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Publicada em 20/02/2017 às 13:36
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(Foto: Fernando Rezende)
A Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso) e a Cooperativa de Reciclagem de Entulho (Corent) iniciam 2017 com a mesma sensação do encerramento de 2016, ou seja, sem perspectiva de melhora nas condições estruturais e sociais das instituições. As entidades reivindicam ações da Prefeitura para que haja aumento de maquinaria e melhoria nos benefícios aos cooperados.
 
“O que a gente mais espera do poder público é o reconhecimento pela prestação de serviço”, explica Patrícia de Sene, presidente da Coreso. “Se a gente não estivesse fazendo a coleta, a Prefeitura teria um gasto.”
 
A Coreso garante a coleta seletiva de materiais recicláveis em 53 bairros, na zona leste e em alguns pontos das zonas norte e oeste, com a sede localizada na Vila Colorau. Fundada há 17 anos e com 35 cooperados, faz separação e comercialização do que chega ao galpão, de segunda a sexta-feira.
 
“O material reciclável é um bem promotor do resgate da cidadania”, explica Patrícia. A presidente acredita que as cooperativas são uma porta de entrada para os desempregados. “Todo dia passa gente aqui atrás de trabalho.”
 
No entanto não pode acolher mais cooperados, uma vez que não há meio financeiro para tal. “Tudo é pago do nosso bolso; salário, transporte, água, energia, alimentação e impostos. Repassamos o que ganhamos com a comercialização”, esclarece. “O material reciclável é volumoso, mas o valor dele é baixo.”
 
Apesar do vasto campo de atuação, a precária estrutura impede ampliação do projeto. “Foram cortados três caminhões da Prefeitura e a esteira está quebrada”, conta. “Falta investimento na coleta seletiva.”
 
São recolhidos de seis a oito mil quilos por dia de reciclagem, com apenas dois caminhões prestadores de serviço em atuação. Desde 2005, há o trabalho porta a porta. “Eles passam gritando ‘coleta seletiva’ na zona leste”, diz Patrícia.
 
Segundo a presidente, as pessoas são muito conscientizadas em Sorocaba. “As pessoas sabem da importância da reciclagem e a gente agradece a doação de material”, comenta. A Coreso, porém, não tem condições estruturais para fazer um melhor atendimento.
 
Uma questão levantada por Patrícia é o assédio de empresas à Prefeitura pela coleta, mas não pela separação dos materiais. “A expansão tem de se dar com as cooperativas”, afirma. “Precisa ter inclusão dos catadores e acreditar na capacidade deles, que trabalham há anos de graça.”
 
O trabalho é moroso, mas com qualidade, de acordo com a presidente, que espera maior apoio da nova gestão pública nos próximos anos.
 
No bairro Iporanga, a portaria não permite a entrada da imprensa. “Tem muita coisa errada ali e eles querem esconder”, alega Alexandre de Melo, presidente da Corent. No local, também funciona a Coopereso, na qual ex-presidiários são reintegrados ao mercado de trabalho com apoio da Prefeitura.
 
Após o primeiro aterro no Jardim Santa Bárbara, a Corent foi fundada em 2006, mas regularizada apenas em 2009. “A Prefeitura começou a pressionar, porque, formando uma cooperativa, eles tiravam toda a responsabilidade deles”, aponta Melo, citando acidentes de trabalho como exemplo.
 
“Depois que a gente formalizou, nunca mais tivemos o apoio deles”, lamenta. “Disseram que ajudariam com uniforme, mas desde 2009 não recebemos nada, nenhum auxílio, apoio ou incentivo”, relata. “Parece que não reconhecem a importância para o meio ambiente.”
 
O trabalho é árduo. De segunda a sábado, das 7 às 17 horas, são separados cerca de 1,4 mil m³ de madeira, 240 m³ de sucata de ferro, 160 m³ de papelão, 80 m³ de apara, embalagens plásticas e PVC e 40 m³ de garrafas PET. “Debaixo de Sol, chuva e poeira”, acrescenta o presidente.
 
Melo, que faz o mesmo serviço que a equipe, conta que já ouviu desistências por conta da falta de equipamentos, o que exige mais da pessoa. “Teve um homem que trabalhou metade do dia e saiu falando que preferia roubar do que trabalhar lá”, lembra. “Quem trabalha lá dentro é porque precisa muito.”
 
Apenas uma pá carregadeira opera no local, quando a necessidade vista por Melo é de pelo menos três. “Tem dia que quebra e não tem como fazer trabalho braçal”, diz. O pagamento aos cooperados e as despesas são integralmente com o valor de comercialização do material. Logo, sem possibilidade de trabalho, não há dinheiro.
 
“Quando procuramos a Prefeitura, disseram: ‘Estamos cedendo o espaço, vocês querem mais o que?’”, ressalta o presidente. “Não temos banheiro, refeitório ou lugar para nos trocar. Antigamente, tinha banheiro químico, mas tiraram alegando que estava dando muita despesa.”
 
O maior problema visto por Melo é a falta de equipamentos. “É o que mais precisava para desenvolver um trabalho melhor”, frisa. Entre 250 e 300 caminhões fazem o descarte de material diariamente no aterro, mas os 16 cooperados não têm maquinaria adequada para trabalhar.
 
“A gente está retirando materiais de contaminação do solo e gerando renda”, declara Melo. “Estamos estendendo a vida útil do aterro. A previsão era de uso até 2012, mas já estamos em 2017.”
 
Os cooperados da Corent não têm autonomia no aterro. “Se colocamos barracos para almoçar ou proteger da chuva ou Sol, eles tiram tudo dizendo que está parecendo favela”, conta Melo.
 
Além das dificuldades com o poder público, a Corent lida com invasão de moradores de bairros próximos, que entram à noite para roubar material reciclável, e embriagados, que brigam com cooperados.
 
O presidente tem projetos para otimizar o trabalho no aterro, mas depende de organização e apoio estrutural da Prefeitura. “O trabalho que a gente faz é importantíssimo para a cidade. Pessoal eu tenho, mas falta agilidade.”
 
A respeito das invasões no aterro, a Prefeitura não esclareceu até o fechamento desta edição.
 
AMPLIAÇÃO – A Secretaria de Conservação, Serviços e Obras informa, em nota, que estuda um novo modelo para a coleta seletiva na cidade, visando à ampliação do serviço.
 
“As cooperativas estarão certamente neste contexto e serão fortalecidas com este novo modelo, o que poderá proporcionar maior dignidade aos seus cooperados.” Os locais estão sendo visitados por novos gestores para verificação de sua estrutura, recursos disponíveis e suas necessidades.
 
Uma análise contratual também está em curso. “É de extrema importância que a atual gestão tome total conhecimento do plano de coleta seletiva de Sorocaba e certifique se está sendo aplicado corretamente”, declara a pasta. A partir daí, será traçado um plano de ação para que esse trabalho seja otimizado e expandido de forma mais eficaz, dentro dos recursos possíveis.
 
PROMESSA – Em entrevista ao DIÁRIO no fim de dezembro, o prefeito José Crespo (DEM) garantiu que a limpeza da cidade e a coleta seletiva eram questões primordiais. “Não dá para pensar em uma cidade do tamanho de Sorocaba com uma coleta de lixo deficiente”, comentou.
 
Observando a coleta seletiva como meio de geração de renda e melhoria do meio ambiente, Crespo exprimiu a vontade de ampliá-la e fazê-la chegar a toda a cidade. “Dessa forma, mais famílias de catadores cooperados poderão ter uma renda melhor e a deposição de lixo no aterro de Iperó será progressivamente menor.”
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