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<< ECONOMIA Por conta da crise econômica, perfil de usuários do Bom Prato começa a mudar Unidade em Sorocaba serve diariamente 1,3 mil refeições; atendidos afirmam a necessidade de mais um restaurante na cidade

Publicada em 22/01/2017 às 11:09
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(Fernando Rezende)
Apesar de o foco continuar sendo o atendimento para pessoas de baixa vulnerabilidade social, o Restaurante Bom Prato de Sorocaba começa a atender a pessoas pertencentes a todas as classes sociais. O motivo para essa realidade, que se percebe nas demandas, segundo coordenadores da unidade, pode ser justificado pela recessão econômica que atinge os setores do País, de forma geral, e as famílias. 
 
Situado na Rua dos Andradas, no bairro Vergueiro, e gerenciado pelo Centro Social São Camilo, ligado à Paróquia São Lucas, o Bom Prato serve, diariamente, exceto nos fins de semana, 1,3 mil refeições por R$ 1,00, conforme explicam Jorge Latuf Filho, da Diretoria Regional de Assistência e Desenvolvimento Social, do governo do Estado de São Paulo, e Maria Beatriz Stefan, uma das coordenadoras da unidade de Sorocaba.
 
Latuf salienta que a unidade sempre foi referencial para pessoas que acompanham pacientes ou passam pelo Hospital Regional, já que está situada próximo ao Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS). Contudo começou-se a perceber que, fora os usuários que frequentam o local por conta do hospital, pessoas de outras partes da cidade e pertencentes a diferentes classes sociais também passaram a frequentar o restaurante. 
 
“O perfil dos usuários que passam pelo restaurante mudou, mas não mudou muito, acabou mudando em função da crise e, pela qualidade da comida, foi descoberto usuários aqui dentro, como moradores próximos, trabalhadores de escritórios de advocacia e da área da saúde, que acabam utilizando este equipamento, que é o Bom Prato, mas o foco do projeto sempre será pessoas de baixa vulnerabilidade social”, explica Latuf.
 
O diretor regional destaca, ainda, que a localização da unidade deu-se de uma forma estratégica por estar nos arredores do CHS e, consequentemente, receber grande número de pessoas da Região Metropolitana de Sorocaba. Assim, usuários dos hospitais localizados no bairro Vergueiro, além de poderem contar com o almoço, têm a oportunidade de tomar café da manhã, por R$ 0,50, já que essa primeira refeição do dia é oferecida para 300 pessoas diariamente. 
 
De acordo com Latuf, para que as refeições sejam mantidas ao preço de R$ 1,00 e R$ 0,50 - o almoço e café da manhã, consecutivamente - o governo do Estado aumenta gradativamente o subsídio, porém sem afetar a pessoa que se utiliza do Bom Prato. “O Estado repassa para o Centro Social um valor mais alto do que é cobrado pelo usuário, e que é reajustado uma vez por ano”, explica. 
 
Ainda em relação ao subsídio vindo pelo Estado, o diretor esclarece que, para o almoço, são repassados R$ 4,35, e para o café da manhã, R$ 0,80. “Desde a inauguração, do lançamento do programa, o que aumenta é o subsídio do Estado com o administrador do equipamento; não afeta o usuário. Então, podemos dizer que, se a pessoa quiser, ela tem uma refeição completa e um café no valor total de R$ 1,50”, pontua.
 
O dia a dia no Bom Prato é agitado, principalmente para os funcionários, assim como explica a coordenadora da unidade, Maria Beatriz Stefan. Ela diz que o atendimento segue um esquema, tanto para a organização, quanto para a acomodação dos usuários. Assim, para o café da manhã, os portões da unidade abrem-se às 7 e se fecham às 9 e, para o almoço, o atendimento segue das 11 às 14 horas, mas nada impede que a entrada seja antes. 
 
A ordem de entrada obedece à regra de chegada, mas reserva o espaço para idosos e portadores de deficiência, como preferenciais. Portanto, antes de a passagem ser liberada, formam-se duas filas, uma com as pessoas acima de 60 anos de idade e outra para o público geral. “Para os deficientes, há uma voluntária que ajuda a pessoa a entrar, pega o dinheiro se necessário, compra a ficha e traz a bandeja à mesa.” 
 
De acordo com Maria Beatriz, em ocasiões em que a procura pelas refeições ultrapassa a quota estabelecida, que é 1,3 mil refeições, antes do horário de fechamento da unidade, há todo um cuidado para que não haja dispensa. “Se atingimos a quota às 13h15, 13h20, fazemos a contagem da fila, explicamos que será servido até aqui, e para os usuários que quiserem esperar, se houver sobra, continuamos servindo por R$ 1,00.”
 
A coordenadora conta que a possibilidade de sobra do total preparado pode acontecer por conta das bandejas usadas no restaurante, que são classificadas pelas cores bege - pequenas e para crianças até 6 anos de idade, concentrando, assim, menores proporções de alimento - e laranja, para adultos. “Com isso, além da diferença na alimentação, evitamos desperdícios; não vamos deixar a pessoa fora da unidade e jogar a comida”, frisa. 
 
CARDÁPIO – No preparo das refeições, uma nutricionista responsável acompanha passo a passo cada ação na cozinha. Ela também é incumbida pela preparação dos cardápios, que são enviados à Secretaria de Desenvolvimento em São Paulo, para uma nutricionista-chefe, que avalia possíveis alterações, como jogo de cores, e aprova; todo esse processo ocorre sempre um mês antes das preparações. 
 
Todas as datas comemorativas, como Páscoa, Natal, Dia das Mães e das Crianças, sempre traz um cardápio especial no Bom Prato, conforme explica Maria Beatriz. Segundo ela, trabalha-se a possibilidade de um almoço diferenciado neste carnaval. Já no cotidiano, a refeição, com 1,2 mil calorias, é composta por arroz, feijão, salada, legumes, um tipo de carne, farinha de mandioca, pãozinho, suco e sobremesa, que geralmente é uma fruta. 
 
Já o café da manhã traz leite com café ou achocolatado, pão com margarina e uma fruta da estação, e tem, em média, 400 calorias. No âmbito geral, de acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Social, desde a inauguração do programa Bom Prato, foram servidas 173.348.284 refeições e investidos R$ 457.716.851,44 entre custeio das refeições, implantação e revitalização das unidades. 
 
“Cada Bom Prato tem um perfil; o nosso é uma comida sem muito sal, sem muito tempero, já por conta dessas pessoas que passam pelo hospital. Já estamos acostumados, e eles também. Por exemplo, na quarta-feira, é tradicional a feijoada; então, eles (usuários) querem feijoada toda quarta-feira. Cada unidade tem um perfil, mas, quanto à comida, é praticamente sem sal e pouco temperada”, reforça a coordenadora. 
 
EXPERIÊNCIA – Maria Beatriz conta que, para ela, o projeto, além de oferecer alimento, é uma lição de vida. Por determinação do Estado, a coordenadora teve de ficar por certo tempo atendendo no caixa da unidade; ocasião que classifica como uma das mais marcantes de sua atuação. “Vivenciei situações em que pessoas chegaram e não tiveram R$ 1,00 para comer; outro ponto bonito é ver as próprias pessoas da fila ajudando-se.” 
 
Ela salienta que há pessoas que se conhecem e fazem amizade durante as passagens pelo restaurante, fazendo, assim, com que se crie um vínculo. “Há usuários que vêm aqui desde o começo, ou seja, já fazem parte da minha vida, assim como as pessoas que são atendidas no hospital e almoçam aqui; você cria um vínculo. Aqui, partilhamos histórias, como de pessoas que não têm o que comer, que vêm do sítio e têm vergonha; é uma lição de vida.” 
 
MAIS UNIDADES – A coordenadora afirma ser constantes os questionamentos quanto à possibilidade de se instalar outra unidade do Bom Prato na cidade, por causa da demanda e grande afluxo de pessoas nas regiões do município. Contudo ela salienta concordar com a posição do governo do Estado de que, no momento, trabalha-se para implantar o projeto em locais que ainda não contam com a iniciativa. 
 
Porém Maria Beatriz ressalta que Sorocaba comporta mais um restaurante. “Tanto que na zona norte já foi feito um estudo para implantação, porque se trata de um ponto que também concentra postos de saúde e escolas; então, tenho certeza de que vai atingir esse público principalmente”, adianta, reforçando que, geralmente, a prioridade é levar o restaurante a outras cidades antes de se pensar em instalar uma segunda unidade. 
 
O comerciante João Alfredo diz estar todo dia no restaurante, já que trabalha próximo e por não compensar o preparo da refeição em casa. “Para mim, aqui é excelente, mas, para as pessoas que vêm de longe, principalmente da zona norte, outra unidade ajudaria.” Da mesma opinião compartilha a aposentada Dirceia Dias Fernandes, moradora do Jardim Simus, que vai de ônibus ao Bom Prato. “Aqui, é meu ponto de encontro com amigos.”
 
HISTÓRIA – Conforme a coordenadora Maria Beatriz, o Bom Prato nasceu em 22 de fevereiro de 2006, mas tudo começou com a iniciativa de um padre, chamado Camilo, que trabalhava na igreja São Lucas, e que, por conta própria, servia café na porta da igreja. “A partir disso, nasceu a ideia de se criar o Centro Social São Camilo. E não foi o Centro São Camilo que foi até o governo para instalar o projeto, mas, sim, o governo que veio ao Centro.”
 
Ela conta que, com a ação de padre Camilo e a criação do Centro Social, a procura pelo café foi aumentando, tanto que essa refeição continua sendo servida gratuitamente com doações voluntárias. Ainda conforme Maria Beatriz, com ajuda de políticos, o Bom Prato foi instalado no bairro Vergueiro, depois de um estudo da área de localização, utilizando-se do prédio pertencente à Paróquia São Lucas.
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