorável que ele vê, porém, é que o custo da implantação do trem turístico entre Sorocaba e Votorantim é baixíssimo, uma vez que a ferrovia existe. “Já é um passo enorme para poder transformar esse sonho antigo da população em realidade.
 
A parte do Poder Público é captar recursos através no Ministério do Turismo; se as duas cidades conseguirem o título de `Município de Interesse Turístico´, também há uma linha de financiamento disponível. A Lei Rouanet, o Fundo de Interesse Difuso (FID) e as emendas parlamentares de deputados também estão na perspectiva da MPF-Sorocabana. “O recurso existe, só é preciso ter um bom projeto profissional para acessá-lo”, diz Mantuan.
 
O ex-secretário de Cultura e Turismo da Prefeitura de Sorocaba, Werinton Kermes, colaborou com a Associação de Memória Ferroviária enquanto titular da Pasta e demonstrou entusiasmo com o engajamento da equipe. “É um projeto que vai além do passeio feito no aniversário da cidade”, afirma. “A avaliação que a MPF-Sorocabana passou não assustou do ponto de vista financeir”, reconhece Kermes, acreditando que o orçamento inicial, dividido entre os dois municípios envolvidos, seria viável; num segundo momento, seria necessária a busca por recursos federais, estaduais e da iniciativa privada. “O principal é que há um aliado muito forte. Não são só a Associação ou as prefeituras, mas a população de Sorocaba e de Votorantim. As decisões políticas são muito embasadas no desejo popular”, explica o ex-secretário. “É um apelo de sentimento e de resgate de origens, memórias e da nossa história”.
 
Apesar do forte apelo cultural. Kermes também frisa o apelo econômico que o trem turístico pode trazer para a cidade: “A Cultura está sempre em último na escala de orçamento, mas a questão ferroviária deixou todo mundo encantado. Quando a população entende, passa a respeitar e a fortalecer a Cultura”!
 
 
Museu a céu aberto é projeto em evolução
 
Em poucos anos de atividade, a MPF-Sorocabana garante já ter resultados animadores. “Conseguimos fazer alguns convênios com a União para receber material histórico, com o intuito de, numa etapa futura, criar um Centro de Memória Ferroviária por aqui”, explica o jornalista Eric Mantuan.
 
A instituição do Museu Ferroviário “Engenheiro Calixto de Paula Souza” deve oferecer a Sorocaba o maior museu ferroviário a céu aberto do Estado de São Paulo, de acordo Mantuan. “Se nós conseguirmos transportar todos os materiais que manifestamos interesse e que estamos negociando com a União, vamos ter 35 locomotivas, vagões e carros de passageiros, construídos entre 1925 e 1971”, antecipa ele.
 
A área para realização do projeto seria a da própria Estação Paula Souza, na rua Paula Souza, no Centro. Atualmente, ela encontra-se desativada e de propriedade do Grupo Votorantim. A MPF-Sorocabana tem apenas permissão de uso do pátio para estoque e conservação do material e evolução do projeto.
 
Duas locomotivas elétricas construídas em 1948, três a diesel, originárias dos anos 40 e 60, e dois carros de passageiros, um de aço-carbono e um de aço-inox, estão armazenados no local pela MPF-Sorocabana. Para mantê-las em boas condições, a entidade, que tem cerca de 35 integrantes, depende de associados e voluntários. “A gente deixa um convite para os ex-ferroviários e pessoas que tenham algum interesse na memória ferroviária. Serão muito bem-vindos”, garante Mantuan.
 
PARA CONHECER MELHOR – Enquanto o museu da MPF-Sorocabana não sai do papel, há outras formas para os amantes e aficcionados por trens fazer parte da preservação da memória ferroviária em Sorocaba. A Estação Paula Souza não é aberta à visitação do público, mas através de contato com a equipe da Associação uma visita por agendamento é possível. O site www.mpfsorocabana.org.br e a página do Facebook “Sorocabana – Movimento de Preservação Ferroviária” são os meios de comunicação oferecidos. “O sorocabano ficou privado dessa locomotiva, a Maria Fumaça 58, por quatro anos e a gente carrega hoje a importância de devolver isso à comunidade”, conclui Eric Mantuan.
 
 
 
 
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