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Diário de Sorocaba





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<< O SACI E SUAS FACETAS VARIADAS O Sesc dá início hoje ao “Especial Saci à solta!”, cuja programação se estenderá até o final do mês, em todos os sábados, voltada para as lendas do Saci Pererê

Publicada em 04/01/2013 às 21:12
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Amanhã, a Cia. Tempo de Brincar apresentará o espetáculo musical “Coisas de Saci”, às 16 horas (Foto: Divulgação)
Querido por uns e temido por outros, o Saci é uma das figuras mais emblemáticas e curiosas do folclore brasileiro. Ficou eternizado na obra de Monteiro Lobato, junto de Emília, Pedrinho, Dona Benta e companhia. Há quem acredite na sua existência, e há quem o considere apenas uma peça mitológica da cultura do País. Opiniões à parte, o contador de causos, poeta e compositor Ditão Virgílio vai fazer uma revelação ao público do Sesc Sorocaba neste sábado (5), às 15 horas: a figura do negrinho de gorro vermelho e de uma perna só não é única no Brasil. Existem, na verdade, três tipos de Sacis: Pererê, Trique e Saçurá, com tamanhos e personalidades diferentes. 

Já no domingo, dia 6, a Cia. Tempo de Brincar apresenta o espetáculo musical “Coisas de Saci”, às 16 horas. O evento é destinado a toda família e convida as pessoas a valorizar a cultura popular brasileira. 

A apresentação relata a história de um menino que passa uma noite de aventuras na companhia do Saci Pererê, enfrentando o medo da escuridão e da solidão. A narrativa acontece em um cenário de uma pequena cidade do interior, onde, em meio a brincadeiras de rua e cantigas de roda a plateia é convidada a participar, revivendo suas memórias de infância e vivenciando um tempo que pode ser sempre redescoberto.

Com canções do músico e compositor Valter Silva, executadas ao vivo com arranjos para os ritmos brasileiros como coco, ciranda, toada, jongo, boi e catira, e bonecos e adereços como o boi, o Saci e o guerreiro, da atriz e artista plástica Elaine Buzato, acompanhados de Marcel Bottaro no contrabaixo, o espetáculo é um momento de celebração da tradição brasileira, renovando as crenças e reafirmando as raízes e laços, da permanente construção da identidade de cada indivíduo.

SERVIÇO - Os ingressos para o “Especial Saci à solta!” estão à venda na bilheteria do Sesc por R$ 1 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculados e dependentes), R$ 2 (usuário matriculado, deficientes físicos, aposentados, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino, com comprovante) e R$ 4 (inteira). Mais detalhes pelo telefone 3332-9933


IN MEMORIAN

Dizzy Gillespie, o mago do trompete torto

Das duplas do século, Bird & Diz vieram antes de Tom & Vinicius e Lennon & McCartney. A revolução do jazz moderno foi desencadeada pelo saxofone de Charlie "Yardbird" Parker e pelo trompete de Dizzy Gillespie, que de sonso ("dizzy") não tinha nada. O apelido surgiu na orquestra de Cab Calloway, quando ele sumiu do naipe de trompetes para dedilhar furtivamente o piano. Um dia, Cab e Diz tiveram uma briga, o trompetista cortou com um canivete o band-leader e foi demitido. A coisa boa da banda de Cab foi que nela Dizzy conheceu o trompetista cubano Mario Bauzá: juntos, fundiram suas músicas no Afro-Cuban jazz. (Dizzy compôs clássicos do idioma, como Manteca, Tin Tin Deo e Con Alma.)

John Birks Gillespie tinha 12 anos em 1929 quando ouviu a primeira gravação de Black and Blue por Louis Armstrong: "My only sin is in the skin./ What did I do to be so black and blue?". (Meu único pecado está na pele./Que foi que fiz para ser tão preto e triste?) Nascido preto e pobre em Cheraw, Carolina do Sul, perdeu o pai aos 10 anos. Não lamentou muito: caçula de nove filhos, era o favorito das surras dominicais do velho. Operário de construção, o falecido ganhava uns trocados como músico nos fins de semana. Com a casa cheia de instrumentos, Dizzy salvou-se da marginalidade graças à música. Aos 12 já tocava trombone e trompete na escola.

Na autobiografia de 1979, To Be Or Not To Bop, 552 páginas de confissão pura, ele lembra: "No colégio, aos 15 anos, comecei a brincar com o piano e minhas ideias se expandiram muito. Desenvolvi uma atitude muito séria com relação à música". Em 1940, conheceu um saxofonista de Kansas City. Trancaram-se num quarto de hotel e Charlie Parker tocou: "Nunca tinha ouvido aquilo antes, a maneira como ele jogava com as notas. Foi uma de minhas maiores emoções". O próprio Dizzy era um malabarista do trompete - capaz de equilibrar várias notas no ar ao mesmo tempo Diz e Bird eram velocistas. Ninguém tocava tão rápido - tão bonito e tão perfeito - quanto eles.

Juntos criaram o bebop, um jazz novo e instigante. Bird era o gênio trágico, queimou todas suas energias e morreu em 1955, aos 34 anos. Dizzy foi o sobrevivente, armou-se de uma carapaça de clown para fazer frente às agressões do racismo e do comercialismo. Numa cena de Bird, a filmebiografia de Charlie Parker por Clint Eastwood, Dizzy dá uma bronca em Parker depois que ele vende o sax para comprar drogas e falta a uma gig: "É o que eles querem, que você faça o jogo deles, prove que o negro é incompetente e irresponsável. Temos de batalhar para provar que somos mais competentes e responsáveis do que eles naquilo que fazemos - música!".

Na composição de sua persona, Dizzy apelou para adereços capilares (o goatee, a pera debaixo do lábio), para boinas bascas, óculos malucos e criou uma obra-prima do marketing: o trompete entortado, apontando para o céu. Na verdade, aconteceu por acaso: na segunda-feira, 6 de janeiro de 1953, aniversário de sua mulher, Lorraine, e dia de folga, Dizzy armou uma festança e, no calor das comemorações, alguém pisou no seu trompete. Muito zen, diante da campana entortada, Dizzy tocou mesmo assim. E gostou do que ouviu. Encomendou um trompete com a campana entortada em 45%. O pessoal da fábrica de instrumentos Martin achou uma loucura, mas produziu o trompete periscópico. Com a campana elevada, Dizzy ouvia as notas com maior antecedência, alcançava melhor o microfone e o público. E seus agudos, mortíferos para os tímpanos da plateia, eram amenizados.

Toda relação com Dizzy é fatalmente epidérmica. Chorei de emoção em Londres, numa noite de 1964, ao ouvir o grupo do Ronnie Scott’s tocar Pau de Arara, o clássico do Gonzagão que eu escutava ainda garoto nos tempos da Rádio Nacional. Resgate transcultural de Dizzy, com a ajuda do pianista hermano Lalo Schiffrin, na época em que também fez versões geniais de Desafinado e Chega de saudade (No More Blues). 

Dizzy For President, nos desencantados anos 1970, foi a proposta de um movimento alternativo dos EUA, uma demonstração da força cultural do jazzista. Mas Dizzy preferiu a música à política e fundou a United Nation Orchestra, uma espécie de ONU do jazz. Dizzy Gillespie morreu de câncer do pâncreas em 6 de janeiro de 1993, exatamente 40 anos depois de inventar o trompete entortado no aniversário de sua mulher.

Dizzy faz falta, 20 anos depois? Faz, com certeza, para o trompetista cubano Arturo Sandoval, que lançou em 2012 o CD Dear Diz (Everyday I Think of You). Eu também posso dizer sem exagero que, como muitos outros no mundo inteiro, penso todo dia em Dizzy Gillespie. (Roberto Muggiati - Agência Estado)


Antônio Loureiro chega para transcender formatos da nova música

O fá sustenido com a quinta no baixo seguido de um si bemol invertido com baixo na terça não eram exatamente o caminho que um cantador de Pernambuco imaginava para deitar a letra de uma simples ciranda. Quando veio o ritmo, então, seu cérebro deu um nó. O que deveria estar bem acentuado, como manda a tradição de tudo o que vem do Nordeste, aparecia apenas sugerido nas teclas do piano. As marcações eram suaves e espaçadas, sustentavam uma melodia envolvente e criavam um ciclo sem fim que colocaria até os elefantes em transe. Siba, o cantador, olhou para Antonio, o pianista, e disse apenas: "Rapaz, isso não é bem o que eu estou acostumado a fazer."

As fagulhas da cabeça de Antonio Loureiro parecem escolher um labirinto qualquer antes de lhe saírem pelas mãos. Surgem em ideias simples e pequenas, se juntam a informações que estão lá desde a infância, ganham uma densidade harmônica e viram belas canções, muitas vezes sem letra. E isso tudo porque esse paulistano de 26 anos criado em Belo Horizonte e hospedado em São Paulo há dois começa só agora a entender sobre o fá sustenido com a quinta no baixo seguido de um si bemol invertido com baixo na terça.

O caso começa a ser melhor explicado quando se sabe de suas origens. Loureiro é um raro exemplar de baterista e percussionista, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, que migra para o front. Até há pouco tempo era o músico que era chamado para tocar. Hoje, começa a ser aquele que chama. Há pouco era o baterista que tocava jazz, pop e MPB, sobretudo com a turma dos novos mineiros. Hoje, começa a ganhar rosto, nome e sobrenome. "Estou tendo uma resposta do Japão que nunca esperei. Um público meu está se formando por lá, uma coisa maluca."

A bateria foi primeiro sua fuga do piano. Era disciplina demais, teoria demais e até enjoar para um menino que ouvia Soundgarden, Yes, Genesis e Pink Floyd. Quando as baquetas tocaram a pele de uma caixa pela primeira vez, aconteceu algo. "Os rudimentos, a velocidade, a precisão, aquilo tem uma força muito grande na cabeça de um garoto." Instrumentos harmônicos começaram a ser mais usados para as composições e uma turma de mineiros passou a rodeá-lo. Kristoff Silva, Rafael Martini, Frederico Heliodoro. Loureiro voltou ao piano e, quando as audições eruditas e de jazz chegaram, sua personalidade já era erguida por pedras tiradas de um muro do Clube da Esquina. "Milton Nascimento me influenciou demais. De todo o pessoal do Clube, foi ele quem me pegou."

Ainda que tenha participado de projetos ao lado do rapper Criolo e que tenha a cantora Tatiana Parra em seu disco, Antonio Loureiro não deve ser um nome absorvido pela nova cena paulista. Sua música habita um universo diferente que há dez anos seria chamado de "música instrumental" e que hoje ficou difícil de ser classificado. A canção, um termo antes impensável sem a presença da letra, ganha em seu trabalho discurso e narrativa por meio de arranjos. Se é jazz, pop ou música erudita, problema de quem vai catalogá-lo. "Canções não precisam de letras para serem canções", diz. Se pode ser entendido como cabeça demais por quem o ouve? Sim, pode.

Mas, como ele diz, não é proposital. "Eu não faço música alienígena. E não acho que vou ficar sozinho, não. Como Siba me disse, a única diferença quando se aposta em um trabalho assim, um pouco mais complexo, é de que ele dará muito mais trabalho para ser reconhecido." Quando fecha os olhos, diz que sonha ainda com a mesma cena de quando começou a brincar com esse negócio de música. "Tocar em um grande festival de jazz em que esteja também o Brad Mehldau." É o que lhe faz sentar-se ao piano para destrinchar por horas aquele fá sustenido com a quinta no baixo que nem é mais um bicho de sete cabeças. (Júlio Maria - Agência Estado)

 


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