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<< Cego e testemunha da guerra, angolano disputa Paralimpíada pelo Brasil

Publicada em 14/09/2016 às 15:45
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(Divulgação)
Em termos de classificação, a terceira partida da seleção brasileira de futebol de 5 nas Paralimpíadas não valia muito. O Brasil já estava com a vaga garantida para as semifinais, antes mesmo de entrar em campo contra o Irã. Porém, para um jogador, o jogo foi inesquecível. Angolano de nascimento e brasileiro de coração, Maurício Dumbo Tchope ficou por 27 minutos em campo e fez a sua estreia com a camisa do Brasil em Jogos Paralímpicos.
 
Vestir a camisa da seleção brasileira na Paralimpíada é apenas mais uma das vitórias de uma trajetória que passou pela cegueira por falta de médicos, uma infância cercada pela guerra, a distância da família, o desejo de ficar no Brasil depois de construir a vida por aqui como advogado e, claro, o esporte.
 
Nascido em 1989, na província de Benguela, Maurício viveu os primeiros anos de sua vida sob os horrores da guerra civil que assolava o país desde 1975. O pai havia sido soldado do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). O MPLA e o grupo rival, a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), realizavam conflitos para obter o controle do país. No meio disso, Angola estava na miséria.
 
Aos cinco anos, Maurício sentiu o primeiro efeito da guerra. Após pegar sarampo, não havia médicos suficientes para tratar da doença. Em um tempo onde até sair de casa era problemático, ele teve complicações da doença. “Como o tratamento foi feito em casa, não foi muito bem feito e acabei ficando cego”, conta.
 
Guerra
 
Cego e convivendo com a guerra, Maurício era um alvo vulnerável. Sabendo disso, sua mãe não titubeou em mandá-lo para o Brasil em 2001. Com onze anos, Maurício ainda não havia sido alfabetizado. Ele não queria deixar a família, mas o futebol foi decisivo na vida dele antes mesmo de virar jogador:
 
“Eu lembro que quando pintou a proposta, não queria vir. Mas aí a minha mãe falou que eu iria conhecer o Ronaldo Fenômeno, o Adriano, que estavam jogando na época. Depois que fui entender que era para ser alfabetizado, aprender braile”, contou durante entrevista para a TV Brasil em abril deste ano.
 
Faculdade
 
A oportunidade de vir ao Brasil apareceu por meio de um programa de intercâmbios entre Angola e Brasil. Crianças cegas de todas as províncias do país africano vieram para cá com o intuito de aprender braile e informática. Maurício acabou fixando moradia em Curitiba e tomou gosto pelos estudos. Com a família, que ficou em Angola, ele perdeu contato na época.
 
“Às vezes atacavam no bairro em que a gente estava e tinham que se mudar. Com isso, perdemos contato. Recuperei o contato só em 2009 quando soube que meu pai havia falecido após pegar uma doença”, conta. Desde então, Maurício e família mantém contato pela internet.
 
Por aqui, ele não só aprendeu a ler como também, alguns anos depois, entrou na faculdade de direito. No meio dos estudos, ele descobriu o futebol de 5 em 2006. No início, ele não acreditava que poderia se tornar jogador profissional. Mas estar no esporte foi decisivo para Maurício conseguir ficar no Brasil em 2014.
 
Depois de treze anos ajudando a pagar os estudos de Maurício e seus amigos, o governo de Angola resolveu encerrar o programa de bolsas. Na época, ele estava estudando e, para sobreviver, recorreu a ajuda de amigos brasileiros, ao salário de estagiário do Tribunal de Justiça do Paraná e até  a um prêmio obtido em um programa de televisão, após acertar chutes a gol de olhos vendados. Foi nessa época que ele começou a se destacar no esporte. (Agência Brasil)
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