Sábado, 28 de Março de 2020

Diário de Sorocaba





Leia a edição impressa na íntegra


Clique aqui para acessar a edição do dia
buscar

<< Fratura exposta no CHS; 48 pessoas em crimes de fraude e até homicídio Médicos que deixaram de atender a pacientes e ganhavam até R$ 15 mil podem ter que devolver todo o dinheiro desviado

Publicada em 17/10/2011 às 23:27
Compartilhe: IMPRIMIR INDICAR COMENTAR

As investigações do inquérito apontam para mais de R$ 20 milhões de prejuízo com os acusados pelos crimes desviando dinheiro público do Hospital Regional (Foto: Fernando Rezende)
Desde o segundo semestre de 2006 até o dia 16 de junho de 2011, foram mais de R$ 20 milhões desviados em um grande esquema de corrupção na administração do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), que pode chegar a ser do tipo contagioso – o Estado de São Paulo todo pode ter esquemas parecidos em outras cidades com complexos médicos similares.

Plantões fantasmas, fraudes em licitações e até um homicídio culposo estão nas mais de 33 mil páginas de todo o inquérito, finalizado no fim de semana e oferecido ontem para a Justiça. Se tivessem trabalhado como deveriam, os acusados poderiam ter atendido a 65.430 pessoas que deixaram o CHS com as suas enfermidades.

Um homem adulto chegou a morrer sem atendimento por conta de um médico que não compareceu ao plantão. A vítima chegou às 4 horas e praticamente sangrou até morrer, às 9 horas; uma simples endoscopia salvaria o homem. Mais de 60 mil horas de conversas comprovam do que as autoridades policiais acusam os envolvidos. Em uma delas, o ex-secretário estadual de Esportes, Jorge Pagura, que nunca pisou no CHS, conversa de um evento de polo aquático do Rio de Janeiro com Salim sobre um ponto a combinar. Apesar dos pesares, ele ainda continua comissionado no CHS. Ele está indiciado pela Operação Hipócrates por falsidade ideológica e formação de quadrilha.

“É descarado, revoltante toda essa situação. Quem sofreu a maior pena foi a população. Nosso trabalho deixou uma fratura exposta no Hospital Regional”, diz o promotor Wellington Veloso, do MP/Gaeco. 

As pessoas que as autoridades indiciaram são 48, no maior inquérito criminal já elaborado na cidade de Sorocaba. São 19 médicos, três dentistas, 12 enfermeiros, um farmacêutico, um auxiliar de enfermagem, cinco funcionários e ex-funcionários e sete empresários, e mais outras 40 pessoas que estão arroladas e podem ser investigadas em um trabalho paralelo – o volume de ilícitos e novas revelações de investigações são muitos e as autoridades tiveram de traçar um parâmetro para começar a investigar as denúncias.

O Ministério Público/Gaeco e o Grupo Antissequestro (GAS) deflagram a Operação Hipócrates, que investigou um grande esquema de corrupção na administração do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS). Uma entrevista coletiva na manhã de ontem passou todos os detalhes para a imprensa, na sede da delegacia do GAS.

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), que abriu sindicância para apurar a conduta dos médicos, também deve aplicar sanções que podem culminar com a cassação do registro para exercer a profissão.

Dezenas de volumes do inquérito foram entregues às 11h25 no Fórum da cidade, sob os cuidados do juiz de Direito Hugo Leandro Maranzano, da 3ª Vara Criminal de Sorocaba. Por conta das ramificações que pode chegar a outros complexos médicos do Estado, o Tribunal de Contas, a Procuradoria Geral de SP, bem como a Secretaria de Saúde e outros órgãos competentes serão notificados e também receberão cópias do inquérito da Operação Hipócrates, para que novas providencias sejam tomadas.

Além dos plantões fantasmas, as investigações apuraram que houve de tudo nas licitações feitas no CHS – superfaturamento, desvio de foco, favorecimento, entrega diversa do material relacionado e adulterações de notas. Propinas com quatro empresas de órteses e próteses também ocorreram; só essa parte já causou um prejuízo da ordem de R$ 20 milhões.

O delegado Wilson Negrão e a promotora Maria Aparecida destacaram que a importância do trabalho conjunto do GAS e MP/Gaeco foi fundamental para que as investigações tivessem a maior qualidade possível. “Não houve pressa porque queríamos um bom trabalho finalizado”, disse Negrão.

Diretores do CHS envolvidos

A organização, encabeçada pelo ex-diretor do CHS, Ricardo José Salim, é acusada de desviar verbas destinadas ao pagamento de plantões a servidores do Conjunto Hospitalar, direcionando-as para beneficiários que não cumpriam suas jornadas de trabalho. Outros acusados são Célia Chaib Arbage Romani, Tânia Aparecida Lopes, Tarley Eloy Pessoa de Barros, Maria Helena Pires Alberici, Vera Regina Boendia Machado Salim, Edson Brito Aleixo, Edson da Silva Leite, Heitor Fernando Xediek Consani, Márcia Regina Leite Ramos, Kleber Castilho e Antônio Carlos Nasi e Tânia Maris de Paiva.

Salim, Nasi, Sidnei Abdala e Consani eram ex-diretores do CHS e desempenhavam função importante em gerenciar todo o esquema criminoso. Salim foi o primeiro a ser investigado na Hipócrates, que demarcou um período específico para se dar as investigações, mas as fraudes existam desde a gestão anterior, de Sidnei Abdala [2006]. Plantões fantasmas, em que médicos não compareciam e ganhavam de R$ 660,39 por presencial, e R$ 330,19 por distância, funcionavam desde então [gestão de Consani, encerrada em junho com a operação deflagrada]; auxiliares de enfermagem ganhavam R$ 198,93 e de farmácia, R$ 197,75.

Com Salim foram 4.040 plantões fantasmas. O prejuízo chegou a R$ 1.690.077,70. Na gestão de Nasi, foram 151 plantões, com R$ 53.856,51 desviados dos cofres públicos. Consani, em sua gestão, teve 239 plantões fantasmas, com um prejuízo de R$ 76.890,9. Ao todo foram R$ 1.920.825,20.

Consani foi indiciado por peculato, formação de quadrilha, fraude em licitação e falsidade ideológica, bem como Abdala e Nasi. Além de todos esses crimes, Salim foi indiciado por corrupção ativa. Todos os 47 acusados estão envolvidos em alguns desses crimes. O homicídio culposo está atribuído apenas a um médico, mas a polícia já garantiu que novas investigações podem levar ao indiciamento de mais profissionais que deixaram de comparecer aos plantões e que tenham causado mortes por conta disto. 

Sujeira por toda SP; ex-secretário de
Esportes e ex-coordenador também indiciados

Há indícios fortes de que esse esquema criminoso pode funcionar em todo o Estado de São Paulo, conforme informaram os delegados do GAS, Wilson Negrão e Rodrigo Ayres da Silva, e os promotores do Gaeco, Wellignton Veloso, Maria Aparecida Rodrigues Mendes Castanho e Cláudio Bonadia, responsáveis pela operação. O ex-secretário estadual de Esportes, Jorge Pagura, e o ex-coordenador de Saúde do Estado, Ricardo Tardelli, também foram indiciados por falsidade ideológica.

O patrimônio pessoal dos acusados pode ser bloqueado pela Justiça como garantia do ressarcimento. “Pode ocorrer, sim, um sequestro de bens para ressarcir o dinheiro conseguido de maneira ilícita. Algumas pessoas só entendem o mal que fazem quando se mexe no bolso delas”, afirmou a promotora Maria Aparecida   referindo-se aos acusados como "bandidos". Os envolvidos podem ainda sofrer impedimento do exercício de função pública e, no caso de servidores concursados, estão sujeitos a processo de demissão a bem do serviço público.
 
 
Não há comentários nessa notícia.Seja o primeiro a comentar