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Diário de Sorocaba





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<< Pátio Cianê não sabe explicar motivo de desabamento

Publicada em 22/12/2012 às 00:56
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Dois pavimentos, vigas e pilares foram retirados do prédio; só restaram as paredes sem escoramento (Foto: Fernando Rezende)
A empresa Pátio Cianê, que administra a construção do shopping onde ocorreu o desabamento que matou sete pessoas, ainda não sabe explicar o que pode ter motivado a queda parcial da parede de dez metros de altura. Segundo o diretor de operações da empresa, Márcio Araújo, é prematuro tirar conclusão antes de a perícia técnica ser concluída. “Tudo que possa ter sido levantado até agora são suposições. É muito recente e um acidente complexo para se chegar a uma conclusão. Por enquanto não temos nenhuma informação técnica passível de confirmação, isso é uma perícia que está em andamento.” Ele deixou a responsabilidade do prazo do resultado para os órgãos públicos. 

Na quinta-feira (20), os tijolos do desabamento soterraram quatro carros e uma motocicleta vitimando estas sete pessoas: Humberto Dias Ferreira (53 anos), Adilson Nunes Filho (35 anos), Rayner Alves (28 anos), Samanta Bianca da Conceição (24 anos), além de Évelin Cristina Siqueira (30 anos), sua irmã Nhayara Airola (25 anos) e seu filho Tiago Alves Siqueira (5 anos). O marido de Samanta, Anderson Schendroski, também estava no carro e sobreviveu. O prédio que desabou é da antiga fábrica têxtil Santo Antônio, construído em 1913, dentro do complexo Cianê, que tinha ainda a fábrica Nossa Senhora da Ponte. O local será transformado no shopping. O acidente foi destaque nos principais veículos de imprensa do País e também repercutiu em alguns jornais internacionais. 

A obra está regularizada na Prefeitura. Ontem, integrantes da Defesa Civil e da Secretaria de Habitação reuniram-se com representantes do empreendimento e da construtora, exigindo que até o próximo dia 27 também seja apresentado um projeto com medidas preventivas para contenção de toda estrutura externa do antigo prédio da Cianê, a fim de garantir a segurança da população e da obra.

As obras permanecerão interditadas por tempo indeterminado, de forma a possibilitar que a Polícia Científica possa colher todos os elementos necessários para conclusão do laudo pericial. A Defesa Civil manteve o isolamento do prédio e a interdição do trecho da rua Comendador Oeterer para veículos, liberando apenas a passagem de pedestres pela calçada do lado oposto à obra.

Araújo alegou que projetistas, calculistas, engenheiros e arquitetos estudaram o local e não consideraram preciso escorar as paredes depois da retirada de toda a estrutura interna, além da cobertura do prédio. “Quando a análise técnica for concluída, o que tiver de ser feito, vai ser feito. Enquanto isso, não faremos nada na obra.” O diretor ressaltou que a prioridade da empresa no momento é mostrar solidariedade às famílias das vítimas. “Estamos buscando, dentro dos nossos recursos, minimizar esse momento de dor e sofrimento. Temos uma equipe de psicólogos e assistentes sociais ajudando as famílias.” 

De acordo com o diretor da Pátio Cianê, ainda não está definido o valor das indenizações. “A obra tem seguro. Nada paga a dor e o sofrimento. Não está determinado o valor, e nem as famílias devem estar preocupadas com o valor, mas em se despedir e enterrar seus entes queridos. Tudo o que tiver de ser pago, em um outro momento, vai ser devidamente indenizado através do seguro da obra.” 

Ele disse ainda que foram usadas as técnicas mais modernas de engenharia no projeto e que havia acompanhamento do trabalho. “A construtora e todo corpo técnico envolvido com a obra estava acompanhando a obra como um todo, a execução do que foi projetado, essa era nossa obrigação. E sempre com um acompanhamento grande das autoridades.” A construtora responsável pela obra é a Fonseca e Mercadante. Há menos de dois meses, em uma obra da mesma construtora em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, dois operários morreram depois que uma laje cedeu. 

EXEMPLAR – Vice-presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, o arquiteto e professor Marco Massari foi o escolhido para presidir a comissão que aprovou o projeto do shopping Pátio Cianê por ter feito sua dissertação de mestrado exatamente sobre o projeto arquitetônico das fábricas têxteis de Sorocaba. Ele se disse primeiramente muito chocado com o acidente e, em seguida, fez questão de declarar que as empresas envolvidas no projeto fizeram tudo dentro das normas exigidas, apresentando todas as documentações necessárias. 

“Fiquei muito surpreso, porque todas as nossas solicitações foram atendidas ou estão em andamento. As empresas estavam demonstrando empenho e cuidado, chegando até a trazer arqueólogos para acompanhar as escavações que foram feitas e seguindo tudo de maneira exemplar”, declarou.

Massari explicou que o projeto previa preservação maior de características do prédio da fábrica Nossa Senhora da Ponte, que já está com trabalhos avançados. Em contrapartida, a intervenção no prédio da fábrica Santo Antônio, onde aconteceu o problema, seria muito maior. “Aquele prédio tem grau de tombamento 2. Isso significa que a preservação deve ser das fachadas e não há critério de intervenção interna. A parte interna com característica ampla, aberta e com iluminação natural, poderia ser totalmente alterada. É o que o projeto do shopping previa.”

Segundo Massari, a justificativa da empresa é que, sem as alterações, o projeto de shopping no local seria economicamente inviável. O prédio tinha subsolo e o primeiro pavimento. No projeto original, os pisos eram separados por um assoalho. Em uma intervenção que Massari não sabe precisar se foi na década de 40 ou 50, o assoalho foi substituído por uma laje de concreto. No subsolo, havia estruturas, pilares e vigas de concreto. No primeiro pavimento, pilares e vigas eram de metal e acima havia a cobertura de telhas de barro. “Em nossa última visita, eles haviam retirado a cobertura e todas as vigas e pilares de metal. Pelas fotos que vi na imprensa, agora já não havia mais nada da laje e nem dos pilares do subsolo.” Segundo o arquiteto, isso deixou as paredes sem nenhum travamento, o que era comum em construções antigas. 

“Não posso afirmar se foi o vento e a chuva ou alguma falha. Mas ficou claro que as paredes não tinham escoramento, embora fossem espessas, com mais de um tijolo de largura e extremamente resistentes. Outro fator que pode ter contribuído para a deterioração é a grande quantidade de veículos pesados que passa pela rua ao lado.” Ele também prefere aguardar o resultado da perícia antes de dar alguma opinião. “A princípio, acredito que tenha sido mesmo uma fatalidade.” 


MORTES NA CIANÊ

Após lágrimas da despedida, sepultamento das 7 vítimas é hoje

Familiares das sete pessoas que morreram no desabamento da parede da antiga fábrica de tecidos Cianê, farão os sepultamentos hoje. As vítimas foram veladas na Ofebas durante toda a tarde de ontem e madrugada de hoje. Quatro delas serão sepultadas no Cemitério Memorial Park, situado a rua Comendador Vicente Amaral, 4.025, Jardim Guarujá, entre as 8 e 10h30; outras duas, no Cemitério Santo Antônio, rua Luiz Gabriotti, 871, Jardim Wanel Ville IV, entre as 10 e 11 horas; e a última vítima foi velada e será enterrada na cidade de Cerquilho (SP).

Após a queda da parede, por volta das 19 horas, o resgate do Corpo de Bombeiros, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), estiveram na rua Comendador Oeterer para socorrer as vítimas, porém apenas um homem saiu com vida dos escombros. O soldador Anderson Schendroski Assunção, 26 anos, estava num Ford Fox com sua esposa, a assistente administrativa Samantha Bianca da Conceição, de 24, que morreu na hora. Assunção foi socorrido ao Hospital Regional e depois transferido para um hospital particular com ferimentos leves pelo corpo. 

Os tijolos da parede, que media cerca de 10 metros, caíram sobre quatro carros e uma motocicleta e, por pouco, não atingiram um ônibus municipal que transportava aproximadamente 45 passageiros. No local, foram encontrados ainda os corpos da auxiliar administrativa Nhayara Pâmela Airola, 25 anos, sua irmã Évelin Cristina Siqueira, de 30, e de seu sobrinho, Tiago Alves Siqueira, de 5. O taxista Humberto Dias Ferreira, de 53, e o vigilante Rayner Alves, de 28, estavam em horário de trabalho. Alves, encontrado na moto, estava em seu primeiro dia de trabalho. Também o médico Adilson Nunes filho, de 35, não resistiu aos ferimentos. Ele é natural de Cerquilho.

REVOLTA E TRISTEZA NOS VELÓRIOS – Mesmo em silêncio, sem querer se pronunciar sobre a tragédia, familiares das vítimas não escondiam a revolta com a fatalidade que lhes retirou o ente querido. No velório da Ofebas, o clima era uma mistura de hostilidade e muita emoção. Psicólogos contratados pela empresa responsável pela construção, acompanharam os familiares em todo momento.

Conforme informações de parentes e conhecidos, a mãe de Évelin e Nayara ficou viúva há cerca de três anos e estava bastante abalada com a perda das duas filhas e do neto. No momento da queda da parede, ela estava com outro filho de Évelin, de 8 anos, num carro mais à frente e eles saíram ilesos. As vítimas estavam no terceiro carro da fila, um VW Gol. A família é evangélica da igreja Batista em Sorocaba.

O pai do vigilante percebeu a demora do filho em voltar para casa depois do seu primeiro dia de trabalho e foi até o local para reconhecer o corpo. O vigilante estava logo atrás do VW Fox do casal com sua moto. Já o taxista, que tinha essa profissão há mais de dez anos, trabalhava no ponto do Mercado Municipal. Ele estava sozinho dentro do carro, um GM Corsa, e era o primeiro da fila de carros esmagados. O carro do médico estava atrás do taxista, um Honda Civic. Ele era especialista em endocrinologia e atendia em sua clínica e hospital particulares. Ele tinha dois filhos e seu corpo foi levado para a família em Cerquilho.

O clima também era de muita emoção na igreja Assembleia de Deus Ministério de Belém, no Jardim Guadalupe, onde foi velado o corpo de Samantha. Familiares, amigos e conhecidos da vítima prestaram as últimas homenagens à jovem de apenas 24 anos. Um primo dela informou que o marido, Assunção, sairia do hospital para dar o último adeus à esposa e disse que hoje ele acompanharia o funeral. Eles estavam no VW Fox indo fazer compras de Natal, e se preparavam para uma viajem.

INQUÉRITO POLICIAL – Na tarde de ontem, a Defesa Civil fez vistoria no local e a Polícia Civil instaurou inquérito para apurar as causas do acidente. O resultado do documento deverá ser divulgado em 30 dias. De acordo com o delegado da seccional de Sorocaba, José Beloti, imagens feitas pelas câmeras de monitoramento instaladas na via serão incluídas ao inquérito como provas. Conforme Beloti, peritos técnicos da polícia terminariam na tarde de ontem as análises iniciadas na madrugada.


Rua Comendador Oeterer está interditada por tempo indeterminado

A tragédia que abalou a cidade com a queda da parede da antiga fábrica Cianê, matando sete pessoas, mudou a rotina da cidade. O trânsito durante todo o dia de ontem ficou totalmente congestionado. A Urbes – Trânsito e Transporte informou que a rua Comendador Oeterer, próximo à rua Dr. Álvaro Soares, no local do acidente, está interditada por tempo indeterminado. Somente pedestres estão circulando pelo local. As faixas exclusivas para ônibus nas ruas Comendador Oeterer e Hermelino Matarazzo estarão liberadas para todos os veículos, na tentativa de diminuir o congestionamento.
 
As linhas de ônibus que passam pela via do acidente estão desviando pela alça de acesso do viaduto dos Ferroviários, e descem para a avenida Afonso Vergueiro. De lá, sobem para a rua Dr. Álvaro Soares, Luiz Ferraz de Sampaio Júnior (Ramo A) e chegam à Plataforma do Terminal Santo Antônio. 

As linhas são estas: 02 - Brasilândia; 05 – Vila Carvalho; 14 – Santa Rosália; 19 – Progresso; 20 – Carol; 21 – Lopes de Oliveira; 23 – Industrial / Dois Corações; 28 – Mineirão; 36 – Porcel; 38 – Aparecidinha / via Éden; 39 – Aldeia dos Laranjais; 39/1 – Santa Esmeralda; 42 – Laranjeiras; 45 – Retiro São João; 46 – Paineiras; 48 – Aparecidinha / Castelinho; 54 – Paes de Linhares; 57 – Guaíba; 59 – Maria Eugênia; 61 – Iporanga; 62 – São Bento; 62/1 – São Bento II; 64 – Paço Municipal ; 64/2 – Paço Municipal / Vila Santana ;64/4 - Paço Municipal / Maria Eugênia; 69 – Caguaçu; 70 – NV. Horizonte / Nv. Sorocaba; 76 – São Guilherme; 79 – Policlínica.

Prefeitura e Polícia Militar cancelam celebrações de Natal

Por respeito às vítimas do desabamento de parte da parede da antiga fábrica Cianê, a Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria da Cultura e Lazer (Secult), cancelou a última apresentação da 'Cantata de Natal da Estação' marcada para a noite de ontem (21). "Estamos consternados com a tragédia que marcou Sorocaba na noite de quinta-feira (20) e, por respeito e solidariedade às famílias das vítimas, optamos por cancelar as celebrações", justificou o prefeito Vitor Lippi, que também decretou luto oficial por três dias. 

"Fazemos esta festa para comemorar as alegrias do período e, neste momento, a tristeza que toma conta da cidade não permite que continuemos com as atividades", expressou o secretário da Cultura, Edmilson Chelles, reiterando que acredita na compreensão de toda a sociedade sorocabana para com a decisão.

As apresentações do 'Natal na Praça' também foram canceladas. O evento teve início no dia 7, na praça Coronel Fernando Prestes, com a apresentação de bandas, corais e teatro. 

O Comando do Policiamento do Interior (CPI-7) também cancelou a apresentação da IV Cantata de Natal, que seria ontem, às 20 horas, na sede localizada na Vila São Caetano. O espetáculo seria na fachada histórica do CPI-7, encerrado com uma grande queima de fogos.

 

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