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Diário de Sorocaba

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Publicada em 10/07/2017 às 12:14
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A atividade de youtuber ajuda na divulgação do show de stand up de Daniel Murillo
FEBRE NA INTERNET
 
As cidades do entorno de Sorocaba já revelaram youtubers que, atualmente, são bastante conhecidos na Internet. Em uma longa lista de canais de todos os tamanhos, alguns destacam-se pelo humor e persistência. Os donos dos canais “Daniel Murillo Show”, “Mas é o Cúmulo” e “Ander Jackson” contam qual foi o caminho percorrido até milhares de visualizações e curtidas na plataforma de vídeos YouTube.
 
O RAPAZ DO ‘CASTELE’ – “Toda vez que eu ia no shopping, ouvia alguém gritando ‘castele’”, conta o comediante votorantinense Daniel Murillo, 26 anos, que ganhou destaque quando seu vídeo “Minha Cidade” viralizou nas redes sociais, em 2015. Hoje, o canal “Daniel Murillo Show” tem mais de 6 mil inscritos e 400 mil visualizações.
 
O primeiro vídeo foi postado no YouTube há cerca de dois anos para tentar alcançar um público ao qual Daniel não chegava com suas apresentações de stand-up. “Tinha algumas piadas para além do palco. Lógico que o excesso de tempo livre também ajudou”, brinca.
 
Com alguns equipamentos emprestados até comprar os próprios, conseguiu produzir conteúdo original. “Fiz várias tags, mais para parodiar esse formato”, explica Daniel, referindo-se aos vídeos que se tornam correntes com temas repetidos por vários youtubers. O vídeo “Minha Cidade” é um exemplo de tag, no qual ele revela as gírias de Sorocaba, como `castele´, `quaiar o bico´, `porva´ e `xé´. “Fiz porque eram umas piadas que fazia no meu stand up e não iria utilizar mais; então, resolvi registrar. Minha expectativa era alcançar 30 mil visualizações em um mês e teve 100 mil em uma semana”, conta. “Foi muito incrível. porque o pessoal gostou e se identificou”.
 
O comediante utiliza a plataforma do YouTube como uma forma de aumentar a audiência de seu stand up. “Como a Internet é a nova TV, é o meio principal que qualquer artista tem para se divulgar”, afirma. “Curto mesmo é o show ao vivo; ver as pessoas, ouvir as risadas. Isso vale mais que um vídeo viral”.
 
O canal, no entanto, não será deixado de lado. Há algum tempo sem postar vídeos, Daniel esclarece que 2017 mudou sua vida e resultou na falta de tempo, mas que voltará à ativa em julho, com duas publicações semanais e exibição de trechos dos seus shows. “Vou usar outros formatos para fazer outras ideias de piadas”, diz o comediante, contando assistir todos os tipos de youtubers para ganhar referência e acredita que pode ganhar espaço em meio a tantas produções. “Na Internet, em geral tem público para tudo. Um bom canal precisa ter um bom conteúdo e saber se divulgar para atingir esse público”, pontifica.
 
ACERTO NA SEGUNDA TENTATIVA – Quem vê os quase 100 mil inscritos no canal de Abner Wesley, 17 anos, não imagina que, em 2011, o morador da Vila Olímpia, em Sorocaba, já havia tentando o sucesso com o grupo de amigos. Desde os 10 anos de idade, o estudante divertia-se fazendo apresentações na escola através de vídeos. “A gente gravava sobre o tema que o professor pedia, editava e mandava para ele; a sala inteira dava risada”, conta Abner. 
 
Logo, o caminho para o YouTube foi natural. “Éramos viciado em youtubers da época. A gente se reuniu e gravou alguns vídeos, mas a ideia foi cancelada logo em seguida, porque era muito ruim”, lembra. Hoje, seu canal “Mas é o Cúmulo” já tem mais de 2 milhões de visualizações e ganha novos seguidores todos os dias.
 
Com a decisão de voltar a gravar sozinho, em meados de 2015 Abner teve de escolher um nome para a nova empreitada no YouTube: “Eu não queria dar o meu nome para o canal. Acho que ‘Abner’ é muito difícil de ser lembrado – apesar de existir o Whindersson Nunes”, brinca. “Então, peguei um gibi da Turma da Mônica e um dos títulos da história era ‘mas é o cúmulo’, expressão que eu gostava muito de usar”.
 
O retorno veio primeiro dos amigos. “Recebi muitos elogios na escola. É claro que tem aquelas pessoas que, por trás, falam mal, porém nunca levei isso como algo ruim, mas uma crítica para melhorar”, garante Abner.
 
Já a família viu com outros olhos. As conversas refletiam a preocupação com os estudos e como a vida na Internet poderia interferir nos mesmos. “Os planos deles para mim eram outros”, conta. A situação mudou após os parentes observarem os resultados positivos.
 
Abner afirma ainda ter entrado no YouTube no momento em que o tipo de vídeos que fazia estava em alta, o que o ajudou a ganhar atenção. Sua preparação envolveu inspirar-se nos youtubers já conhecidos, como Júlio Cocielo, Felipistando, Carolinne Silver e Mítico Jovem, e assistir outros canais. “Na verdade, observei tudo que não deveria fazer”, admite, rindo.
 
A Internet oferece uma carreira promissora para o jovem, que se empenha em fazer sua visibilidade crescer. “Tenho um planejamento de postar, pelo menos, dois vídeos semanalmente, pois assim você não cai no esquecimento”, explica. “Saber a opinião do público também é muito importante, por isso sempre peço”.
 
O segredo de um bom canal, conta Abner, é conseguir cumprir o objetivo do seu conteúdo. “Se for de comédia e ele tirar um sorriso das pessoas, aquele canal é bom”, exemplifica. “Na verdade, faço o conteúdo que eu gostaria de assistir”.
O público do “Mas é o Cúmulo” tem ficado satisfeito e passou a reconhecê-lo; Abner costuma ver meninas olhando e cochichando quando passeia. “Tiram fotos minhas pensando que não estou vendo”, ri. “Da última vez, o flash do celular estava ligado. A menina ficou toda sem graça”.
 
Para o futuro, o jovem tem planos de investir em uma marca para atingir as pessoas que não acompanham a Internet. “Pretendo levar (o YouTube) como profissão inicial para poder investir em outros meios depois”.
 
DAS BRINCADEIRAS PARA AS PARÓDIAS – O canal é recente, o número de seguidores ainda não é tão alto e poucos vídeos foram postados. No entanto, o agendador de serviços Ander Jackson, 22 anos, está com todo o gás e empolgação para ganhar seu espaço como youtuber. “Sempre postei vídeos no Instagram ou nas histórias do Snapchat. Veio a ideia de postar no Facebook e, para acompanhar o ritmo, cheguei até o YouTube”, explica. 
 
Com o celular que lhe oferecia boa qualidade de vídeo e conhecimentos de edição, decidiu se arriscar. Morador do bairro Wanel Ville 3, em Sorocaba, Ander é conhecido por ser naturalmente engraçado, mas ficou confuso no início das gravações: “Não sabia o que falar e nem como fazer”, revela. “Mas devemos ser nós mesmos e me inspirei em como minha vida estava na época, com muita gente falando das redes sociais das pessoas”.
 
Após alguns vídeos em que conversa com a câmera de modo espontâneo e cômico, Ander passou a publicar paródias musicais no canal que leva seu nome: “Escutando músicas normais, sempre acabava fazendo uma paródia de brincadeira. Decidi compartilhar com a galera que me segue”.
 
“Despacito” tornou-se “Tô póbrito”, “Bad Liar” ficou “Me trai” e “Shape of You” virou “Eu odeio meu cabelo ruim”. O jovem escreve a letra, busca a versão instrumental da música e grava sua versão; o processo leva cerca de dois dias. O investimento financeiro fica entre R$ 30 e R$ 40 para impulsionar os vídeos no Facebook. “Ultimamente, tem saído mais paródia para aproveitar o público das músicas novas”, explica.
 
Para Ander, ser autêntico é essencial na Internet. “Tentar ser outra pessoa não vai gerar um bom resultado”, comenta. Com pretensão de seguir a profissão de youtuber, ele tem objetivos claros em mente: “Sem meta, seria como andar em círculos sem saber para onde ir; é importante tanto para a vida pessoal quanto para a profissional”.
 
 
Internautas devem buscar conhecimento
 
Os youtubers surgiram logo que a população percebeu que poderia utilizar a plataforma de vídeos como ferramenta para estar do outro lado e criar informações, de acordo com a doutoranda em Multimeios pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e mestre em Comunicação e Cultura pela Uniso (Universidade de Sorocaba), Thífani Postali. “A gente conversa com os mais jovens e pergunta ‘o que você vai ser quando crescer?’, e eles dizem ‘youtuber’”, afirma.
 
Para Thífani, a possibilidade de estar em vídeos democratizou a comunicação. “Não é só através dos filtros da grande mídia”, explica. “Pela primeira vez, não só pelo YouTube, mas pelas redes sociais, as pessoas podem se posicionar, podem falar”.
 
Como tudo tem os lados positivo e negativo, tal liberdade implica no cuidado do produtor e também do receptor da informação: “A gente vê muitos youtubers falando o que querem, sem propriedade. Isso acaba sendo um problema, porque as pessoas confiam nessa imagem, que Edgar Morin chama de ‘star system’”.
 
O público deve, então, ter em mente que youtubers são, em maioria, pessoas comuns, dando opiniões pessoais sobre determinados assuntos.
 
Thífani acha o YouTube uma boa oportunidade para que criadores de conteúdo tenham espaço para mostrarem seus trabalhos. “O que é diferente daqueles que falam ‘vou abrir um canal, mas ainda não sei o que fazer’”, exemplifica.
 
A pesquisadora ainda repudia a postura de alguns canais. “Quando a gente pega uma pessoa que tem milhões de seguidores no YouTube e ela fala que tal dieta resolve sua vida em um mês, é problemático, porque você se torna um influenciador”, pontua. “A pessoa insere e retira significados das coisas. O que eu critico é a não medida sobre o que falar e como falar”.
 
A cultura do brasileiro em ter credibilidade cega na grande mídia complica a situação, segundo Thífani. “Por anos, nós nos deixamos levar por aquilo que a gente via na tela da TV. Quando a gente passa para a tela da Internet, continua acreditando”, observa. “Estamos num momento de aprender; ainda somos analfabetos digitais”.
 
COMUNICAÇÃO – Thífani defende que o momento é de diálogo e de estudos. “A chave para você não ser engolido por tantas opiniões é, justamente, buscar informações com profissionais, artigos, livros e matérias, para daí mensurar se aquilo é válido ou não e ter sua própria opinião”, afirma.
 
“A gente vai no básico e fecha com uma ideia vazia. A Internet depende muito mais da nossa atitude para investigar as coisas do que a TV, que dava tudo pronto”, diz a pesquisadora. “Depende muito da gente e nós não estamos preparados. Temos que falar mais sobre isso”.
 
PROFISSÃO – Cursos são dedicados à produção de vídeos para a Internet, enquanto o número de pessoas que criam canais continua aumentando. No entanto, Thífani acredita que o fenômeno não deve perdurar dessa maneira por tanto tempo. “Não sei o que vai acontecer, mas acredito que seja uma fase”, diz.
 
Para a pesquisadora, tratar youtuber como uma profissão é arriscado. “É uma coisa que você faz sem esse nome”, opina. “Você pode viver de um canal no YouTube, mas não é uma profissão”, reconhece.
 
Logo, Thífani acha válido que os usuários dessa ferramenta estejam buscando ir além da plataforma e espera que, para os que continuem fazendo vídeos, cuidados sejam tomados. “Espero que haja regulamentação!"
 
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