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<< CULTURA Marcos Maldonado segue como letrista notável As histórias de Tex Willer consagraram o sorocabano no Brasil e na Europa

Publicada em 04/08/2017 às 17:55
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(Foto: Germano Schonfelder)
MESTRE DOS QUADRINHOS
 
As paredes repletas de pinturas na aconchegante residência do Jardim Saira não deixam dúvida sobre a veia artística da Família Maldonado. No escritório, uma coleção de histórias em quadrinhos lota o armário e remete a uma vida dedicada às letras. Em meio a enfeites do Palmeiras, time do coração, presentes de admiradores, comprovam a competência e carinho pelo trabalho de décadas do letrista Marcos Maldonado, 77 anos. “Tenho um pouco de história”, divaga, com um sorriso gerado pelas lembranças da carreira.
 
Nascido e criado em um sítio no bairro de Aparecidinha, Maldonado estudou para ser mecânico, atuando na área por cerca de 10 anos. Lembra-se, com saudade, de quando o falecido irmão Antônio deu-lhe a oportunidade que o faria encontrar sua direção na vida: “Como a minha caligrafia técnica era boa, ele me aconselhou a praticar para fazer letrinhas no gibi”, relembra.
 
"Fazer letrinhas no gibi" equivale à carreira de letrista, pela qual as editoras contratavam funcionários para escrever dentro dos balões de fala dos personagens. “Meu irmão me deu dicas de como fazer. Fui pegando revistas já editadas e copiando, letra por letra”, explica. Depois de certo tempo, Antônio, que era artista plástico e letrista da Editora Abril, viu o talento e esforço do irmão e o ajudou a conseguir trabalho em editoras menores.
 
“Começaram a mandar histórias e eu fui letreirando. No começo da década de 70, haviam muitos títulos e meu nome foi ficando cada vez mais conhecido”, lembra Maldonado. A esposa Dolores mantinha a mesma ocupação e, juntos, os dois evoluíram e aperfeiçoaram o trabalho a ponto de Antônio indicá-lo para uma vaga na renomada Editora Abril. Por dois anos, Marcos Maldonado teve, então, a oportunidade de trabalhar com grandes títulos de super-heróis e personagens da Disney. No entanto, a abordagem de outras editoras fez com que ele vislumbrasse uma profissão mais independente, não precisando ter vínculo empregatício em um único lugar. Logo, prestava serviços não só para a Abril, mas para diversas outras editoras que admiravam suas letras.
 
PERCALÇOS COM TEX WILLER – A decisão foi um ponto de virada na vida profissional e pessoal de Marcos Maldonado. Em 1980, foi procurado pela extinta Editora Vecchi, do Rio de Janeiro, para escrever nos balões de um personagem italiano de faroeste. “O Tex foi criado em 1948 e veio para o Brasil na década de 70”, diz o letrista. Produzido até hoje pela Editora Bonelli, as revistas de Tex Willer pararam de circular com o fechamento da Vecchi, o que fez Maldonado distanciar-se do justiceiro que ainda cruzaria sua trajetória. “Então, eu trabalhei com a Editora Noblet por muitos anos, com as histórias de Akim, Carabina Slim e Espoleta”.
 
Depois de certo tempo, a Editora Mythos, que terceirizava trabalhos, chamou Maldonado para a volta da publicação de Tex Willer no Brasil, através da Editora Globo. O letrista, porém, logo soube que a circulação seria interrompida novamente. “O editor da Mythos, Dorival Vitor Lopes, decidiu ir para a Itália conversar e comprou os direitos autorais do personagem. Assim, eu voltei e continuo até hoje”, comemora.
 
COLHENDO FRUTOS – Em quase 50 anos trabalhando com histórias em quadrinhos, Maldonado diz que pouca gente sabe o que ele faz, mesmo amigos próximos. “Às vezes, passo por aí, vejo uma pessoa lendo Tex e ela nem imagina que participo daquela revista”, brinca.
 
Mas há muitos admiradores mundo afora. A revista editada no Brasil chega a Portugal e, com seu nome nos créditos, gera interesse de quem acompanha as aventuras do faroeste. “Tex tem muitos colecionadores e aficionados, daqueles que não veem a hora de a revista sair na banca para comprar”.
 
Tamanho é o sucesso de Tex em terras lusitanas que, em 2010, sua esposa e ele foram convidados para um festival na cidade de Beja, região do Alentejo. “Fomos muito bem recebidos. O pessoal tirou fotos com a gente e pediu para assinar as revistas”, lembra com carinho. Até o maior colecionador de Tex, o blogueiro português José Carlos Francisco, criou laços de amizade com o letrista e chegou a vir visitá-lo em Sorocaba posteriormente.
 
“Não divulgo muito meu trabalho porque, para quem faz, parece uma coisa normal”, observa Maldonado. O reconhecimento vem com situações como quando o desenhista italiano de Tex, Civitelli, veio ao Brasil e admirou-se com suas letras: “Ele faz um trabalho tão perfeito, tão bonito, e achou interessante o meu”, desacredita, aos risos.
 
O talento do letrista também levou ao título de “Mestre dos Quadrinhos” através do 29° Prêmio “Angelo Agostini”, entregue diante de um auditório lotado no Memorial da América Latina, em São Paulo. “Eu nem sabia que estava concorrendo! Mas o público escolheu por votação”.
 
Maldonado comenta que o que vê de mais atrativo no personagem que o consagrou como letrista é o fato de Tex ser um justiceiro. “A história que eu mais gosto é ‘El Muerto’, que a maioria dos colecionadores acha que foi a melhor”, revela.
 
Apesar de considerar sua entrada no mundo dos quadrinhos uma casualidade, Maldonado não consegue se imaginar em outra profissão se não a de letrista: “O Tex é um personagem ao qual devo muito e tenho prazer de fazer. Trouxe muita coisa boa para a gente”, emociona-se.
 
No dia 15 de novembro, Maldonado e sua esposa Dolores preparam-se para mais um festival, mas agora no Brasil: o IV Encontro Nacional do Clube Tex e Zagor será em Belo Horizonte, Minas Gerais, e o letrista está animado.
 
OUTRAS EXPERIÊNCIAS – As histórias em quadrinhos não foram a única área artística explorada por Marcos Maldonado. O teatro também passou pela vida do letrista. Ainda na década de 60, ele arriscou-se nas produções do Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo. “O Auto da Compadecida” e “Morto sem Sepultura” foram peças que o marcaram.
 
No período em que começou a letreirar, Maldonado também se envolveu com as fotonovelas italianas editadas pela Abril. “Quem montava essas fotonovelas era minha irmã, Ana. Meu irmão fazia as letras. Na época, tinha muita procura”, afirma.
 
As duas experiências levaram ele e a família a testarem a produção própria de fotonovelas. Com proposta aceita pelo jornalista Plácido Manaia Nunes, conhecido por ser o criador do Troféu Imprensa, mas que, na época, trabalhava na Revista Melodia, a Família Maldonado assumiu atuação, direção, fotografia e tudo o que era necessário para produzir uma fotonovela.
 
A empreitada durou um ano e, com o retorno aos quadrinhos, o caminho nunca mais sofreu um desvio.
 
 
Da mão para o mouse: a adaptação ao digital
 
A história de um letrista começa com muita dedicação à caligrafia. Porém, no início dos anos 2000, os profissionais tiveram de deixar o nanquim de lado para encararem um novo desafio: a transição para o uso do computador na produção das histórias.
 
Marcos Maldonado lembra que, antes, era um processo absolutamente manual. “Os originais vinham em italiano. Minha esposa fazia a montagem; recortava papel couchê e colava em cima do texto para ficar branco”, explica. “O tradutor Paulo Guanaes mandava o texto por Correio do Rio de Janeiro. Ele anotava o número dos balões e das páginas. E eu escrevia”.
 
Com uma caneta Rotring e um nanquim Talens, produtos que Maldonado considera de melhor qualidade para o trabalho, fazia uma média de 12 a 15 páginas de revista por dia. “Dependia muito; se uma história tinha muito texto, era mais demorado”, comenta. Ao fim do mês, o letrista costumava entregar mais de 400 páginas para editoras diversas. “Eles tinham dificuldade de conseguir profissional, então a gente era bem procurada”.
 
Em 2007, o editor da Mythos, Dorival Vitor Lopes, que já mantinha amizade familiar com Maldonado, precisou intimá-lo. “Todos da editora já usavam o computador, só eu fazia à mão; a despesa era maior. Mas eu não conhecia nada de computador, não sabia nem ligar”, admite.
 
Com ajuda do filho César e da letrista Gisele, de São Roque, que o admirava, Maldonado encarou o desafio de absorver uma nova realidade de trabalho. Botões, ‘mouse’, atalhos e comandos dominados até que os programas do Pacote Adobe entraram de vez na vida do letrista. “Hoje sou considerado o letrista mais rápido da editora para fazer no computador”, comemora.
 
A relação com o computador é amigável e, hoje, Maldonado consegue produzir cerca de 110 páginas por semana. Outras coisas mudaram; o texto traduzido chega por e-mail e ele não digita mais nada, apenas ordena os balões. “A história em quadrinhos é uma arte do desenhista e a letra à mão completava essa arte. 
Perdeu um pouco do artístico, mas agilizou bastante”, observa.
 
A idade avançada e perda de prática impedem o letrista de considerar voltar ao trabalho manual. No entanto, sempre que vai escrever um texto, recado ou cartão, recorre às letras que utilizava nos quadrinhos: “É mais bonito”, reflete, com saudosismo.
 
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