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<< SOROCABA Atrasos de repasses do Paço comprometem assistência a crianças no serviço de acolhimento Entidades precisam sobreviver apenas com doações e eventos beneficentes

Publicada em 08/03/2017 às 15:03
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(Foto: Fernando Rezende)
A Associação Bethel, que acolhe crianças e adolescentes retirados dos pais por ordem judicial, declara estar com problemas de equilíbrio financeiro desde que a Prefeitura passou a atrasar os repasses de verba. Instituições como a Casa do Menor, Casa Bela, Nossa Senhora das Graças, Vale da Bênção e Associação Refúgio estão com o mesmo problema.
 
“A gente simplesmente não recebe recurso”, afirma o diretor da Bethel e presidente do Conselho Municipal de Assistência, Heitor Beranger Júnior. “Eles dizem que não têm previsão e esperam o recolhimento do IPTU.”
 
As instituições que recebem os jovens têm direito à verba municipal, estadual e federal para continuarem os cuidados. Da Prefeitura, o valor mensal corresponde a R$ 22.265, de acordo com o diretor. “Eu falo em nome do Conselho que todas as entidades estão na angústia”, frisa.
 
Para a Bethel, tal quantia mal pode pagar a folha de funcionários da equipe de 17 pessoas, que dirá manter as 24 crianças por ela assistidas. “Todo mês está acontecendo atraso. Normalmente, o recurso entra até dia 20. O de janeiro entrou em 17 de fevereiro, quase um mês depois.”
 
Em contato com a Prefeitura, Beranger Júnior diz que eles afirmam não ter dinheiro. “O prefeito encontrou o caixa sem recursos e pretende regularizar, mas até lá muitas entidades já morreram. Com pagamento ou não, as contas estão chegando”, lamenta.
 
Todo o repasse dos governos municipal, estadual e federal prevê custo de R$ 1.639 com cada criança. Pelas contas do diretor, pelo menos R$ 3 mil seriam necessários para uma qualidade de vida decente, o equivalente ao que cidades como Campinas oferecem. “É um serviço de atendimento de alta complexidade. Oferecemos café da manhã, almoço, jantar, cuidadoras 24 horas e fraldas”, esclarece.
 
A Bethel ainda respira através de doações, cada vez mais escassas, e de eventos beneficentes. “Uma entidade referência no município e no Estado ter de sobreviver de bazar? Não dá para cuidar das crianças dessa forma”, insiste. “A população é solidária, mas o orçamento de todo mundo está muito comprometido.”
 
Os funcionários preocupam-se em receber e manter o atendimento às crianças, e Beranger Júnior acredita que isso compromete o serviço oferecido. “A ‘corda está puxando’ e parece que não tem mais onde se apoiar”, desabafa.
 
Apesar de não disponibilizar o dinheiro, os poderes Executivo e Judiciário esperam que as entidades ofereçam tratamento adequado. “Se a criança precisar ser protegida, a gente tem de acolher; mas eu tenho um número de vagas, porque mantenho a excelência no atendimento”, explica o diretor.
 
Crianças com deficiência ou necessidades específicas geram custo extra, mas nenhum apoio a mais é oferecido pelo poder público. Mesmo remédios acabam ficando sem compra por falta do produto em postos de saúde ou de dinheiro para compra.
 
“A nova lei do Marco Regulatório pede que tanto a entidade quanto o poder público tratem a situação em pé de igualdade. Mas a gente não tem nenhum mecanismo que faça com que o governo repasse o recurso regularmente”, conta Beranger Júnior.
 
O diretor não pretende pressionar o prefeito expondo as crianças e lamenta as críticas infundadas que recebe. “Muita gente fala que R$ 3 mil é muito para uma criança só, mas não vê todo o custo por trás. Se seu filho não custa isso, graças a Deus”, comenta.
 
A Prefeitura foi questionada a respeito dos atrasos no repasse, mas não se pronunciou até o fechamento desta edição.
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