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Diário de Sorocaba





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<< POLÍCIA Tensão cresce e ultrapassa celas atingindo governantes A briga entre as facções nas cadeias que resultou em massacre e por consequência debate sobre o assunto prisional, marcou a primeira semana de 2017, e extrapola as celas, atingindo diretamente os responsáveis governamentais.

Publicada em 08/01/2017 às 07:56
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Na Região Metropolitana de Sorocaba, as unidades prisionais têm 81,5% presos a mais do que deveria
O secretário nacional de Juventude, Bruno Júlio (PMDB), pediu demissão na sexta-feira (7) ao presidente Michel Temer. O pedido surgiu após a repercussão negativa de uma declaração sobre a chacina de presos em Roraima. Em entrevista a um colunista do jornal O Globo, Júlio disse que “tinha que matar mais [presos], tinha que fazer uma chacina por semana”. Ele alegou "estar havendo valorização muito grande da morte de condenados, muito maior do que quando um bandido mata um pai de família que está saindo ou voltando do trabalho". 
 
Especialistas em Segurança avaliaram que o Plano Nacional de Segurança, lançado pelo governo na sexta-feira (6), que consiste em uma série de medidas para combater o crime no País, é "ineficaz" e "genérico", de acordo com profissionais ouvidos pelo G1. 
 
O plano foi anunciado logo depois da madrugada de sexta-feira, quando 33 presos foram mortos em uma penitenciária em Roraima (em outubro do ano passado já tinha ocorrido outra rebelião com massacre). No início da semana, uma rebelião em um presídio em Manaus (AM) resultou na morte de 56 presos.
 
MINISTRO TERIA NEGADO AJUDA - O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, acusou o governo do Amazonas de não tomar medidas como a restrição de visitas mesmo sabendo de um plano de fuga no presídio de Manaus previsto para a virada do ano. No domingo, 1º de janeiro, uma rebelião acabou com 56 presos mortos e mais de uma centena de fugitivos. 
 
O secretário estadual de Segurança Pública, Sérgio Fontes, rebateu o ministro, dizendo que todas as informações são compartilhadas com autoridades federais e sugerindo conivência. Em entrevista à rádio CBN, o governador do Amazonas, José Melo, afirmou que não tinha nenhum santo entre os 56 mortos da rebelião. 
 
O Primeiro Comando da Capital - PCC, facção criminosa que controla o crime organizado em São Paulo, e os Família do Norte (FDN), facção que atua no norte brasileiro, estão em guerra de territórios para ganhar poder e dinheiro.
 
Em 21 de novembro, a governadora de Roraima, Suely Campos, enviou ofício ao ministro da Justiça em caráter de urgência, solicitando "apoio do Governo Federal, bem como da Força Nacional" para os presídios do Estado. Ela alegou ainda grande clima de tensão, e solicitou 180 pistolas para o sistema penitenciário, que se encontra deficitário. Moraes negou a solicitação. "Apesar do reconhecimento da importância do pedido de Vossa Excelência, infelizmente, por ora, não poderemos atender ao seu pleito", escreveu o ministro no documento.
 
 
Causas do massacre também
ocorrem em Sorocaba e região
 
As unidades prisionais de Sorocaba, como todas do Brasil, também sofrem com a superpopulação. Na Penitenciária "Antônio de Souza Neto", a P2, em Aparecidinha, a capacidade é para 935 presos, mas abriga 2.235 pessoas. 
 
A Penitenciária "Dr. Danilo Pinheiro" (P-1) de Sorocaba, tem instalações para receber 572 pessoas; está com 1.099 detentos. No Centro de Detenção Provisória - CDP, o espaço nas celas é para 662 presos, mas 1.475 estão lá alocados. 
 
Em toda a região de Sorocaba, as unidades prisionais têm 81,5% presos a mais do que o número disponível de vagas. A capacidade é para abrigar 9.936 detentos, mas a população carcerária chega a 18.036 pessoas, espalhados por presídios, Centros de Detenção Provisória (CDPs), Centros de Progressão Penitenciária (CPPs) e Centros de Ressocialização (CRs), localizados nas cidades de Capela do Alto, Iperó, Itapetininga, Mairinque, Sorocaba e Porto Feliz. 
 
Desde dezembro de 2015, somente a Penitenciária "Odon Ramos Maranhão", de Iperó, conta com um sistema que impede a comunicação por meio de telefones celulares.
 
No começo de outubro passado, o governo do Acre informou que suas forças de segurança tinham encerrado um conflito entre facções ocorrido em três pavilhões do Presídio "Francisco de Oliveira Conde", em Rio Branco. Três detentos foram mortos e 20 ficaram feridos. Dias antes, pelo menos 10 presos tinham sido mortos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista, Roraima. 
 
O secretário de Justiça e Cidadania de Roraima, Uziel de Castro, também atribui a rebelião a uma guerra entre o PCC e o Comando Vermelho. Nesta rebelião, houve mortos degolados e carbonizados. Há suspeitas de que o PCC ordenou os ataques e as rebeliões. Cerca de 100 familiares de presos foram feitos reféns, mas liberadas após intervenção da Polícia Militar. 
 
Dias depois, oito detentos morreram asfixiados durante rebelião ocorrida na Penitenciária "Ênio dos Santos Pinheiro", em Porto Velho, Rondônia, também ocasionada por confronto entre facções, segundo o governo.
 
Na época, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, já declarara que reduzir a superlotação do sistema carcerário seria uma das formas de combater as causas das rebeliões em presídios, e disse que o governo estava recolhendo informações para fazer uma avaliação do que está acontecendo dentro das cadeias de vários Estados. 
 
Os dados são da Secretaria de Administração Penitenciária - SAP de São Paulo. Na apresentação sobre o Plano Nacional de Segurança, Alexandre de Moraes disse que um dos objetivos é transformar troca de informações entre Estados mais eficaz. Mas não há registro sobre quantidade de presos em cada penitenciária, afirma. Segundo ele, um dos problemas enfrentados hoje é o fato de não haver o registro de dados básicos, como o número de presos que há em cada penitenciária. “Vamos ter realmente informações precisas de todos os presídios”, afirma.
 
 
As facções PCC, FDN e CV e suas relações
 
O FDN aliou-se ao CV, e tem praticamente o monopólio do tráfico no Estado e o domínio sobre o sistema carcerário local, além de exportar cocaína importada da Colômbia e Peru para a Europa. Os ataques contra o grupo paulista teriam sido provocados pela iniciativa do PCC de continuar batizando – expressão usada no crime para o recrutamento de novos integrantes – apesar da desaprovação da Família do Norte.
 
De acordo com especialistas, os assassinatos ordenados por Barbosa em junho de 2015 estão na origem do rompimento da aliança de quase 20 anos entre o PCC e o CV. O fim da paz entre os dois grupos já custou a vida de ao menos 18 detentos em presídios de Roraima e Rondônia no início de outubro de 2016, a maioria deles ligado à Família do Norte e ao CV. O caso mostra também que a rixa entre as facções e o potencial de conflito dentro das cadeias já era conhecido há mais de um ano pelas autoridades. PCC e CV são os maiores grupos criminosos do País, e as consequências de um enfrentamento direto entre elas ainda são imprevisíveis.
 
Os detentos da Família do Norte fizeram vídeos com celulares mostrando os corpos de integrantes do PCC e de outras vítimas da rebelião, que deixou 56 mortos em Manaus, há uma semana. Com até 3 minutos de duração, os vídeos são acompanhados pela narração dos bandidos, chamando as vítimas de "nego safado" e "canalha". A maioria está com a cabeça cortada ou gravemente mutilada. Em um deles, um dos presidiários reúne as cabeças das vítimas e descreve uma a uma quem seriam no PCC. As imagens da decapitação de rivais, uma prática que era uma das marcas do PCC, seriam uma forma de a facção demonstrar força.
 
No caminho para consolidar seu monopólio nas cadeias paulistas, o PCC decapitou em 1999, durante uma rebelião na Casa de Custódia de Taubaté, os presos Max Luís Gusmão de Oliveira, o "Dentinho", Ademar dos Santos, o "Da Fé", e Antônio Carlos dos Santos, o "Bicho Feio", fundadores da facção rival CRBC. Uma das cabeças foi atirada nos pés do magistrado que negociava o fim da rebelião.
 
Mateus chegou a ser considerado o segundo homem na hierarquia da facção e tinha 30 anos quando foi morto na Penitenciária de Araraquara, em 30 de novembro de 2001, durante a série de mortes na cúpula que consolidou o poder de Marco Willians Herbas Camacho, o "Marcola". As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
 
 
 
Morte de um dos maiores traficantes
do Brasil pode ter sido o estopim
 
O pastor Aldidudima Salles, 53 anos, ex-líder do Comando Vermelho, coordenador de mais de 6 mil traficantes e autor de 26 homicídios, sugere que as ações das polícias podem ser insuficientes para conter a reverberação do problema. O pastor afirma que a morte do "rei da fronteira", Jorge Raffat Toumani, traficante assassinado em Juan Caballero, fronteira do Brasil com Paraguai, em junho de 2016, pode ter sido o estopim da guerra. 
 
"Ele foi morto pelo PCC e pelo CV [há versões de que foi apenas o PCC que atuou na ação e outra de que foi uma ação conjunta, com posterior batalha pelo domínio da rota deixada pelo traficante]. É experiência de ter vivido dentro de uma facção. Eu acho que romperam por luta de poder: o CV não aceita receber ordem; o PCC idem. Então, deve ter havido essa separação por um querer mandar mais que o outro. E no final de contas, o dinheiro sempre fala mais alto", afirmou em reportagem da BBC.
 
Jorge Raffat foi assassinado a tiros dentro do carro blindado em que estava, em Pedro Juan Caballero, no nordeste paraguaio, em um tiroteio entre quadrilhas, no dia 16 de junho. Ele era um dos maiores traficantes da fronteira do Brasil com o Paraguai e já havia sido condenado por tráfico, mas recorria em liberdade. 
 
A mídia paraguaia já colocava o caso como conflitos de bandidos do PCC e do Comando Vermelho. Tiros de uma metralhadora antiaérea de calibre.50 perfuraram o vidro, atravessando-o e matando na hora o criminoso. Ainda houve um tiroteio contra prédios de empresas de Raffat no Paraguai e uma revenda de pneus do traficante foi incendiada. O tráfico na cidade é comandado por brasileiros.
 
Na época, existia o receio de que a violência se espalhasse para outras unidades do sistema penitenciário – e também para as ruas. A FDN tem laços com o Comando Vermelho, o que explica a briga com o PCC e o massacre perpetrado no domingo passado.
 

 

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