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<< SOROCABA Projeto une mulheres assistidas pela Lei Maria da Penha Diretoria da Furiosa Real aguarda concessão de terreno para sede na Vila Hortência

Publicada em 08/03/2017 às 14:51
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DIA DA MULHER
 
Em 46 anos de vida, Ana Moraes dedicou 27 deles ao carnaval. A mulher não foge do estereótipo; tem paixão pela festa. Mas quando a Escola de Samba Furiosa Real pediu que ela fizesse parte da diretoria junto aos 12 outros membros, Ana teve um pedido, um projeto social que acolhesse e empoderasse mulheres.
 
“Comecei no dia da fundação da escola, em 2012”, conta. “Pedi que os diretores conseguissem o estatuto da ONG e me ajudassem com um projeto que ensinasse a costurar e bordar, como uma fábrica de carnaval.”
 
Única diretora ativa em meio a 10 homens, Ana insistia pelo lado social da escola de samba. “Não é só batuque, bebida e correr atrás de verba da Prefeitura”, rebate. “Estamos em uma comunidade carente da zona leste e as mulheres precisam de abrigo.”
 
O abrigo, segundo Ana, deve vir àquelas que não têm amparo dentro de casa; quem a procura foge de relacionamentos abusivos. “Eu também passei por isso”, revela. “As pessoas pensam que Lei Maria da Penha é para mulheres que apanham dentro de casa, mas não é só isso.”
 
Sem sede fixa, Ana ajuda cerca de 30 mulheres. Com o projeto, ensina a costurar, bordar e produzir fantasias com materiais reciclados, doados ou pagos pelos membros da Furiosa. “A ideia é se capacitar para, a partir dali, poder vender”, explica. “Queremos dar independência para elas”, frisa a diretora.
 
“Eu estava quase entrando em depressão”, declara uma das participantes do projeto, que preferiu não ter a identidade revelada. A mulher dorme em quarto separado do marido, mas não consegue sair de casa por não ter como sustentar a filha pequena.
 
Moradora da mesma rua em que Ana acolhe os casos, ela ficou sabendo e buscou ajuda. “A gente acha que não pode nada. Eu estava indo para o fundo do poço. Mas fui me interessando, animei-me e agora sei que posso.”
 
Kelly Candiani, 28 anos, também chegou por conhecer a escola de samba. “Vim pela folia e então conheci a Ana”, lembra. “Tive o azar de ter um namorado ciumento e possessivo, mas agora sou a favor da Lei Maria da Penha.”
 
O fortalecimento entre as mulheres é o ponto mais importante do projeto, na visão de Kelly. “Elas precisam ver que não estão sozinhas, que não precisam depender de homem e podem correr atrás de seus direitos”, enfatiza.
 
“Estou aprendendo este artesanato por prazer, pela alegria de fazer algo pelo outro. Não canso de admirar as fantasias que fazemos”, diz. Enquanto produzem as peças, as mulheres também trocam experiências e unem forças.
 
“Elas abraçam a causa. Acho que a humanidade está tão carente de um ajudar o outro que elas querem se ajudar”, explica Ana. “Elas pensam: ‘se eu melhorei, quero que ela melhore também’. E só de ver o sorriso delas e a autoestima recuperada, não há dinheiro que pague.”
 
A diretora tem muito orgulho das participantes que conseguem melhorar de vida através do apoio do projeto. “É a vida delas. Sim, tem jeito de melhorar. Temos de respeitar a mulher”, salienta. “A gente pensa que é fraca, mas, quando viramos o jogo, vemos a força que temos. Então, as mulheres têm de ‘arregaçar a manga’ e tomar atitude.”
 
Ao verem a força com a qual o projeto cresce, homens passaram a questionar Ana. Relatos de policiais e de moradores da comunidade mostram que eles também precisam de amparo. “Agora, temos de pensar neles também”, conclui.
 
CONCESSÃO – Para adequação das atividades da Furiosa Real e expansão do projeto social de Ana, a diretoria da escola aguarda concessão da Prefeitura de um terreno na Vila Hortência para construção de um barracão. “Começou com o ex-vereador Carlos Leite. Agora o próprio (prefeito) Crespo falou para o presidente da Liga para que as escolas procurassem um barracão que eles dariam a concessão”, afirma Ana.
 
A Furiosa, no entanto, segue persistente para conseguir o terreno. A construção poderia abrigar a expansão do projeto, que consiste em oferecer aulas de Inglês, Informática e Capoeira para as crianças da comunidade, enquanto as mães costuram. “Quando eu sentei com meus amigos para dar a ideia, diziam-me que era um sonho. Mas é um sonho que pode ser realizado”, insiste Ana.
 
Procurada, a Prefeitura não ofereceu resposta sobre a concessão até o fechamento desta edição.
 
DIREITO – A Lei 11.340, intitulada Lei Maria da Penha, foi sancionada em 7 de agosto de 2006. Entre as várias mudanças promovidas pela lei está o aumento no rigor das punições das agressões contra a mulher quando praticadas no âmbito doméstico ou familiar.
 
O nome da lei é uma homenagem a Maria da Penha Maia, que foi agredida pelo marido durante seis anos. Em 1983, por duas vezes, ele tentou assassiná-la; só foi punido depois de 19 anos e ficou preso apenas dois anos em regime fechado.
 
A lei altera o Código Penal Brasileiro e permite a prisão de agressores de mulheres em flagrante ou que tenham prisão preventiva decretada. Os agressores também não poderão mais ser punidos com penas alternativas. A legislação aumenta o tempo máximo de detenção previsto de um para três anos. A lei ainda prevê medidas como a saída do agressor do domicílio e a proibição de se aproximar da mulher agredida e dos filhos.
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