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Diário de Sorocaba





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<< No Dia do Trabalhador, milhares de pessoas lutam para conseguir emprego

Publicada em 01/05/2013 às 00:34
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Agências de emprego ficam lotadas de pessoas em busca do tão sonhado trabalho (Foto: Fernando Rezende)
Hoje é feriado nacional em alusão ao Dia do Trabalhador, data que também é comemorada em outros países. A escolha não foi em vão, já que em 1886 em Chicago, Estados Unidos, milhares de trabalhadores fizeram um movimento reivindicando a redução da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias. Entretanto não são todas as pessoas que têm motivos de sobra para comemorar esse dia. Uma pesquisa aplicada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em seis regiões metropolitanas – Belo Horizonte, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro - mostra que em fevereiro a população desocupada somava 1,4 milhão de pessoas. 

Em contrapartida, um levantamento do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) aponta que o Brasil precisa qualificar 5,5 milhões de trabalhadores nos próximos dois anos para atender à demanda da indústria. Mesmo faltando vagas em cursos no País, esse setor é o que mais necessita de mão de obra e tem dificuldade de preenchê-las. E em todo início de semana a cena se repete: agências de empregos lotadas de currículos. 

QUALIFICAÇÃO - O trabalhador que quiser entrar ou permanecer no mercado de trabalho atual, precisa sempre atualizar sua qualificação, já que hoje todos têm fácil acesso aos meios de informação e a rotatividade dos cargos pode ser maior. Segundo dados do censo 2010 realizado pelo IBGE, em dez anos o nível de instrução das mulheres permaneceu mais elevado que o dos homens. Durante esse período, considerando a faixa etária de 25 anos de idade ou mais, o percentual de mulheres com nível superior completo saltou de 12,5% para 19,2%, enquanto os homens foram de 9,9% para 11,5%. E quanto maior a renda mensal familiar, melhor será o índice de escolaridade, confirma o censo. 

Focando no público que frequenta cursos de nível superior - graduação, especialização, mestrado e doutorado – 12,7% encontram-se na faixa de rendimento com mais de cinco salários mínimos; são 26,9% nas especializações, 36,7% nos mestrados e 47,1% em doutorados. Mas para que cheguem a esse estágio é importante que não abandonem a vida escolar no meio do caminho. A incidência dessa ação é maior entre a população masculina de 18 a 24 anos, que nem concluem o Ensino Médio; essa parcela corresponde a 41,1% - entre as mulheres é de 32%. 


Indústria é a que mais contrata no primeiro trimestre em Sorocaba

No primeiro trimestre deste ano, o setor da indústria em Sorocaba foi o que mais contratou funcionários, chegando a 1.135, contra 794 em serviços, 468 no comércio e 297 da construção civil. O nível de escolaridade é fundamental na hora de concorrer a uma vaga no setor e contribui no desempate com outro candidato. 

Segundo Mariana Paizani, psicóloga de uma agência de empregos de Sorocaba, 80% das pessoas que visam a uma vaga no setor de produção de indústrias não possuem qualificação necessária para ocupar o cargo. “A indústria oferece muitas oportunidades e quem sofre com isso é o comércio, pois as pessoas já não querem trabalhar no setor. Além de o salário ser menor, também não há benefícios como convênio médico.” 


Número de trabalhadores admitidos pelo PAT aumenta 70% em dois anos

Até março deste ano, 2.694 pessoas já tinham conseguido uma vaga no mercado de trabalho após se cadastrarem no Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) de Sorocaba, segundo a Secretaria de Relações de Trabalho (Sert). Esse número está cada vez maior e chegou a 70% de aumento nos últimos dois anos. Em 2010, foram 6.558 contratações, o que aumentou para 10.029 no ano seguinte, em 2011, e totalizou 11.164 admitidos em 2012. As vagas oferecidas são ofertadas por meio  do Sistema Mais Emprego, que integra o Sistema Nacional de Emprego (Sine) e permite que qualquer empresa do Estado e até de outros lugares do País, deixem disponíveis suas oportunidades no PAT. 

A partir dos 16 anos, estando trabalhando ou não, já é possível se cadastrar no sistema e tentar conseguir o primeiro emprego. As exigências dos empregadores varia de acordo com o de que necessitam e buscam como ideal no perfil de um candidato, mas a maioria das vagas cadastradas são para a faixa etária de 18 a 45 anos. O PAT situa-se na rua Coronel Cavalheiros, 353, na esquina com a Leopoldo Machado, no centro da cidade.  


Como se comportar em entrevistas e conquistar o emprego desejado

Boa desenvoltura e simpatia garantem parte do sucesso numa entrevista de emprego, garante a psicóloga Mariana Paizani. Ela explica que é preciso ter bom censo na escolha da roupa, pois exageros podem causar má impressão de primeira. “As mulheres devem tomar cuidado para que nenhuma parte do sutiã fique exposta. Já aos homens é aconselhável que não usem boné, bermuda e chinelo”, garante a psicóloga. E essas dicas já valem para a entrevista na agência de empregos e, se não forem cumpridas, os candidatos podem nem ser indicados às empresas.

Falar o português corretamente também é essencial para quem estiver interessado em uma vaga. Mariana conta que a maior dificuldade dos entrevistados é falar frases com o plural correto. “Apesar de ser nossa língua nativa, muitos têm dificuldades. Para vagas onde o trabalhador vai ter contato direto com o público, como recepcionistas, além de boa aparência, precisam falar bem”, afirma. O corpo também emite sinais que indicam um pouco sobre a personalidade da pessoa. A psicóloga cita que ficar com os braços cruzados indica que o candidato não está interessado na vaga; colocar os cotovelos apoiados na mesa demonstra agressividade e, nesses casos, o interessado é barrado na hora. 

Grande parte dos interessados em uma vaga de emprego entrega currículo em mais de uma agência de recursos humanos e, passado um tempo, acaba esquecendo de atualizar o cadastro. Essa é outra dificuldade dos recrutadores, pois, segundo Mariana, eles têm em média 48 horas para fechar uma vaga e perdem a conta de quantas vezes não conseguiram entrar em contato com o candidato. “Às vezes, a vaga está no perfil dele, mas não atende ao celular ou troca o número. É importante sempre atualizar os contatos ou deixar o número de telefone fixo para contato; muitos acabam perdendo boas oportunidades”, salienta. 


PROCURA-SE EMPREGO 


Gabriele Marie Andrade Pereira, 16 anos, em busca do primeiro emprego.
Bruna Souza, 17 anos, já teve primeira experiência e quer melhor colocação no mercado. 

Estudando no segundo ano do Ensino Médio durante a noite, as amigas foram até o PAT buscar uma carta de encaminhamento para vaga de atendente de lanchonete. A jovem Gabriele diz que prefere não depender financeiramente dos pais e foi em busca da primeira oportunidade no mercado de trabalho. “Como ainda não tenho nenhuma experiência, é difícil ficar escolhendo a vaga”, afirma. Ela se cadastrou no banco de dados do PAT e seu perfil foi selecionado. Caso comece a trabalhar, ela garante que conseguirá conciliar o emprego com o estudo. Assim que concluir o Ensino Médio também pretende cursar Faculdade de Psicologia e o dinheiro do trabalho ajudaria a bancar a continuação dos estudos.  

Já a amiga Bruna trabalhou durante três meses como operadora de caixa num supermercado. Ela ficou sabendo da vaga num dia em que foi ao comércio fazer compras e entregou o currículo. “Eles me chamaram e comecei a trabalhar. Acho que qualquer experiência com carteira registrada é válida e ajuda a conseguir outros empregos”, fala. Entretanto conta que lidar com o público em geral é difícil e exige jogo de cintura do trabalhador. Assim como Gabriele, ela pretende ingressar num curso superior, só que na área de estética.

As duas foram encaminhadas a uma agência de empregos, fizeram teste escrito e passaram por uma entrevista. Foi dado prazo até esta semana para receberem uma resposta. 


Laudomir Joaquim de Andrade, 51 anos, guardador de carros.


Em 1979, jogando na série Junior do São Bento, Laudo, como é conhecido, tentava seguir carreira de jogador de futebol. Num meio difícil como esse, ele não conseguiu continuar e, após o episódio, trabalhou no comércio e na indústria da cidade. Quando se viu desempregado por um longo período, decidiu começar a cuidar de carros na região central da cidade. “Comecei achando que seria uma ocupação temporária até conseguir um emprego fixo. Fui ficando e já estou há 16 anos no mesmo local”, afirma Laudo. Com tanta rotatividade de motoristas que passam pelas cerca de 26 vagas que cuida, há aqueles clientes que conhece desde o início e acaba nascendo uma amizade. Ele ainda confessa que em alguns casos também atua como conselheiro. “Acontece de eu perceber quando alguém não está legal e converso. Como já estou há tanto tempo no mesmo lugar, às vezes, chega um carro e o motorista diz; ‘não lembra de mim? Eu vinha com o meu pai’. Eles ficavam no banco de trás e hoje dirigem, é muito legal”, admite.

Laudo afirma que trabalha com prazer e gosta de conhecer pessoas e conviver com elas, que o tratam com “carinho e respeito”. O guardador não estipula valor fixo e conta que também não olha no momento em que o pagam, mas que a renda mensal gira em torno de R$ 800,00. Com esse dinheiro sustenta sua família: a esposa, Maria Lúcia Viana, 39 anos, e os filhos, Jorge, 9 anos, Luís Henrique, 7 anos e Chiara, 6 anos. 

Juntos há 10 anos, moram num local de difícil acesso no Jardim Nova Esperança. Para chegar até lá é preciso descer uma ribanceira e atravessar uma linha férrea. “Vou e volto todos os dias caminhando”, conta o trabalhador. Nos últimos meses chegou a trabalhador como segurança e porteiro, bicos que o ajudam a completar a renda. Preocupado com sua aposentadoria, Laudo paga carnê da Previdência Social, mas acredita que não vai parar de trabalhar mesmo depois de aposentado. “Não dá pra parar.” O sonho da família é ser contemplada num programa habitacional e morar numa casa melhor. 


Morador de rua e dependente químico, 32 anos, desempregado.


Aos 18 anos, ele conheceu o crack e, desde então, nunca conseguiu largar o vício. Trabalhou em hipermercados, empresas e cooperativas, mas hoje, sem endereço fixo e morando embaixo de um pontilhão na cidade, não consegue emprego com carteira assinada. O documento, inclusive, é um dos poucos que restaram após ter os pertences levados mais de uma vez durante ronda do município. “Pra comer e sustentar o vício, nós pegamos materiais recicláveis e vendemos num ferro velho”, explica. 

Ele e a esposa, que também prefere não se identificar, conseguem tirar por dia cerca de R$ 20,00. Natural de Sorocaba, ele já morou na Vila Jardini, Jardim Paulistano e Jardim Europa. Ficou preso por dois anos e quatro meses por assalto a mão armada e receptação. Desde outubro de 2010, está em liberdade e o casal chegou a alugar mais de uma casa. Mas, sem emprego, não conseguiram manter os gastos. “Quem vai querer dar um emprego para uma pessoa sem residência fixa, que mora na rua?”, indaga. Após um pedido da mãe, ele não mantém mais contato com a família e afirma que aceitaria ser internado numa clínica de reabilitação. A única condição imposta por eles é ficar sempre juntos. O espaço em que moram é escuro e, com a poluição, o concreto do pontilhão ficou preto e serviu de tela para a mulher pintar a seguinte frase: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará. Tudo posso naquele que me fortalece”.


Natural de Fartura, cidade na divisa com o Estado do Paraná, Aparecido chegou há 40 anos em Sorocaba. Trabalhou como motorista e atuou na indústria. Por curiosidade, começou a cortar cabelos e ingressou num curso profissionalizante. Antes de se fixar no boxe 22 do Mercado Municipal, iniciou a profissão num salão modesto em sua própria casa. Por opção, abriu o salão há 21 anos e hoje coleciona dezenas de clientes, que vêm inclusive de outras cidades da região para ser atendidos por ele. 

Um dos seus três filhos está trilhando o mesmo caminho do pai e hoje trabalham juntos no salão. O corte de cabelo e barba sai a R$ 15,00 cada e não é preciso agendar um horário para ser atendido, basta entrar no salão e aguardar por ordem de chegada. Desde que abriu o próprio negócio, Aparecido pagou o carnê da Previdência Social como autônomo e há quase dois conseguiu se aposentar. “Dinheiro não sobra e também não penso em parar de trabalhar totalmente. Por ficar em pé por dez horas, com o tempo começa a aparecer as consequências, como dor e varizes. Por isso, pode ser que daqui a um tempo eu faça outra coisa”, afirma o comerciante.   

 

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